Atualizada às 22h20 |
Márcio Dantas/Divulgação
Quarta cidade mais antiga do País, São Cristóvão é candidata a patrimônio da humanidade
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Claudio Leal
Cidades históricas, Laranjeiras e São Cristóvão se tornaram um dos eixos prioritários do governo de Sergipe, que pretende ampliar o fluxo de turistas. Projetos de recuperação histórica, financiados pelo programa Monumenta, pretendem dar nova feição aos sítios sergipanos. Entre as metas, está a de integrar a conservação a atividades educacionais e culturais.
Para assinalar a prioridade, o governador Marcelo Déda (PT) criou a subsecretaria do Estado para o Patrimônio Histórico e Cultural, atualmente dirigida pelo professor e antropólogo Luiz Alberto dos Santos. As intervenções são acompanhadas pela secretarias de Cultura e de Turismo, com a articulação da Casa Civil. O Palácio Olímpio Campos, em Aracaju, também é alvo de minucioso restauro.
Em entrevista a Terra Magazine, o secretário da Casa Civil, Oliveira Júnior, fala dos projetos para o patrimônio e comenta a candidatura de São Cristóvão, a quarta cidade mais antiga do Brasil (fundada em 1590), a patrimônio da humanidade.
- O governo está fazendo campanhas de marketing, está mobilizando os estudantes, implantando nas escolas aquilo que a gente chama de educação patrimonial. Para fazer com que a cidade tenha amor a seu patrimônio. Essa é a primeira grande meta. O segundo é a chegada do turista, porque promove uma recuperação econômica que faz com que o cidadão dê valor ao patrimônio - diz o secretário do governo Déda.
Confira a entrevista:
Terra Magazine - As reformas são direcionadas para cidades históricas e sítios na capital?
Oliveira Júnior. - O governo foi feliz, principalmente a partir de uma experiência na cidade de Laranjeiras, em fazer investimento em patrimônio e vincular a recuperação dos prédios a um programa que dê vida aos sítios. Por conta disso, surgiu em Laranjeiras o campus da cultura, que é uma extensão do campus da Universidade Federal de Sergipe. Passou a sediar quatro cursos superiores na área de cultura - arqueologia, dança, teatro e arquitetura - e esses imóveis se integraram à vida da cidade, promovendo uma recuperação urbana, com sentido estruturante para a ação cultural. Não se limita à mera recuperação do prédio em si, mas produz um novo espaço.

Oliveira Júnior, secretário da Casa Civil de Sergipe (Foto: Lucio Telles)
De onde veio o financiamento?
Tanto a cidade de Laranjeiras como a de São Cristóvão são financiadas pelo programa Monumenta, do Iphan. Nesse programa, o governo tem uma forte participação de recursos e, a partir daí, a gente tem buscado esse trabalho de articular políticas de recuperação do patrimônio com outras ações culturais.
Nos últimos anos, o Estado brasileiro tem demonstrado desinteresse pela preservação de áreas históricas. Como se deu o desenvolvimento desse projeto do governo estadual?
Aí nós temos duas circunstâncias felizes. A primeira é a ligação muito forte do governador com a área de cultura. Ele é uma pessoa com uma certa vocação intelectual, pessoalmente tem preocupação com o tema. O caso de Laranjeiras tem um fato mais curioso, que é a própria intervenção do ministro Gilberto Gil à época. Ele conhecia o sítio e fez muita questão de recomendar ao Iphan que procurasse políticas de articulação e de recuperação cultural, com o aproveitamento do espaço. No caso de Laranjeiras, é uma cidade bastante antiga, que o teve o período áureo com a exploração da cana-de-açúcar, mas que estava numa decadência muito grande por conta da mudança de pólo econômico. De repente, você tinha lá bonitos imóveis, bonitos casarões, e não tinha mais a população com a riqueza antiga. A cidade estava se esvaziando mesmo. Quer dizer, com a chegada da universidade, a gente mudou o pólo econômico da cidade. Com isso, você tem a chegada do núcleo de serviços, que muda a característica econômica da cidade.
E no caso de São Cristóvão?
A quarta cidade mais antiga do Brasil. São Cristóvão é candidata a patrimônio da humanidade. Teve sucesso um projeto de muitos anos, que foi submetido à Unesco, e o governo optou por fazer alguns investimentos estruturantes, desde aspectos de infra-estrutura de esgotamento sanitário a aspectos de embelezamento da cidade e de conservação do meio ambiente e do próprio sítio histórico. A visitação turística sofreu um pouco, porque, para serem restaurados, os prédios precisaram ficar fechados. Mas agora estamos na fase de inaugurar o Museu de Sergipe, um prédio histórico que vai ser entregue à população. A gente espera que a cidade encontre um momento de maior aproveitamento pelo turismo, reapresentando esse patrimônio numa forma mais conservada. São sete igrejas importantes. Sete sítios estão sendo restaurados e a abertura disso pra visitação pública vai permitir um novo momento.
No Brasil, as linhas de financiamento para essas ações de recuperação histórica são suficientes? É um processo difícil?
