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Quinta, 3 de setembro de 2009, 08h24

Caio Valério Catulo: poesia e fama

Érico Nogueira
De São Paulo

É difícil falar da fama de quem quer que seja, sobretudo se da pessoa em questão, como é o caso de Catulo, pouco ou quase nada se conhece com segurança. Ora, por "fama", como disse alguém, sem dúvida pode-se entender a soma de equívocos que se liga a um nome; mas, como outro alguém também disse, a fama ou "versão", pelo que tem de pitoresco, de caricatural, de exemplar até, parece muitas vezes mais interessante - quando não mais verdadeira - que o próprio "fato". E outra vez este é o caso de Catulo.

Ao que parece, Catulo nasceu em Verona em 84 a. C., e morreu provavelmente em Roma, trinta anos depois. Fez parte do círculo de César, ainda que, eventualmente, tenha sido um tanto malcriado com ele em seus versinhos. Ouviu os pomposos discursos de Cícero, um dos últimos bastiões da república, e não fez senão rir. Amava Arquíloco, Safo, Alceu e Anacreonte. E amava Calímaco.

Presumivelmente, fez muito sucesso no seu próprio tempo - o da moralidade pagã. Assim como, na austera Idade Média, deve ter ficado um tanto esquecido. Durante o romantismo, que em muita coisa foi outra idade média, foi tido por poeta excessivamente leviano, a despeito de sua "retomada", em português, se dever basicamente às traduções do romântico Garrett. Enfim, o responsável por sua "volta", por ora definitiva, ao cânon do Ocidente não é outro senão Ezra Pound, o mais alexandrino dos poetas contemporâneos.

No encalço de Pound, foi Haroldo de Campos quem, no Brasil, renovou - ou, antes, inaugurou - o debate sobre Catulo, essencialmente por meio de traduções. Este empreendimento culminou na tradução integral de O livro de Catulo, levada a cabo pelo tradutor e latinista João Angelo Oliva Neto, professor da Universidade de São Paulo. O livro, cuja segunda edição bilíngüe, totalmente revista e enriquecida por uma infinidade de notas, já se encontra no prelo, coloca à disposição do leitor brasileiro uma tradução verdadeiramente digna do original. Agora, só não lê Catulo quem não quer.

A julgar-se pela disposição que hoje tem, O livro de Catulo se divide, grosso modo, em três partes mais ou menos distintas (mas não contínuas), segundo o metro e o assunto dos poemas. Ao traduzir os poemas de número 6, 51, e 99, pretendi oferecer uma amostra, mínima embora, das principais linhas de força dessa poesia.

O primeiro é um poema jocoso, escrito em hendecassílabos, e de intuito evidentemente metalingüístico; Haroldo de Campos também o traduziu: pelo que peço ao leitor, sempre indulgente, que me desculpe esta ousadia. O segundo é uma emulação de Safo, e ressoa as palavras que Tolentino, segundo me afiançou, ouviu certa feita a Ungaretti: "Catullo è grande come Saffo, capisci?" Quanto ao último, é um epigrama que compõe o chamado ciclo de Juvêncio, i.e., poemas de assunto pederástico e homoerótico dedicados ao belo rapaz que se (des)vela sob este nome.

Finalmente, depois de falar, talvez em demasia, sobre "Catulo ontem", é preciso que fale também sobre "Catulo hoje". Se é que há um "gosto" - ou uma "tendência" - mais ou menos constante há pelo menos um século, eu diria ser a ênfase, comum, por exemplo, a poetas tão distintos quanto os já citados Haroldo de Campos e Bruno Tolentino, na perfeição técnica, na variedade estilística, na dicção "objetiva" ou "concreta" de um poema. Características tão de Catulo que, enquanto perdurarem, o poeta ficará onde está no alto do cânon - na altura difícil que, modernamente, apenas Cavafy, a quem a Fortuna regalou com a insuperável língua grega, logrou talvez alcançar.

TRÊS POEMAS DE CATULO

6.

Tuas delícias, Flávio, ao teu Catulo
(exceto as toscas e as deselegantes)
tu querias contar - calar por quê?
Mas sei que amas uma puta infecta
que, tão pudico, teimas em esconder.
Não sei por que o quieto quarto grita
"Flávio não passa as noites num velório",
ardendo em flores e óleos do oriente:
um travesseiro aqui, ali e além
um som de atrito, e eis um leito trêmulo,
a ranger, que passeia pelo quarto.
Não adianta negar, fazer silêncio;
por quê? - pois não reclamarias tanto
de dor nas costas, se não fornicasses.
Diz-me o que tens de bom, e o que não presta:
que eu quero a ti, e a teus amores todos,
levar ao céu na graça do meu verso.

51.

Ele me parece igual a um deus,
ele - que digo? - até supera os deuses,
que, sentado à tua frente, o tempo todo
te olha e te escuta

o doce riso; ai, ai, pobre de mim
que perdi a cabeça: pois assim
que te vi, Lésbia, não sobrou nenhuma
palavra em minha boca e,

a língua imóvel, pelo corpo arde
um fogo lento, os tímpanos tilintam
sem martelo que bata, enquanto a noite
apaga a luz dos olhos.

O ócio, Catulo, é o teu veneno;
no ócio exultas, todo te transbordas;
o ócio reinos bem-aventurados
e reis desventurou.

99.

Um selinho mais doce que doce ambrosia,
Juvêncio, te roubei quando brincavas.
Mas não impunemente: pois da cruz mais alta
me vejo, há uma hora ou mais, pendido
pedindo-te perdão, e sem que minhas lágrimas
consigam aplacar a tua ira.
Assim que te beijei, teus dedos delicados
te lavaram o lábio com gotículas,
de modo que do meu no teu não resta nada,
pois julgaste ser mijo, não saliva.
Desde então me castigas com um amor negado,
e de tantas maneiras me excrucias,
que vejo, então, mudado o beijo de ambrosia
em amargor pior que o mesmo amargo;
por um selinho amor assim me castigou:
o que faria, ai, ai, se fossem dois?

(Versão modificada do texto "A fama de Catulo", publicado na revista eletrônica Modo de Usar & Co. em 7 de abril de 2009.)


Érico Nogueira é poeta, editor (Dicta & Contradicta) e professor de línguas e literaturas clássicas (IICS). Ganhou o "Prêmio Governo de MG de Literatura" de 2008 com O livro de Scardanelli. Escreve também no Ars Poetica, blogue de poesia. Vive e trabalha em São Paulo.

Fale com Érico Nogueira: nogueira.erico@terra.com.br

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