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Quinta, 3 de setembro de 2009, 08h22

Bagno - fatos

Sírio Possenti
De Campinas (SP)

Há poucas semanas, a Editora Parábola publicou "Não é errado falar assim", de Marcos Bagno, conhecido por várias razões e, eu acho, especialmente reconhecido pelos fatos que organiza sobre aspectos da língua portuguesa. Tratando basicamente de fatos, diria que seus textos deveriam convencer bem mais pessoas do que aquelas que já estão convencidas de suas teses, dentre as quais se destaca uma: a de que o português do Brasil tem especificidades, e que seguir uma gramática dessa língua em seu emprego culto e escrito não deveria mais ser considerado um erro. A convite, escrevi um prefácio, que republico aqui.

SÃO FATOS, SOMENTE FATOS

No prefácio de seu As palavras e as coisas, Foucault diz que o livro "nasceu de um texto de Jorge Luis Borges. Do riso que sacode, à sua leitura, todas as familiaridades do pensamento". O texto de Borges fala de uma enciclopédia chinesa, "onde vem escrito que os animais se dividem em: a) pertencentes ao imperador, b) embalsamados, c) domesticados, d) leitões, e) sereias...".

Que o leitor se divirta com o texto de Borges. Espero que não reaja diante dessa enciclopédia como muitos cidadoas e intelectuais diante de algumas formas linguísticas que não estão no seu catálogo, e que por isso consideram inexistentes. É claro que o leitor deve considerar que Borges não é zoólogo, mas ficcionista. Quem conhece alguma coisa de sua obra sabe que aquela enciclopédia não existe, sendo esse tipo de invenção de textos que em seguida comenta uma das características de sua literatura.

Lembrei esse prefácio de Foucault porque foi ele que me veio à mente (ou será foi ele que me fez lembrar o outro?) quando li uma passagem, que também é de fazer rir, no terceiro volume da História Ilustrada da Ciência (uma publicação da Universidade de Cambridge a que tive acesso pelo antigo Círculo do Livro).

O livro contém informações históricas que hoje pereceriam ficção científica, ou ironia, ou paródia. No tópico dedicado à Botânica, o texto destaca a importância de Dürer (um pintor), cujos quadros não só chamam atenção pela qualidade artística, mas também "pelo estudo apurado da própria grama". (Como seria bom se os cientistas também escrevessem de forma a merecerem algum destaque por essa virtude! E se os escritores mostrassem que pesquisam a língua em que escrevem, para não se espantarem ou espernearem quando ouvem ou leem estruturas não canônicas!)

O texto continua no mesmo tom, celebrando a grande importância das escolas de pintura para o desenvolvimento da ciência. Todos sabemos como Da Vinci, por exemplo, é celebrado por seus estudos minuciosos de anatomia. Lembrem os mais jovens que não havia então máquinas fotográticas digitais, e que, portanto, desenhar fielmente animais e plantas era crucial para a ciência. "Tudo era parte dessa nova revolução científica ... que estava começando a colocar a prêmio a observação e o registro preciso dos fatos" (ênfase minha) (p. 18). Atenção: o livro fala da Renascença!

Mas não é exatamente essa a passagem que poderia ser objeto de paródia, mas outra, relativa à obra de um dos grandes botânicos alemães, Brunfels. O que hoje seria risível é a informação de que ele "prestou uma reverência exagerada às autoridades do passado, chegando mesmo a se desculpar pelo fato de o livro conter algumas plantas desconhecidas dos autores antigos".

O leitor sabe que semelhante atitude seria imaginável num botânico ou num biólogo dos dias atuais. Não só ela seria impossível, como o pesquisador destacaria a novidade de sua descoberta. E nenhuma autoridade se sentiria desprestigiada pelo fato de haver novidades em seu campo de trabalho, mesmo se descobertas por novatos. É que, no campo científico, a atitude intelectual mais elementar consiste em considerar que a verdade nunca é definitiva, que repetir o texto de uma autoridade simplesmente pelo fato de ela ser uma autoridade é um defeito, não uma virtude.

Mas suponhamos que um botânico ou biólogo tivesse a mentalidade de um pseudo-gramático. Se fosse a campo e descobrisse um animal até então não registrado ou uma planta ausente do catálogo mais atualizado que pudesse consultar na biblioteca, o que ele faria? Em vez de pedir auxílio a uma agência de fomento para mostrar sua descoberta num congresso, ele mataria o animal ou destruiria a planta. Ele os consideraria erros, já que não constam nos catálogos em vigor! Não é assim que ainda se faz nos estudos de gramática, e mesmo do léxico, na maior parte dos casos de que se tem notícia: repete-se religiosamente algum manual? As poucas exceções são alguns centros de pesquisa em algumas universidades.