É verdade, é muito dificultoso. O que nós tivemos de novidade aí no cenário nacional, no caso, é esse volume de investimentos - a origem dele é do Bid (Banco Interamericano de Desenvolvimento), o Iphan é o órgão brasileiro que organiza o programa. Um dos exemplos é a viabilização do financiamento para os imóveis privados. Até mesmo o proprietário de imóvel privado pode se candidatar. Agora, como tudo no Brasil, infelizmente você tem razão quando diz assim: é um tema difícil. Muitas vezes o próprio proprietário do imóvel histórico não quer a preservação, porque isso restringe o uso do imóvel e reduz o valor de mercado dele. O que tem que fazer é articular a política com a organização de eventos ligados à atividade produtiva, pra que você recupere junto o patrimônio e a vida urbana, pra que as pessoas não se sintam desvalorizadas por estarem num imóvel histórico. Que compreendam aquele valor.
Está prevista a próxima etapa?
O governo se prepara para, nesse momento de verão, que é o pico do movimento turístico de Sergipe, ter esses imóveis abertos pra visitação pública. Com o envolvimento da própria cidade. O governo está fazendo campanhas de marketing, está mobilizando os estudantes, implantando nas escolas aquilo que a gente chama de educação patrimonial. Para fazer com que a cidade tenha amor a seu patrimônio. Essa é a primeira grande meta. O segundo é a chegada do turista, porque promove uma recuperação econômica que faz com que o cidadão dê valor ao patrimônio e note que aquilo ali faz sentido para pessoas que querem conhecer. Isso gera renda. E o terceiro é a interligação disso com as políticas públicas. A política de cultura serve de eixo para integrar os programas de governo. Você tem uma sinergia de ações e aí dá pra juntar programas culturais com os da educação, de aproveitamento desses espaços para fins culturais, apresentações musicais, teatrais, mobilização da comunidade... Tudo isso faz parte de nosso projeto de candidatura de São Cristóvão. É a reaproximação da cidade com sua origem. A gente está chamando São Cristóvão de "berço eterno", porque foi a primeira capital do Estado, mas que hoje precisa ser fator de uma recuperação da auto-estima.
Como está, em Sergipe, a integração da cidade moderna com esses sítios históricos? Não costuma ser uma relação pacífica.
Não, não é uma coisa pacífica, é muito conflituosa. Nesse caso, tanto São Cristóvão como Laranjeiras são cidades muito próximas ao núcleo urbano de Aracaju. Mas, em todas as duas, os sítios históricos ficam numa parte central que está relativamente descontaminada desses aspectos da expansão urbana. Em São Cristóvão, por exemplo, você tem muitos conjuntos populosos, onde a população tem faixa de renda relativamente baixa, mas que não estão no núcleo histórico. Então, a atividade a que o Estado está se propondo é justamente tentar ver alguns serviços de infra-estrutura e até mesmo do plano diretor da cidade, pra que esses sítios sejam preservados. O fato de a expansão urbana ter ocorrido na periferia permite que a região mais tradicional tenha ficado alheia a esse movimento de ocupação populacional.

Afrescos do Palácio Olimpio Campos, em Aracaju, foram recuperados (Foto: Márcio Dantas)
Como o Palácio Olímpio Campos, em Aracaju, se integrou a esse projeto mais amplo?
O Palácio Olímpio Campos é um monumento da República em Sergipe. Porque o principal período histórico do palácio coincide com o momento da República. Nós já fizemos com recursos do governo do Estado o trabalho de reformar, pra se tornar um paradigma de recuperação arquitetônica. Os afrescos e o mobiliário, que dão maior valor ao palácio, foi todo ele restaurado, por pessoas especializadas. Nós pretendemos, no final do ano e início do próximo, no máximo, entregar ao público com visitação. O palácio vai seguir um conceito que está sendo muito usado de "palácio-museu". Ou seja, ele vai ter simultaneamente o funcionamento pra atos solenes do governo, vai ter recursos da Casa Civil - ele continua tendo sua sobrevivência assegurada, isso viabiliza a conservação adequada -, mas simultaneamente vai estar aberto ao público.
Ele ainda é utilizado?
Ficou fechado por vários anos. Tem mais de dez anos que não é ocupado permanentemente e as reformas feitas nos últimos 30 anos foram apenas de conservação do ponto de vista da engenharia civil. Na verdade, uma repintura ocular, uma mera conservação física, sem nenhuma preocupação com o valor histórico do prédio em si. A novidade é que esse palácio foi redescoberto, debaixo de dezenas de camadas de pintura a gente conseguiu recuperar a forma como ele era pintado possivelmente na primeira, segunda década do século XX. Toda essa pintura foi feita preservando cores, o ambiente. A parte estrutural do palácio estava relativamente bem conservada. Conjuntamente, houve a restauração das peças do mobiliário, cerca de 400 peças. Todo esse material está sendo utilizado no sentido de contar a história da República em Sergipe.
Qual é a avaliação que já se faz da recuperação do centro histórico de Aracaju?
A recuperação do Palácio é um elemento do centro histórico. Existem outras intervenções que o governo está fazendo, em fase de licitação, como a recuperação do Ateneuzinho, que é como a gente chama um antigo colégio. São duas intervenções, há outras em fase de projeto que vão ser objetos do governo no futuro.
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