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Wikipedia/Divulgação
"O queijo perfeito: não muito salgado, não todo branco, sem muitos buracos, com casca não muito grossa, rico em sustança, sem larvas, liso, não muito molhado, usando leite não queimado e sem ser estufado"
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Lecticia Cavalcanti
Do Recife (PE)
Thomas Tusser criava ovelhas e vacas em um pequeno pedaço de terra, herança do pai, às margens do rio Stour - em Cattiwade, Inglaterra. Lá também produzia lã e fazia queijos, para sustento da própria família. Homem de sensibilidade, aproveitava as horas vagas para fazer versos. E acabou famoso, ensinando agricultura através de seus poemas. O mais famoso deles, "Five Hundred Points of Good Husbandry" (Quinhentos Pontos da Boa Agricultura), foi publicado em 1557 - e nele, entre outras coisas, Tusser lembra as dez qualidades do "queijo perfeito". Comparando essas qualidades a personagens históricas e bíblicas. Aqui estão, com pequenas explicações sobre o sentido que quis dar a cada uma delas:
"Não ser salgado como a mulher de Lot" - Sodoma, pela vida devassa de seus habitantes, fora condenada à destruição por enxofre e fogo que cairiam do céu. Dois anjos, encarregados de salvar a família de Lot, recomendaram a todos: "Não olhes para trás, e não te detenhas em parte alguma da planície, senão perecerás". (Gênese, 19, 17). Mas, quando já caminhavam todos para fora da cidade, a mulher de Lot desobedeceu; e, "tendo olhado para trás, transformou-se numa estátua de sal" (Gênese, 19, 26).
"Não ser tão branco, como Geazi o leproso" - Geazi (ou Giezi), um dia, traiu a confiança de seu amo Eliseu - "Eis que meu amo poupou a Naamã, recusando aceitar de sua mão o que ele tinha trazido"(II Reis, 5, 20). Mas depois, usando seu nome, Geazi recebeu "dinheiro, adquiriu vestes, oliveiras e vinhas, ovelhas e bois, servos e servas" (II Reis 5, 26). Por isso, como castigo, "ficou coberto de uma lepra branca como a neve" (II Reis, 5, 27).
"Não ser cheio de olhos, como Argos" - Hera pediu a Argus que vigiasse a amante de seu marido Zeus, a quem chamavam Io, para evitar que se encontrassem. Argus foi escolhido por Hera por ser um gigante com cem olhos que, mesmo dormindo, mantinha metade deles abertos. Mas essa história não teve um final feliz; que depois Hermes, a mando de Zeus, libertou Io e cortou a cabeça do pobre gigante.
"Não ter a casca grossa, como o couro que Crispim usava" - Crispim e seu irmão Crispiniano usavam couro de animais, em seu ofício de sapateiro; e, com esse trabalho, ajudavam muita gente. Assim foi até quando se converteram ao cristianismo e acabaram presos, torturados e degolados. Tornaram-se padroeiros dos sapateiros, com dia celebrado, em 25 de outubro.
"Não ser pobre, como Lázaro" - "Havia um homem rico que se vestia de púrpura e linho finíssimo, e que todos os dias se banqueteava e se regalava. Havia também um mendigo, por nome Lázaro, todo coberto de chagas, que estava deitado à porta do rico. Ele avidamente desejava matar a fome com as migalhas que caíam da mesa do rico" (Lucas 16, 19-21). Depois morreram os dois. O rico foi para o inferno, claro, como sempre acontece nessas histórias; enquanto Lázaro "foi levado pelos anjos para o seio de Abraão" (Lucas 16, 22). Virou santo protetor dos leprosos e mendigos. Só para lembrar, esse Lazaro não era o da Betânia (aldeia de Maria e de sua irmã Marta), aquele ressuscitado por Jesus.
"Não deve ter uma superfície áspera, como o corpo coberto de pelo de Esaú" - Isaac e Rebeca tiveram dois filhos gêmeos. O primeiro nasceu muito peludo, daí recebendo o nome de Esaú (em hebraico, "peludo"). O segundo, precisamente por vim depois, era Jacó (em hebraico, "suplantador"). Acontecendo que Esaú, depois de um dia duro de trabalho no campo, voltou para casa faminto; e, por conta do cheiro que vinha da panela do guisado que estava sendo preparando por Jacó, pediu ao irmão um prato daquela comida. Então Jacó lhe disse "Vende-me primeiro o teu direito de primogenitura". Assim se deu. Esaú comeu, bebeu e depois partiu. "Foi assim que desprezou o seu direito de primogenitura" (Gênese 25, 29-34).
"Não ter larvas, como os Gentios" - Judeus não se misturavam com os gentios - assim se dizia dos não judeus (a palavra "gente" vem de gentios). Eram muito diferentes na escolha dos alimentos. Entre os proibidos, para os judeus, estavam "os impuros - a toupeira, o rato e outras criaturas rasteiras"(Lev 11, 29-30). Contando-se, entre essas criaturas rasteiras, os vermes - que, de tão pequenos, não tinham sua presença percebida, razão pela qual poderiam contaminar a todos. Sobretudo os gentios que não tinham esses cuidados.
"Não ter muito soro, como Maria Madalena, cheia de lágrimas" - Maria Madalena, "quando soube que estava à mesa com Jesus, trouxe um vaso de alabastro cheio de perfume; e estando a seus pés, por detrás dele, começou a chorar. Pouco depois suas lágrimas banhavam os pés do Senhor e ela os enxugava com os cabelos, beijava-os e os ungia com o perfume" (Lucas 7, 36-38). O soro da regra era o mar de lágrimas da pecadora.
"Não ser feito com leite queimado, como o Bispo" - Esse bispo (em inglês, Bishop) era também nome de bebida feita com vinho do porto, laranja e açúcar, servida quente; e, ainda, uma bebida revigorante com leite queimado, que se fazia nos conventos da Idade Média.
"Não ser inchado e estufado, como as bochechas de Tom Piper" - Não sei quem foi esse Tom Piper. Talvez apenas um tocador de flauta, amigo de Tusser, que ficava com as bochechas inchadas e estufadas ao tocar - como acontece com muitos que exercem a profissão. Agradeceria ao amigo leitor que puder informar quem seria exatamente este senhor.
E assim se tem aquele que, para Tussor, seria o queijo perfeito: não muito salgado, não todo branco, sem muitos buracos, com casca não muito grossa, rico em sustança, sem larvas, liso, não muito molhado, usando leite não queimado e sem ser estufado. Tusser, ninguém é perfeito, esqueceu-se só do atributo mais importante - ser saboroso.
Fale com Lecticia Cavalcanti: lecticia.cavalcanti@terra.com.br
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