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Quinta, 3 de setembro de 2009, 08h25 Atualizada às 11h45

Os pés no riacho: Rei como personagem cultural

Paulo Costa Lima
De Salvador (BA)

Roberto oh Roberto, que estranha potência a vossa! Como te entender? e porque preciso?

lá na década de 80 Regina Casé tinha um curioso bordão no revolucionário grupo Asdrúbal trouxe o trombone: 'Eu te amo Roberto Carlos'! Isso era dito de forma tão escancarada que ficava óbvia a caricatura da melosidade platitudinosa, a redundância da redundância transformada em atitude crítica e cômica -

mas agora já faz 45 anos que cantei alegremente 'Calhambeque e que tudo mais vá pro inferno' no recreio da minha escola primária, aprendendo a dedilhar meu primeiro mi menor,

e vejo em pleno Maracanã milhares de pessoas ignorando a chuva por você, e seus cabelos longos permanecem (não sem algum esforço) quase do mesmo jeito, então Roberto, buscar entendê-lo um pouco mais é buscar entender essa destemperada usina de imaginário chamada brasil,

mesmo contra minha desconfiança básica de canções melosas em quaternário (a voz flutuando em cima), com seu precioso quinhão para a homogeneização do que se ouve, do que se vende, afinal, há tantos outros compassos, uma canção em 7/8 destruiria o amor?

não, mas talvez perturbasse o riacho, aquele que Caetano usa em aliteração manhosa, para defini-lo: 'eu pus os meus pés no riacho, e acho que nunca os tirei',

e que você próprio registra em Cachoeiro, com 'águas e mágoas do Itapemirim', uma hermenêutica do riacho...!

qual não foi o espanto em 1971 ao ouvir de sua boca a equação torta da ditadura plena (2 e 2 são 5), tudo ía mal, naquele dia o riacho correu ao contrário... direção que surpreendia e encantava, a sua voz em nome de uma visão crítica; mas ficou por ali.

ao procurar seus próprios versos críticos, irônicos, rebeldes, conclamadores, nada muito consistente aparece (não vou considerar a fase da velocidade como rebeldia real)... mostrem-me um verso! uma harmonia torta!

mas não é justamente esse o beco sem saída da análise* crítica de sua recepção!? afastando-nos do que precisamos saber: notadamente, que personagem cultural é esse? que espécie de côncavo constituimos como sociedade para o convexo de sua presença semi-secular? Por que não é possível aceitar que tudo seja simplesmente indústria, quantos passaram?

Roberto oh Erasmo, que estranha potência a vossa! Estaria esse suposto vazio crítico diretamente associado à limpidez de uma certa representação da emoção, do amor, de um personagem ideal, depurado, sincero, confiável? alguém que, de alguma forma, nos transmite uma sensação de continuidade de um brasil-riacho?

e além disso, um personagem idealizado pela mulher: namorada (menina, linda); amante (Oh meu imenso amor, detalhes, vista a roupa meu bem, nunca mais te deixarei e tantas outras ); amiga (amiga) família (Primeira Dama / Tão linda, esperando neném...); mãe (Lady laura); santa (Nossa Senhora)...

São tantas mulheres! Ou é apenas uma? que esse personagem atende com seu perfil tão meigo, e tão distinto daquele famoso estereótipo que hollywood faz questão de projetar aqui - o macho latino, cubano, argentino, o tango. Seria Roberto então o bálsamo tão desejado dessa ferida?

Por que há certamente uma ferida, uma tristeza, um tom de choramingo que se faz charme, que atesta uma falta, e aí entra a mulher como personagem viva, e o homem como quem deseja estar ali também, como amante ideal.

Não é assim que começa 'Lady Laura'? um filho que admite precisar do resgate da mãe** - coisa rara quando já se é crescido e famoso. E pela mesma linha, Nossa Senhora, esse feito raríssimo de um cantor popular: inserir sua canção na liturgia católica...minha mãe adotava a canção como hino e como oração.

O artesanato da melodia contribui para a análise:


É muito difícil fazer coisas simples e bonitas, quanto maior a simplicidade maior a dificuldade. Esse gesto é um exemplo. Há uma subida íngreme do si inicial até sua oitava superior, e essa subida gera energia para a súplica - porém é a finalização do gesto que lhe dá originalidade, desfazendo tudo, ou confirmando tudo com a palavra 'Coração', que projeta um arpejo descendente de Sol. O coração arpejado dá conta da falta, é o reverso confirmador da agonia da subida.

Sem dúvida, Roberto é especial, inclusive porque teve que conviver com trauma e perda ainda na infância, em seu próprio corpo. Talvez essa pequena tragédia (o acidente de trem) tenha criado 'um' entre nós homens, que não se envergonha da falta, e assim pode reconhecer a mulher da forma que faz - para lá da simples imagem de galã.

*Vale conferir o livro do Pedro Alexandre Sanches, que inclusive observa a pouca produção analítica dedicada à obra de Roberto/Erasmo, ofuscada pelo lado mais crítico da MPB.
**Alguns anos antes Lennon lançou 'Mother', mas a cena é bem outra: Mother, you had me! But I never had you! E que berros primais que o bezerro Lennon dá!


Paulo Costa Lima é compositor. Pesquisador pelo CNPq. Professor de composição da Universidade Federal da Bahia.
www.myspace.com/paulocostalima - http://www.paulolima.ufba.br/

Fale com Paulo Costa Lima: paulocostalima@terra.com.br

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Lima: buscar entender Roberto Carlos um pouco mais é buscar entender essa destemperada usina de imaginário chamada Brasil

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