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Quarta, 2 de setembro de 2009, 07h40

Sobre o tempo de caminhar até um poço

Ronaldo Correia de Brito

Quando estive na Feira do Livro de Salvador, em abril, fui procurado por um jovem chamado Adriano Monte Alegre. Ele me pediu que lesse o original de sua novela Os pedaços de uma história. Li e fiz anotações ao pé das páginas. Escrevi para Adriano, comentei o que havia achado do texto e prometi mandar o original de volta, com minhas observações, todas em caligrafia bem desenhada, pois os médicos possuem a má fama de só escreverem garatujas.

Não mandei e peço desculpas a Adriano. Não tenho secretária e se gasta um tempo em embalar os livros, pôr num envelope, escrever destinatário e endereço, nome e endereço do remetente e sair de casa para botar no correio. Esse tempo que o escritor francês Antoine de Saint-Exupéry refere no seu maltratado O Pequeno Príncipe, agora novamente na lista dos mais vendidos na ficção. Não seria autoajuda?

Na sua viagem interplanetária o principezinho encontra um sujeito que economiza tempo engolindo comprimidos ao invés de água, e pergunta a ele o que fará desse tempo economizado. O sujeito responde na maior cara de pau que terá mais tempo e pronto, bem ao estilo capitalista dos que investem dinheiro na bolsa de valores para simplesmente ter mais dinheiro.

Não dêem importância à minha citação truncada. Há anos não releio O Pequeno Príncipe. Mas, juro: não brinco com esse livro maltratado por misses, debutantes, modelos e afins. Por favor, não precisam escrever me descompondo, nem falando que eu deveria ser mais cuidadoso com o que escrevo, etc... Tão logo envie esse texto para a Terra Magazine, voltarei a Exupéry. Adoro Terra dos Homens. Vocês já leram?

Continuando. O pequeno príncipe diz que se tivesse todo aquele tempo que o cara economizou, iria caminhando até um poço e saciaria a sede. Ou ele diz simplesmente que beberia água? Parece-me mais natural que um principezinho de um planeta em que mal cabem duas pessoas fale apenas beber água.

Se eu tivesse todo esse tempo, iria até uma agência de correios e postaria os originais de todos os livros de contos, romances e novelas que os amigos me pediram que lesse e comentasse. Claro que eles precisariam estar bem lidos e anotados. E isso tem sido impossível e é o motivo dessa crônica atrapalhada: um pedido de desculpas.

Sei o quanto é importante que leiam os nossos escritos. Os autores vivem dos leitores. Não apenas de leitores diferenciados, mas dos leitores comuns, aos quais se referia com elogios a escritora inglesa Virgínia Woolf. Porém, também precisamos de leitores balizados. O francês Guy de Maupassant era lido por Flaubert. E o russo Gogol considerava ao extremo a crítica de Puchkin. Ah, se sobrasse tempo para ler todos os livros que nos chegam às mãos. Infelizmente, ele falta até mesmo para a caminhada ao poço, onde se bebe água fresca e cristalina.

A propósito, é mesmo verdadeira essa referência ao O Pequeno Príncipe? Preciso conferir.

Ronaldo Correia de Brito é médico e escritor. Escreveu Faca, Livro dos Homens e Galiléia.

Fale com Ronaldo Correia de Brito: ronaldo_correia@terra.com.br

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