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Reprodução
Ponyo, uma menina-peixe com poderes mágicos, descobre o novo mundo da superfície e o garoto Sosuke
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Claudio Martini
De Campinas (SP)
Antes da animação por computadores, quem quisesse assistir a um desenho animado de longa metragem precisaria esperar de dois a três anos pelo lançamento, sempre no período de férias, de uma produção dos Estúdios Disney, que praticamente monopolizavam o setor. Hoje, em qualquer época do ano, podemos escolher dentre meia dúzia de filmes vindos de diferentes estúdios, geralmente norte-americanos.
Isso se deve não só à facilidade em se produzir um desenho com a utilização de ferramentas eletrônicas, mas também à sofisticação e aumento do público consumidor, à maior complexidade do mercado, aos novos meios de exibição e distribuição da obra e seus derivados: brinquedos, jogos, alimentos, roupas e toda parafernália que os acompanha.
Antigamente, um filme que era um fracasso nas salas de cinema, poderia comprometer novas produções do estúdio e até mesmo o futuro de um diretor. Hoje, mesmo um filme medíocre pode ter infinitas continuações devido a esta máquina produtora e consumidora de cultura que se tornou nossa sociedade global.
Para os desenhos animados, essa antiga maneira como o produto cultural era produzido, apresentado e vendido acabava sendo mais cruel, por causa do tempo e recursos necessários para a produção de um filme de animação. Hoje, a computação encolheu custos e prazos, o que ocasionou a febre atual de novos desenhos. Mas também acabou encolhendo a criatividade e nivelando as produções, restando apenas algumas que se sobressaem nesse infinito mar de animais, brinquedos, robôs, extraterrestres e monstros, todos falantes e hiperativos, que se movimentam freneticamente em telas de cinema e LCDs.
Pois este mar de animações também produz, de tempos em tempos, algumas pérolas que vão contra a maré dos clichês. É o caso de Ponyo (Gake no ue no ponyo/Ponyo on the Cliff, 2008), o mais recente filme de Hayao Miyazaki, e que deve estrear em breve no Brasil. O filme corajosamente usa a animação tradicional para criar uma história mágica e sensível sobre amizade, família e amor, construída sobre uma sutil mensagem ecológica e de respeito à natureza.

Nada nos filmes de Miyazaki é previsível e óbvio. Ele monta suas histórias como se fossem sonhos, colocando personagens humanos e apaixonantes em situações inusitadas e incontroláveis. Nem por isso eles entram em pânico. Sempre se adaptam à nova realidade, por mais surreal que ela seja, procurando resolver e se adaptar à situação.
Aqui, Ponyo, uma menina-peixe com poderes mágicos, descobre o novo mundo da superfície e o garoto Sosuke. Essa nova amizade vai despertar seus poderes, desencadeando tsunamis e inundações com peixes pré-históricos. A delicadeza e força com que o autor vai construindo a história, as imagens e os movimentos são memoráveis. Gestos simples são feitos com total domínio das técnicas da animação e de compreensão de como nos movimentamos, especialmente as crianças. Quando Sosuke passa através de uma falha em uma cerca de madeira carregando um balde cheio de água, nenhum programa de computador conseguiria reconstruir aquele movimento do menino de uma maneira mais verdadeira.

E é isso que todo o filme de Miyazaki traz. Uma maneira verdadeira e sensível de representar seres humanos e de fantasia, unindo sua visão do mundo real com um mundo onírico, de um modo que não duvidamos nem por um momento que aquela história contada ali seja plausível e possível.
Com 68 anos, Hayao Miyazaki consegue nos passar a sensação de como uma tigela de lámen com presunto pode ser mágico aos olhos de uma criança. E com isso ele também resgata um pouco da criança que está dentro de cada adulto.
Ponyo, junto com suas obras anteriores A Viagem de Chihiro e Meu Vizinho Totoro, está entre as melhores histórias que brotaram da imaginação e ganharam vida pelas mãos de Miyazaki. Um filme que já nasceu um clássico da animação, e não mais um produto para ser consumido e esquecido dentro de dois ou três meses.
Terra Magazine