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Fabio Pozzebom/Agência Brasil
Antonio Carlos Magalhães, " com poderes para assustar, fazer e acontecer", lembra Paquito
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Paquito
De Salvador (BA)
Salinas da Margarida é um pequeno município do litoral baiano. Fica perto da Ilha de Itaparica, mas não faz parte dela. No entanto, pra se chegar lá em menos tempo, vindo de Salvador, tem de se tomar o ferry-boat para a ilha, e da ilha atravessa-se a Ponte do Funil, de onde se pega a estrada para Salinas. Ou então, pega-se uma lancha no Porto de Salvador, e se vai pelo mar numa viagem que dura duas horas.
Há trinta anos, aproximadamente, não existia estrada para Salinas. O que havia era um caminho cheio de pântanos de água salgada onde os carros invariavelmente atolavam. A viagem por terra parecia uma prova de rallye, com os piores desconfortos a que se tem direito.
Há trinta anos meu pai, Permínio Ferreira, até então proprietário de uma loja de tecidos, decidiu-se, seguindo a máxima de Bilac - "ama com fé e orgulho a terra em que nasceste" - pela carreira política para fazer algo por sua terra, Salinas. Candidatou-se a prefeito e venceu.
E era tão louco por sua cidade e pelo Brasil que dizia que, na final entre o Brasil e Uruguai da Copa de 50, "se patriotas fóssemos, os uruguaios não teriam saído vivos do campo". Após ouvir estas palavras, eu imaginava, horrorizado, o Maracanã cheio de corpos insepultos como em finais de batalha dos filmes de guerra.
Hoje eu sei que o dito de meu pai era apenas uma bravata pra demonstrar o seu amor à pátria. Ele dizia "senhorinha" em vez de "senhorita", um termo emprestado do espanhol. Tinha orgulho da nossa herança portuguesa. Sua terra natal, portanto, era seu eixo, apesar de ter morado no Rio, em Jequié, depois de ter se casado com minha mãe, e, por fim, em Salvador. Quando prefeito, ele passava a maior parte do tempo, lógico, em Salinas, onde tínhamos uma casa. Confesso que achava aqueles veraneios longos e chatos, e aquela cidade um deserto de diversões, com praias onde não se podia tomar banho de mar porque eram repletas de manguezais e muita, muita lama.
Mas o fato é que meu pai, que apoiou o golpe de 1964 - para ele, "a revolução" -, era da ARENA, partido do governo. Em Salinas, a oposição era tão pró-golpe que não existia MDB, mas ARENA 1 e ARENA 2. Eu, que tinha uns catorze anos, achava a política do lugar comezinha e todos os políticos caretas e corruptos.
As coisas, no entanto, não eram tão simples, como os fatos vieram a demonstrar mais tarde. Determinado a construir a estrada pra Salinas, assim que ganhou a eleição em todos os distritos do município, meu pai se empenhou junto com o então governador da Bahia, biônico porque não eleito pelo voto popular, Roberto Santos, para que o seu sonho se concretizasse.
O governador deu todo apoio, ajudou na construção da estrada e ainda a colocar luz em todos os distritos, pois só a sede do município contava com energia elétrica. Quando acabou o mandato de Roberto Santos, meu pai ainda tinha dois anos como prefeito, já que os mandatos de prefeito e governador não coincidiam. Quer dizer, os governadores biônicos eram nomeados em um período distinto da eleição para prefeito das cidades - com exceção da capital, que tinham prefeitos nomeados pelo governo da ditadura militar.
Com a saída de Roberto Santos, foi nomeado o seu inimigo Antônio Carlos Magalhães, já, nessa época, famoso pela truculência e visto quase como uma assombração, uma alma de outro mundo, com poderes para assustar, fazer e acontecer.
Meu pai foi chamado para uma reunião de todos os prefeitos com o novo governador que, na hora em foi ter com ele, disse-lhe: "O senhor vai ter de se penitenciar", referindo-se à aliança com Roberto Santos. Meu pai retrucou: "não vou me penitenciar", virou as costas e saiu da sala que, parece, estava cheia de prefeitos e afins.
Após este incidente, como o delegado nomeado para Salinas era indicado pelo governador, meu pai, simplesmente, não tinha direito à proteção policial. Aliás, direito ele tinha, mas se tornou mais um dos perseguidos por Antônio Carlos, mesmo sendo aliado do governo, porém, de outra facção. A minha memória ainda guarda os instantes em que minha mãe quase morria de medo de que algo acontecesse ao seu marido, um prefeito sem polícia. Houve um ano em que não se comemorou o feriado de Sete de Setembro em Salinas porque as coisas estavam belicosas.
Meu pai morreu há quatro anos, ACM também morreu, mas o fato do carlismo ter vicejado na Bahia não foi à toa. Tem algo no estado que o identifica ainda com o desmando e o abuso de poder, venha de onde vier.
Quando passo por aqueles lados, onde vou bem pouco, quase inflo o peito à maneira de meu pai, lembrando que ele foi o maior responsável por hoje se poder ir até Salinas da Margarida de carro e sem sobressaltos, como os que ele passou por ter se mantido fiel a seus princípios.
AINDA BELCHIOR
Não posso deixar de mencionar a quantidade de emails que recebi por conta da crônica da quinzena passada, sobre Belchior: mais de uma centena. Não tenho, portanto, como responder a todos individualmente. Fora dois que não gostaram do artigo e um que simplesmente entendeu que eu estava debochando do cantor (?), todas as mensagens demonstraram apreço e preocupação com o destino de Belchior, além de terem curtido o meu texto.
Quero agradecer a Renato Vieira, que apontou um erro meu: o subtítulo ¿Jovem também tem saudade¿ não é de Mucuripe, de Fagner e Belchior, e sim de uma canção de Fagner e Ronaldo Bastos. A internauta Clara chegou a me enviar fotos do compositor em eventos culturais aqui na Bahia, realizados há menos de um ano, assegurando que ele não tinha desaparecido.
Como foi noticiado no Fantástico da semana retrasada, Belchior apenas viajou pro Uruguai, onde se encontra pra trabalhar. Na entrevista, ele recusou-se, com razão, a falar de sua vida privada, indo na contramão da superexposição a que se submetem as celebridades instantâneas. Ponto pra ele.
No mais, leitores, sintam-se respondidos e continuem opinando. O retorno é sempre bom, com críticas ou elogios.
Terra Magazine