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Terça, 1 de setembro de 2009, 08h03

A perspectiva para a exportação e competitividade

João Henrique Rosa/Divulgação
Competitividade brasileira não pode se limitar a produtos primários, avalia Julio Gomes de Almeida
Competitividade brasileira não pode se limitar a produtos primários, avalia Julio Gomes de Almeida

Julio Gomes de Almeida
De São Paulo

Um dos motivos que levaram à recessão da economia brasileira no quarto trimestre de 2008 e primeiro trimestre desse ano foi a grave queda das exportações do país. Isso se deu em especial do lado da indústria, o que respondeu, segundo alguns estudos, por metade da retração da produção industrial brasileira desde que a crise internacional se agravou em setembro do ano passado.

A queda nas vendas para o exterior já vinha ocorrendo antes mesmo da crise, pois a grande valorização da nossa moeda entre os anos de 2005 e 2007 subtraiu competitividade do produto brasileiro em larga escala. Quando veio a crise de pouco adiantou a desvalorização do Real. A retração dos mercados externos que atingiu as principais economias desenvolvidas derrubou nossas exportações, assim como as exportações de muitos outros países.

Pois bem, a situação dos meses finais de 2009 pode ser diferente. A nossa moeda passou a se valorizar rápida e intensamente, mas as principais economias do mundo já mostram sinais de que superaram a recessão que se prolongava desde 2008. Ainda não é uma recuperação digna desse nome, pois o que está ocorrendo é mais propriamente uma paralisação das sucessivas quedas anteriores, sem que, no entanto, um movimento mais forte e inequívoco de retomada econômica se apresente. Mas será o bastante para reanimar o comércio exterior mundial que tão fortemente caiu com a crise.

Mesmo que o câmbio não esteja favorável, o produtor brasileiro não deixará de exportar caso, de fato, a demanda externa tenha uma melhora. Vai preferir isso a nada, na esperança de que o câmbio um dia melhore. Muita gente vai dizer que isso prova que não é a valorização cambial o fator determinante dos nossos limites para exportar, mas essa conclusão não é correta. O câmbio é um dos determinantes das vendas ao exterior, ao lado da demanda externa. O câmbio é mais importante para o dinamismo das vendas ao exterior de produtos manufaturados a médio e longo prazo e é indutor de investimentos para exportação.

Se as economias centrais superarem a recessão, haverá mais exportação de produtos brasileiros, mas também outros países irão querer exportar mais e ai a valorização excessiva da nossa moeda e o atraso brasileiro em outros fatores de competitividade farão a diferença, de forma que nesse processo o Brasil pode ficar para trás.

Se o Brasil desejar voltar a ter a baixa participação que tinha no comércio mundial antes da crise (por volta de 1%) não poderá se contentar com apenas algum crescimento das exportações motivado pela saída da crise das principais economias mundiais. Ao contrário, terá que revisitar em profundidade a forma como estrutura a sua política cambial e terá que encarar de frente e com muito maior urgência do que vem fazendo os fatores que reduzem a competitividade da indústria nacional. No Brasil o produto primário desfruta de uma razoável competitividade a nível internacional, mas se o produto recebe transformações posteriores isso vai gerando perdas sucessivas de capacidade relativa de competição com o exterior.

As causas para isso são conhecidas, o que não exclui uma nova rodada de diagnóstico profundo da situação. Tributação elevada, distorcida, e que ainda incide sobre o exportador é uma delas. Infraestrutura ruim e cara é outra, assim como os juros excessivos e o custos dos encargos cumulativos que recaem sobre a folha de salário. Essa é uma agenda decisiva de um programa para a economia brasileira pós-crise.


Júlio Gomes de Almeida é professor da Unicamp e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda.

Fale com Júlio Gomes de Almeida: jgomesalmeida@terra.com.br

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