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Sábado, 5 de setembro de 2009, 14h11 Atualizada às 12h52

Portos, uma idéia na cabeça e a vontade de fazer

Francisco Viana
De São Paulo

Nos últimos cinco anos venho acompanhando de perto o trabalho de comunicação de uma entidade baiana. Reúne os usuários de portos de Salvador, conta com apenas três bravos funcionários: o diretor-executivo, Paulo Villa, as assessoras Anne Queiroz e Aldina Ventim. Uma responde pela administração e as finanças, a outra está à frente da assessoria de Imprensa. Os três são profissionais experientes nas suas especialidades e formam um time coeso. A Usuport, essa a sigla, fez aniversário no último dia 2, reuniu quase uma centena de pessoas num almoço comemorativo.

Nesse período, conseguiu uma conquista rara: tirou o tema dos portos do anonimato para as páginas nobres da imprensa baiana. E não ficou apenas na Bahia, tem sido tema constante de reportagens em revistas como a Exame e em jornais como o Estado de São Paulo, Valor, Folha, Correio Braziliense, a antiga Gazeta Mercantil, além de rádios, televisões e sites de economia em todo o país. Com isso trouxe a luz temas como a necessidade de concorrência nos portos, a necessidade de modernização da infra-estrutura e, mais ainda, o significado que os portos têm para a economia brasileira.

Na Bahia, tornou-se uma referência no tema portos. Discute desde a cobrança irregular de taxas até a necessidade de duplicação, imediata, das atuais instalações do porto de Salvador, como também os portos de Aratu e Ilhéus. Reivindica que a área portuária da capital seja integrada à cidade como acontece em Belém, no Brasil, e em cidades como Buenos Aires e Barcelona.

No ano passado, publicou um livro histórico sobre os 200 anos da abertura dos portos, cujo decreto foi assinado em Salvador por Dom João VI. E agora está lançando uma revista eletrônica, com o propósito inicial de aglutinar o debate em torno da modernização do porto de Salvador, imperativa para a competitividade do Estado em 2102. Tornou-se uma interlocutora respeitável junto ao governo da Bahia e autoridades federais. Onde antes grassava o silêncio, agora brota o debate, o diálogo, a busca de um projeto para os portos brasileiros. Onde antes grassava a inércia, letal para a democracia, agora grassa a vida ativa, o interesse pela unidade entre a reflexão e a ação, o pensar e o agir. Esse o coração da atividade comunicacional.

Tudo isso graças a um único predicado: a vontade de fazer, a sensibilidade para o tema da comunicação.

No alvorecer dos anos 70, quando trabalhava no jornal A TARDE, fiz cobertura do Porto de Salvador. Divulgava a chegada e partida de navios, o movimento de cargas e me interessava pelo que podia acontecer de diferente. Um velejador solitário, navios com multidões de turistas, guindastes que custavam caro, mas não funcionavam ( os "belo Antônio", referencia ao contraste entre a beleza e a incapacidade militar de Marco Antonio quando, apaixonado por Cleópatra, resolveu sublevar-se contra Roma)...

Certa vez descobri que um navio de turismo italiano chegou em estado de greve ao porto. Como a legislação proibia greves no mar, atracou e toda a tripulação parou de trabalhar. Estavam seguindo orientação do aguerrido PCI italiano. Era época do regime militar. Foi sensacional. A matéria mostrou, como metáfora, que a liberdade existia e podia ser conquistada. Que comunistas eram gente como qualquer outra. E que a greve era natural em países democráticos. O jornal,deu destaque ao fato, com fotos. Uma festa. Detalhe: a informação me foi passada por um oficial de Marinha.

O tempo passou. A greve dos italianos se transformou numa reminiscência de tempos de guerra contra a ditadura, de guerra contra a censura. Hoje, a cobertura portuária mudou. Diz respeito à discussão de grandes temas, todos ligados ao modelo de desenvolvimento do país. Mais de 90% das exportações passam pelos portos. As privatizações em 1995 deram certo, mas pela metade. É imperativo rediscutir o caminho percorrido. Abrir caixas pretas, criar um autentico regime de concorrência. E, em especial, rever o papel dos governos estaduais na administração dos portos. Em síntese, uma nova refundição. Essas teses vêm aflorando do trabalho da Usuport.

A sua comunicação é estratégica. Não se limita apenas a divulgar notícias, ocupar espaços na mídia no estilo tecnicista. Não.Tem objetivos de longo prazo, tem continuidade, é de portas abertas. Os fatos são sagrados, as opiniões são livres, prega seguindo os ensinamentos do venerando Rui Barbosa. São idéias forças que podem, e devem, iluminar a comunicação de entidades de classe no Brasil. No tempo do regime militar, tiveram papel relevante. Ocuparam o lugar dos partidos políticos, lideraram movimentos, inclusive pela modernização.

E hoje, o que está acontecendo? Quase nada. Nem mesmo a Fiesp desponta se destaca na sociedade civil? A liberdade que deveria inspirar ações mais intensas, não inspirou. Por quê? É uma questão a exigir resposta. Entidades de classe precisam ser fontes de informação. Pois, na essência, representam o interesse coletivo.

Nesse contexto a Usuport se destaca duplamente: no plano prático, está fazendo muito com uma estrutura liliputiana. É uma versão contemporânea da tese que Glauber modelou no cinema novo. A diferença é que em lugar de uma câmara na mão e uma idéia na cabeça, predomina uma idéia na cabeça e a ação comunicacional. O outro aspecto é que a Usuport ocupou o espaço que emergiu com o ocaso do carlismo, ocupou o amplo espaço de liberdade que emergiu no país com o fim do regime militar. Ocupar espaços, desenhar políticas de comunicação, é o que demonstra o trabalho da Usuport, é uma questão de vontade política. Os usuários de portos na Bahia estão dando um valioso exemplo.

A democracia não acontece por geração espontânea. Olhe-se a história da França pós-revolução de 1789, olhe-se a história americana após a revolução de 1775 a 1781, é uma luta constante, uma exigência constante de participação. E não se trata apenas de participação popular, é a participação de todo o conjunto da sociedade civil. É esse movimento, com pressões e contra pressões, com avanços e recuos, com conflitos e entendimento, que mudam a sociedade.

No Brasil, nunca fizemos uma revolução social, sequer pelo voto. Mas temos um mundo democrático a conquistar. Somos uma sociedade industrial de massas. Exemplos como o da Usuport demonstram que os espaços de liberdade existem e estão ai, à luz do dia, para serem ocupados e transformados em caminhos para superar a velha sociedade, fechada e monopolista, avessa ao moderno, numa sociedade onde as forças econômicas e políticas dialoguem, tendo a sociedade civil como elo mediador.


Francisco Viana é jornalista, consultor de empresas e autor do livro Hermes, a divina arte da comunicação. É diretor da Consultoria Hermes Comunicação estratégica (e-mail: viana@hermescomunicacao.com.br)


Fale com Francisco Viana: francisco_viana@terra.com.br

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