Terra Magazine

› Terra Magazine › Colunistas › Marina Silva

Quarta, 2 de setembro de 2009, 08h46 Atualizada às 13h37

Tempo de compromissos

Marina Silva
De Brasília (DF)

Há uma semana, executivos das maiores empresas do país, reunidos em São Paulo no seminário "Brasil e as Mudanças Climáticas: Oportunidades para uma Economia de Baixo Carbono", se comprometeram a fazer a sua parte em relação ao meio ambiente.

Assumiram o compromisso de reduzir, ao longo dos próximos anos, o chamado conteúdo específico de carbono dos seus produtos. Esse conteúdo mede o quanto de carbono fóssil é emitido no processo que vai da fabricação ao consumo das coisas que estão no nosso dia-a-dia.

Essa não é uma questão menor, marginal, meramente romântica. É crucial. Deixá-la de lado será ficar para trás em relação ao resto do mundo. A economia de baixo carbono, conectada com a realidade do aquecimento global, já avança nos fóruns e organismos internacionais. As empresas que ignorarem isto perderão muito mais dinheiro do que imaginam perder para adaptar seus processos às exigências ambientais.

A iniciativa das empresas também é importante para revigorar as difíceis negociações, ainda em curso, entre os representantes dos governos participantes da Convenção do Clima, cuja reunião anual está marcada para dezembro, em Copenhague, na Dinamarca. É nela que deverá se definirá a continuidade do Protocolo de Quioto que engloba os países mais ricos.

Mas a novidade esperada para essa reunião é um possível compromisso dos grandes países emergentes - principalmente Brasil, China e Índia - com os esforços internacionais de redução das emissões de carbono para a atmosfera. O Brasil provavelmente não avançará para além da promessa já feita no ano passado de reduzir em 70% o desmatamento da Amazônia até o ano 2017.

Está previsto até o final do ano um levantamento completo das emissões de gases do efeito estufa em cada setor do país, a partir de dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e da própria indústria. Preliminarmente já sabemos que o Brasil caminha para um perfil de emissões similares aos dos países desenvolvidos, impulsionados pelos setores da indústria, energia e transportes. Uma tendência que precisará ser equacionada.

Esse equacionamento significa ir além do enfrentamento do desmatamento e das queimadas. Representaria, por exemplo, melhorar muito a atividade pecuária, onde 190 milhões de cabeças de gado ocupam 200 milhões de hectares de pasto: um único boi ou vaca em uma área maior que um campo de futebol.

Melhorar esse índice reduziria a pressão pelo desmatamento e poderia aumentar a oferta de áreas já desmatadas para a produção agrícola, de florestas energéticas, de biocombustíveis e para a recuperação florestal.

Assim, nesses dias que precedem a reunião em Copenhague, o contraste mais notável no nosso país é entre o governo federal e algumas das nossas maiores empresas. Enquanto o governo resiste a assumir metas globais, numa lógica compreensível apenas no jogo diplomático internacional, as empresas tomam a frente do processo e antecipam aquilo que vai ser - cedo ou tarde - a tarefa que caberá a todos: reduzir as emissões atmosféricas de gases que vem aquecendo o planeta e provocando as mudanças climáticas globais.

Para interromper esse jogo diplomático imobilista dos governos, é preciso lembrar que o que está em campo é nada mais nada menos do que a condição de sobrevivência de uma grande parcela da espécie humana e da biodiversidade no planeta. Dada a dimensão do problema, é melhor tomar a atitude correta antes cedo do que tarde.


Marina Silva é professora de ensino médio, senadora (PV-AC) e ex-ministra do Meio Ambiente.

Fale com Marina Silva: marina.silva08@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

Terra Magazine

Busque outras notícias no Terra

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol

Argentina Chile Colômbia Equador Estados Unidos México Peru Venezuela