Por que o elemento fundamental da mentalidade científica moderna (a que surgiu no século XVI) ainda está ausente nos estudos de língua? Por que ainda não conseguimos dizer simplesmente que a forma X é um fato da língua (mesmo que digamos em seguida que ele não nos agrada, assim como podemos não gostar de uma comida, de uma roupa, de uma música)? Por que continuamos dizendo simplesmente que se trata de um erro, ou, pior, que é um horror? Será possível imaginar um botânico avaliando como um horror uma trepadeira, uma fruta, uma folha? E um astrônomo garantindo que as fases da lua são um erro ou que não existem outras galáxias? Pois esse tipo de comportamento intelectual se encontra diariamente quando o assunto é a língua! E não apenas nos jornais ou na TV - com seus emissários de uma pretensa verdade revelada no único livro que conhecem e lêem mal -, mas também na pena de intelectuais respeitáveis, na de escritores premiados e que são até um pouco rebeldes em suas obras!

Não vou apresentar o livro de Marcos Bagno que o leitor tem em mãos. Não é necessário. Por duas razões, pelo menos. A primeira é que ele escreveu uma apresentação relativamente longa e bastante precisa do projeto do livro, na qual deixa sua tese principal muito clara: não está propondo nenhuma rebeldia, nenhuma novidade. Pede apenas que as pessoas sensatas parem de considerar erros de português formas lexicais ou gramaticais que são diariamente condenadas sem razão. E ele o faz em nome do simples fato de que elas ocorrem sistematicamente. E não é que ocorrem na boca de iletrados, mas sim na escrita de pessoas letradas, o que comprova sistematicamente com as abonações encontradas na mídia.

A segunda razão pela qual não é necessário apresentar o livro de Marcos Bagno é que ele não precisa, não deveria precisar, de uma justificativa, como seria o caso, eventualmente, se se tratasse de uma teoria nova ou de materiais até nunca antes analisados. Mas Marcos Bagno chove no molhado, no sentido de que defende o óbvio. Ou o que deveria ser o óbvio, se nossos guias para estudos da língua já tivessem chegado, em termos de mentalidade, pelo menos ao Renascimento.

Espero sinceramente que esse livro ajude de alguma forma os setores relevantes da sociedade a repensar critérios, para o bem de muitos brasileiros que são diariamente insultados, não por sua ignorância, mas pela daqueles que insultam. E para o bem de muitos alunos, que não conseguem compreender por que o que lêem e ouvem vale para os que escreveram e falaram, mas não vale para eles.

Antes que alguém diga de novo que os linguistas - representados aqui pelo autor desse livro - acham que se pode falar de qualquer jeito (o que é impossível, porque ninguém fala de qualquer jeito), destaque-se que Bagno nem defende, da sanha abestalhada de certos analistas, formas populares socialmente marcadas. Ele apenas pede que os defensores das gramáticas as leiam direito pelo menos uma vez na vida. E que, se aceitam seus princípios gerais, especialmente no que se refere a uma definição mais ou menos consensual de padrão ou norma culta, que sejam um pouco coerentes.

O leitor verá que Bagno não põe em questão as gramáticas (embora isso fosse mais do que legítimo). Ele as defende mesmo quando não o merecem. O que seu livro ataca é o pequeno manual simplificado que, este sim, é um verdadeiro acinte.

Num certo sentido, bem preciso, pode-se dizer que se trata de um livro de divulgação. Não que nos informe sobre uma teoria (como o seria um livro sobre psicanálise, sobre gramática gerativa, sobre hermenêutica, sobre memória...). É um livro de divulgação no sentido de que restaura fatos, como o seria um livro de história que contasse que as coisas não foram como sempre se disse, mas que, com base em documentos recentemente descobertos, podemos saber agora que os fatos foram outros, diferentes. O livro de Marcos Bagno é uma obra que mostra. É um livro para os olhos, ou para os ouvidos: exibe fatos da língua padrão brasileira atual, da norma culta atualmente falada e escrita no Brasil. Falada e escrita variavelmente, é claro, como sempre foi, aliás.

Não poderia ser de outra maneira, porque nenhum estudioso minimamente preparado proporá desabonar formas antigas. Quem as preferir, por gosto ou por exigência dos campos ou dos gêneros, que as utilize. Mas que deixe os outros em paz.

É só o que o livro pede. E é mais do que justo que o faça, porque o faz baseado em fatos indiscutíveis.


Sírio Possenti é professor associado do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua, Os limites do discurso e Questões para analistas de discurso.

Fale com Sírio Possenti: siriopossenti@terra.com.br

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