Terra Magazine

 

Terça, 8 de setembro de 2009, 14h03

Rio 2016: Movimento quer transparência nos gastos

Marcelo Oliveira

Com o favoritismo da candidatura do Rio de Janeiro para sede dos jogos de 2016, setores da sociedade civil carioca, por meio de um grupo de ONGs e vereadores, começam a se articular, cobrando transparência na aplicação dos recursos, em caso de uma eventual Olimpíada. O objetivo do grupo é evitar que se repitam os erros dos Jogos Pan-Americanos de 2007.

"O objetivo é envolver a sociedade civil num movimento para evitar que erros do Pan sejam repetidos", disse o pediatra e sanitarista Daniel Becker, colaborador da ONG Centro de Prevenção da Saúde (Cedaps), em entrevista a Terra Magazine. Ele é um dos líderes do movimento social pela transparência e participação popular nas decisões que envolvam os Jogos do Rio 2016. O anúncio da cidade sede será feito pelo Comitê Olímpico Internacional em 2 de outubro, em Copenhague.

Veja também:
» Sarkozy diz apoiar Rio como sede da Olimpíada 2016
» Entrevista: Reação a crise e Lula elevam a chance do Rio, diz Paes
» Siga Bob Fernandes no twitter

Para Becker e os demais representantes do grupo, os canais de participação social e democrática foram nulos e o legado social previsto para o pós-Pan foi ignorado. A agenda social do Pan previa investimentos nas comunidades carentes da cidade e não foi implantada. Na visão do movimento, obras de infra-estrutura urbana foram prometidas e não realizadas. As poucas instalaçőes esportivas construídas encontram-se fechadas para uso público, estão subutilizadas ou foram privatizadas.

Becker afirmou que o movimento considera o legado social e ambiental proposto pelos organizadores da candidatura Rio 2016 "uma migalha". Antes do Pan, o Cedaps participou de um estudo que apontou as principais necessidades e prioridades das comunidades carentes do Rio localizadas perto das praças de jogos do Pan e que, segundo ele, foi "totalmente desprezado".

Leia abaixo a entrevista da Terra Magazine com Daniel Becker:

Terra Magazine - Qual a proposta do Movimento?
Daniel Becker - O Cedaps está liderando, tomando a iniciativa de um movimento que busca envolver todos os atores que possam contribuir para fazer com que os Jogos do Rio transformem o Rio numa cidade melhor e não pior. E a gente acredita que esse pior ou melhor o que vai definir é justamente a participação social e a transparência. A gente fez um manifesto e convocou esses atores, manifesto hoje que já tem a adesão de várias ONGs, de vários vereadores, e estamos avaliando a presença do setor privado, que também vai participar, associações de moradores. Enfim, envolver a sociedade civil num movimento para evitar que os erros do Pan sejam repetidos.

Quais os erros do Pan na sua avaliação?
Houve um total desrespeito aos compromissos que foram firmados. Teve uma proposta de legado social que não foi levada a frente. Foi feito um diagnóstico das necessidades e prioridades de 54 comunidades faveladas da área do Pan, com recursos do Ministério dos Esportes, pelo Cedaps, um trabalho que custou R$ 100 mil e foi totalmente desprezado, uma gota de água no Oceano do Pan, que consumiu não sei quantos bilhões. (Nota da Redação: Investigações ainda em andamento apontam que podem ter sido gastos R$ 4 bilhões com o Pan).

Como a sociedade civil participaria?
A gente quer montar uma espécie de governança dos Jogos Olímpicos, que envolva não só os governos e Comitê Olímpico, mas também envolva a sociedade civil, o setor privado, o legislativo, a imprensa, algum tipo de governança que garanta um compromisso das pessoas que vão estar a frente da organização das Olimpíadas, um compromisso pela transparência, um compromisso pelo legado social, que parte dos investimentos seja efetuada para reduzir desigualdades. Propor atividades, de verdade, de esporte nessas comunidades. Ir ao encontro das prioridades de Educação e Saúde, promover investimentos que reduzam as desigualdades no Rio de Janeiro e que melhore a integração dessas comunidades à cidade.

Se usassem os equipamentos que foram construídos para o Pan já seria bom, não?
Foi bom lembrar. O movimento quer que os equipamentos que forem construídos ou reformados sejam, depois, acessíveis para a população. Eles hoje em dia estão trancafiados e só são acessíveis apenas para algumas empresas, que conseguiram privatizar algumas dessas arenas.

O Engenhão foi dado para o Botafogo...
Foi dado e o Botafogo não está conseguindo administrar, porque é impossível administrar um encargo desse. O (parque aquático) Maria Lenke está fechado. A Vila Olímpica foi comercializada para a classe média alta. A arena foi para o HSBC e virou palco de shows eventuais e a população não pode ter acesso a nenhuma dessas coisas.

Imagino que o maior temor de seu grupo é que tudo isso se repita.
Exatamente. Que a gente aprenda com os erros cometidos no Pan, com as coisas que estão sendo investigadas, e que, daqui pra diante, a gente possa fazer uma Olimpíada realmente transformadora para o Rio de Janeiro, como Barcelona utilizou, revitalizando parques abandonados, arrumando o porto. Por exemplo, o legado social que está sendo proposto, ele é uma migalha, ele não é nada. Ele precisa ser muito ampliado. O legado ambiental que está sendo proposto é plantar árvores no Parque da Tijuca. Eu não sou especialista, mas me pergunto se o parque precisa mais de árvores que a zona norte do Rio, que é uma zona cinza?

E transportes?
Que oportunidade única temos para arrumar o transporte público do Rio de Janeiro, com trens de subúrbio mais frequentes, mais confortáveis, com mais estações, que transportem os moradores do centro para a zona sul em questão de minutos, não em horas, em condições de mais conforto. Você vai valorizar o subúrbio, valorizar a cidade, tornar a cidade melhor para todo mundo. Enfim, são oportunidades únicas que tem que se aproveitar e não desperdiçar.

E como conseguir isso?
Acima de tudo a gente quer criar, através desse movimento, um momento que favoreça a candidatura, a gente quer a assinatura de um manifesto de compromisso de todos os atores, de comitê, governo, sociedade civil, que assinem um compromisso pela transparência, pelo legado social, pela participação, acessibilidade, sustentabilidade, que vai, aliás, favorecer a candidatura do Rio.

De que forma o movimento favoreceria a candidatura do Rio?
O Rio e Tóquio são as grandes favoritas. Mas o grande problema é que a população de Tóquio não apoia os jogos. Se a gente faz um evento, uma cerimônia, e mostra que não só a população apoia, mas toda a sociedade está unida em torno do ideal dos jogos e que estes jogos melhorem e transformem a cidade. Isto vai favorecer, e muito, nossa candidatura.

O movimento, então, não é contra os Jogos?
Somos a favor dos jogos. A gente acredita que esse movimento vá contribuir para fortalecer nossa candidatura, por mostrar todos os atores do Rio de Janeiro: sociedade civil, setor privado, legislativo, executivo dos três níveis, todos unidos em torno do ideal olímpico, da candidatura do Rio de Janeiro, especialmente assumindo o compromisso de uma unidade social que transforme a cidade, que reduza as suas desigualdades e melhore a qualidade de vida para todos e que gere recursos com transparência, o que pode ser melhor que isso?

 
Reprodução
Movimento de Daniel Becker (foto) quer impedir que erros do Pan se repitam

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol