
Ronaldo Correia de Brito
Quando estive na Feira do Livro de Salvador, em abril, fui procurado por um jovem chamado Adriano Monte Alegre. Ele me pediu que lesse o original de sua novela Os pedaços de uma história. Li e fiz anotações ao pé das páginas. Escrevi para Adriano, comentei o que havia achado do texto e prometi mandar o original de volta, com minhas observações, todas em caligrafia bem desenhada, pois os médicos possuem a má fama de só escreverem garatujas.
Não mandei e peço desculpas a Adriano. Não tenho secretária e se gasta um tempo em embalar os livros, pôr num envelope, escrever destinatário e endereço, nome e endereço do remetente e sair de casa para botar no correio. Esse tempo que o escritor francês Antoine de Saint-Exupéry refere no seu maltratado O Pequeno Príncipe, agora novamente na lista dos mais vendidos na ficção. Não seria autoajuda?
Na sua viagem interplanetária o principezinho encontra um sujeito que economiza tempo engolindo comprimidos ao invés de água, e pergunta a ele o que fará desse tempo economizado. O sujeito responde na maior cara de pau que terá mais tempo e pronto, bem ao estilo capitalista dos que investem dinheiro na bolsa de valores para simplesmente ter mais dinheiro.
Não dêem importância à minha citação truncada. Há anos não releio O Pequeno Príncipe. Mas, juro: não brinco com esse livro maltratado por misses, debutantes, modelos e afins. Por favor, não precisam escrever me descompondo, nem falando que eu deveria ser mais cuidadoso com o que escrevo, etc... Tão logo envie esse texto para a Terra Magazine, voltarei a Exupéry. Adoro Terra dos Homens. Vocês já leram?
Continuando. O pequeno príncipe diz que se tivesse todo aquele tempo que o cara economizou, iria caminhando até um poço e saciaria a sede. Ou ele diz simplesmente que beberia água? Parece-me mais natural que um principezinho de um planeta em que mal cabem duas pessoas fale apenas beber água.
Se eu tivesse todo esse tempo, iria até uma agência de correios e postaria os originais de todos os livros de contos, romances e novelas que os amigos me pediram que lesse e comentasse. Claro que eles precisariam estar bem lidos e anotados. E isso tem sido impossível e é o motivo dessa crônica atrapalhada: um pedido de desculpas.
Sei o quanto é importante que leiam os nossos escritos. Os autores vivem dos leitores. Não apenas de leitores diferenciados, mas dos leitores comuns, aos quais se referia com elogios a escritora inglesa Virgínia Woolf. Porém, também precisamos de leitores balizados. O francês Guy de Maupassant era lido por Flaubert. E o russo Gogol considerava ao extremo a crítica de Puchkin. Ah, se sobrasse tempo para ler todos os livros que nos chegam às mãos. Infelizmente, ele falta até mesmo para a caminhada ao poço, onde se bebe água fresca e cristalina.
A propósito, é mesmo verdadeira essa referência ao O Pequeno Príncipe? Preciso conferir.
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