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Terça, 1 de setembro de 2009, 16h49

Avaliando o Olhar da Mídia para o "Legado" Kennedy

Cristopher Hitchens
Do The New York Times

Quando me deparei com a propaganda de página inteira no New York Times de domingo, eu já estava tão entorpecido e habituado que nem cheguei a considerar grotesco o que vi. Naquele pedaço de papel se sobressaíam as palavras: "O trabalho continua, a causa permanece, a esperança ainda vive e o sonho jamais morrerá". Logo em seguida, havia o nome do político que um dia lera essas palavras em seu discurso.

A declaração parece em perfeita sintonia com a determinação da mídia de massa dos Estados Unidos em não desistir até que cada criança do país, ou até mesmo do mundo, saiba de cor todas as palavras do estrategista Bob Shrum. No rodapé da página, em letras miúdas, lê-se: "Continuemos seu legado de fé nas pessoas e no trabalho que ainda está longe de ser concluído." Isso também poderia ter saído de praticamente qualquer homenagem feita depois do dia 26 de agosto. Por último, a logomarca da Levi's e o slogan aguerrido: "Go Forth" ("Vá Além"). (E fazer o quê? Multiplicar-nos? Agora que os Kennedys já se foram.)

Quando reiteradas infinita e incessantemente, as palavras mais comuns começam a perder seu real sentido. A palavra "sonho" é hoje algo tão vago a ponto de perder seu conteúdo e, com o auxílio de Barack Obama, "esperança" vai pelo mesmo caminho. Por exemplo, em duas ocasiões no sábado eu ouvi as palavras da igreja católica durante a cerimônia fúnebre, sobre a "esperança certa e garantida da ressurreição". Se isso significar alguma coisa, não é que haja algo de garantido quanto à ressurreição, mas sim quanto à esperança que as pessoas têm dela.

Um dos aspectos mais desprezíveis do "legado" Kennedy é a incontrolável horda de políticos/celebridades, tratando de sair bem na mídia, sua artificialidade e a retórica incansável da "transmissão do legado". Umas velhas imagens com obituários de arquivo mostraram um momento em que isso começou a acontecer. Em 1962, apesar de ter sido preparado por sua família a assumir a cadeira no Senado pelo estado de Massachusetts, Edward Kennedy (vou chamá-lo assim porque nunca o conheci pessoalmente) deparou-se com um oponente forte e articulado nas primárias chamado Edward J. McCormack Jr., procurador-geral do estado.

As imagens mostravam McCormack acusando o oponente de aproveitador e apontando a influência da família em sua carreira - para então mostrar um tipo de luz penetrando os olhos de Kennedy enquanto ele segue com seus blefes e diz que a eleição nada tem a ver com o poder de influência da sua família em Washington, mas é uma expressão do "destino" do povo de Massachusetts. Quando os aplausos falsos começam a crescer e McCormack se dá conta de que os tempos estavam mudando, é quase possível ouvir o futuro herdeiro do senado pensar: Essa foi fácil.

A família que o senador deixou deve estar pensando a mesma coisa, porque toda a história de glória dos Kennedy foi transmitida em rede nacional. Acho que agora eles já pensam que isso é um direito adquirido. Claro que "a tragédia" no incidente de 1969 em Chappaquiddick teve sua utilidade. Mesmo assim, deve ser necessária uma boa dose de ingenuidade das redes de TV para simplesmente ignorar as simpatias fascistas e o histórico de falsário de Joseph Kennedy pai, as campanhas sanguinárias de seus filhos em Cuba, as ligações com a máfia, o assassinato de Ngo Dinh Diem no Vietnã, os vícios em narcóticos cada vez mais frenéticos e patéticos de JFK, a exploração de mulheres frágeis como Marilyn Monroe, e tanto mais.

De certa forma, essa cobertura medíocre revelou-se um desserviço até para o falecido. Afinal de contas, era verdade, em parte, que o irmão mais novo sobreviveu ao histórico criminoso, narcisista e sedento por poder de sua família. Na manhã seguinte à morte de Edward Kennedy, seu melhor biógrafo, Adam Clymer, escreveu que era muito equivocado ver a descontinuidade na carreira de Kennedy e que ele tivera sido, de fato, um legislador competente antes de abandonar a corrida pela Casa Branca em 1980. Isso tudo pode ser verdade, mas os obituários teriam sido bem diferentes - dada a índole da profissão jornalística - se Kennedy tivesse morrido em 1991, na época do episódio na boate Au Bar, de Palm Springs, e não tivesse decidido se tornar novamente um cidadão decente.

Um ex-colaborador de Kennedy nos tempos de senado sentou comigo semana passada e contou-me que a presidente socialista do Chile, Michelle Bachelet, havia visitado a casa de Kennedy no ano passado e oferecido ao Senador o prêmio de direitos humanos mais prestigiado em seu país. Seu trabalho nessa área é talvez uma emenda para compensar o que seus irmãos fizeram no hemisfério sul, o que Lyndon Johnson chamou de "maldita Família Assassina". Então, é claro, seu trabalho na questão da saúde (em que até Richard Nixon possuía melhor histórico) e sua última decisão de encarar a vida de frente prevaleceram.

Naqueles meses próximos do fim, depois da repulsa que sentiu ao ver a propaganda anti-Obama se espalhar pelo partido democrata nas primárias - que depois foi retomada pela direita nas eleições gerais - ele retirou seu apoio à candidatura de um político cuja vitória significaria a perpetuação de mais uma dinastia política como Bush, Gore ou Clinton. Que favor ele fez a nós com sua repulsa! E que conveniente que o autor do ato heroico seja um Kennedy. A retórica política do Obamanismo é até mais verborrágica que a dos Kennedy, mas não se pode ter tudo. A verdade é que, não só nos EUA, as pessoas reagem com muita facilidade a questões como redenção, reparação, e a compensação por tempo e oportunidades perdidos. Como diriam os gregos, o homem só é feliz quando morre. O último ano de Kennedy foi talvez seu melhor, e quantos homens e mulheres têm o luxo de poder dizer isso?

Christopher Hitchens é jornalista, escritor e colunista de Vanity Fair e Slate Magazine. É autor do livro "Deus não é Grande: como a religião envenena tudo". Artigo distribuído pelo The New York Times Syndicate.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

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Um dos aspectos mais desprezíveis do "legado" Kennedy é a incontrolável horda de políticos/celebridades, diz Hitchens

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