
Atualizada às 09h32 Amilcar Bettega
De Porto Alegre (RS)
Às 23:07 da noite de 31 de agosto de 2009, num boteco da Av. Independência, em Porto Alegre, um alemão (acho), falando bem o português mas com um forte sotaque, conversa sobre sociologia (ou melhor, monologa, porque o seu companheiro parece não prestar muita atenção no que ele diz).
Um garoto, meio flanelinha meio pivete, entra e vai até o caixa para comprar um cigarro avulso. Está muito sujo e de seu corpo emana um odor, digamos, não muito agradável. Mas também não muito menos agradável do que o odor reinante no boteco. O boteco é um legítimo pé-sujo. Bem sujo, aliás, e fedorento. Ainda assim, depois que o garoto acende o seu cigarro no isqueiro preso a um barbantinho junto ao caixa e vai embora, a mulher do dono do boteco (esse gordo barrigudo que não levanta de sua cadeira à frente do caixa) puxa de dentro do balcão um frasco de Bom Ar e dá uma pulverizada em direção ao local há pouco ocupado pelo garoto. Boa parte do material espargido vai parar na cabeça do marido, que resmunga alguma coisa para a mulher. Ela abana a mão na frente do nariz, faz uma cara de nojo e sacode a cabeça, incentivando, com um olhar que busca, um comentário qualquer dos outros clientes que se empoleiram pelo balcão e em algumas mesas mais distantes.
Um homem muito magro e alto, de pé junto ao balcão e a sua cerveja choca, aceita imediatamente o "convite" para entabular uma conversa e "agradece" falando algo sobre a falta de banho do garoto. Em seguida ele fala do calor (está muito quente e abafado, ele parece sofrer com isso), reclama do clima da cidade, tanto no verão quanto no inverno, e mais ainda do clima de verão durante o inverno, insiste com outras observações meteorológicas misturadas à repetição de clichês à propósito do aquecimento global. Mas acaba se calando ao perceber que já ninguém o escuta, muito menos a mulher do dono do boteco, que se enfiou por uma pequena porta ao lado de um freezer, que comunica, muito provavelmente, com a cozinha do boteco.
Em seguida as atenções se voltam para uma mesa no fundo do bar onde uma menina (meio histérica, já vista um outro dia, num outro bar perto dali, jogando snooker com seus amigos) começa a chorar convulsivamente enquanto um rapaz tenta consolá-la. A mulher do dono do boteco vai até lá e coloca a mão no ombro da menina. Ela parece estar bêbada, ou num estado ainda mais alterado por outras substâncias mais potentes que o álcool. Mas a coisa passa assim como veio. Em seguida ela já está bebendo uma cerveja e rindo do que lhe conta uma outra amiga que acaba de chegar.
O parceiro de mesa do alemão não aguenta o blablabla "cabeça" do outro, dá uma desculpa qualquer e vai embora. Antes de sair, se acerta com o alemão para pagar a cerveja dele mais tarde. O alemão, meio bêbado, faz uma conta onde entra a fatura da luz no meio (são colocatários de um apartamento em frente ao boteco). O alemão paga as cervejas consumidas (sete), vai para o balcão e pede mais uma. Puxa conversa com o dono do boteco (é um habitué, chama os proprietários do bar pelo nome), o homem responde com resmungos esparsos.
Logo depois entra um caminhoneiro barbudo, de chinelo de dedo e chapéu. Outro habitué. Pede uma cachaça, entorna o copo de um só gole, pede outro e, este sim, beberica devagar. Ao ver o dono do boteco consultando suas mensagens no celular, fala alguma coisa sobre os diversos planos das diversas operadoras de telefonia celular. Diz que tem um chip de cada uma delas e cada vez que vai falar com alguém ele usa o chip da operadora do seu interlocutor. Para, dependendo do plano, não pagar, ou pagar mais barato, a ligação.
O dono do boteco resmunga qualquer coisa.
O caminhoneiro diz que já perdeu vários chips ("essas merdinhas são menores que um cu"), o suficiente para pagar a conta de um celular ligando para todas as operadoras possíveis. Mas ainda assim ele continua comprando e perdendo chips.
O alemão (que não tem nada do clichê de alemão que a gente traz na cabeça, do tipo mais fechado e tal) não se aguenta e entra na conversa falando de como a coisa funciona no México (a coisa, no caso, é o sistema de telefonia celular). Os dois estão com muita vontade de conversar e passam a assuntos tão variados quanto a graduação alcoolica da grapa até às más condições das estradas perto de Carazinho e na Costa do Marfim.
O amigo do alemão (que divide o apartamento com ele) volta ao bar para lhe pedir a chave pois esquecera a sua lá dentro. Volta ao apartamento e, em seguida, volta ao bar para devolver a chave ao alemão.
Alguns minutos depois a garota histérica, bêbada, ou com algo mais no sangue, sai com os amigos. De passagem, cumprimenta o alemão e dá dois beijinhos no rosto da mulher do dono do boteco.
O homem muito alto e magro já foi embora há algum tempo sem que ninguém se desse conta.
Deixo o boteco, caminho alguns metros pela Av. Independência, desço na Barros Cassal e entro no apartamento que ocupo quando me encontro em Porto Alegre.
Aos 12 minutos do dia primeiro de setembro de 2009, escrevo no meu caderno de anotações:
"Fui ao bar com o objetivo bem preciso de me 'inspirar' em alguém ou algo e escrever uma ficção para a minha coluna no Terra Magazine de amanhã.
"Normalmente escrevo ficções neste espaço.
"Às vezes, nem é preciso."
Terra Magazine