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Quinta, 10 de setembro de 2009, 08h13

Falas de Lula

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Lula emprega mais de dez mil palavras (em seus pronunciamentos de improviso), o que equivale ao léxico de pessoas cultas, segundo jornalista
Lula emprega mais de dez mil palavras (em seus pronunciamentos de improviso), o que equivale ao léxico de pessoas cultas, segundo jornalista

Sírio Possenti
De Campinas (SP)

Muita gente comenta as falas de Lula, pelas mais diversas razões. Os analistas cobrem todo o espectro de possibilidades. Nos extremos, estão os que o consideram um fenômeno de comunicação e os que o consideram um iletrado. Aqueles levam em conta basicamente sua capacidade de dizer convincentemente o que quer ou precisa dizer, ou seja, a eficácia de seus pronunciamentos. Estes catam pecados de concordância e de regência, sempre os mesmos, sem análise mais cuidadosa, sem considerar nem mesmo que se trata de fala, não de escrita (certamente, acrescentariam, se isso lhes ocorresse, que, no caso dele, a escrita nem está em questão...) e gafes ou erros (de história, por exemplo).

Agora, os interessados têm à disposição um documento importante. Sabe-se que todos os discursos de Lula são rapidamente transcritos e postos na Internet. Mas o jornalista Ali Kamel fez dessas falas um interessante estudo. Com auxílio de outros profissionais (pelo menos um linguista, um historiador e um analista de sistemas), organizou um dicionário (Dicionário Lula; um presidente exposto por suas próprias palavras, Editora Nova Fronteira).

O volume contém 347 verbetes, "definidos" por falas "exemplares" de Lula. Cada verbete é seguido de sub-verbetes, que são uma espécie de definição sumária de autoria de Kamel, mas, pode-se ver, lastreada em alguma declaração de Lula, da qual é uma espécie de resumo (considerar esses materiais à luz do conceito de "destacabilidade" - cunhada por Maingueneau - se revelará, provavelmente, bem interessante).

Por exemplo, o verbete BUSH começa com uma declaração de Lula sobre o então presidente americano, supostamente a mais significativa. Um sub-verbete diz "...não deu motivos para que Lula brigasse com ele", ilustrado pelo seguinte trecho: "Eu estou há três anos no Governo e não consegui brigar com o Bush, que é aquela potência por que eu vou brigar com a Bolívia? Não tem sentido". O leitor poderá verificar até que ponto o "resumo" de Kamel dá conta da fala de Lula. "Não consegui brigar com ele" é a mesma coisa que "não deu motivo para (eu) brigar com ele"? É um bom problema.

Lendo a longa introdução de Kamel, de cerca de 100 páginas, que poderia ser considerada basicamente uma análise "de conteúdo", em tom marcadamente jornalístico, o que quer dizer, antes de mais nada, que é legível por muita gente além dos especialistas em discurso político ou em retórica, descobre-se que, aqui e ali, deixa de ser analista para ser militante. De fato, ele belisca o presidente sempre que pode. Mas, claramente, sua intervenção mais clara se dá nessas traduções dos sub-verbetes.

Duas conclusões, de natureza completamente diversas entre si, devem ser mencionadas. Uma diz respeito ao léxico de Lula. Kamel menciona números: Lula emprega mais de dez mil palavras (em seus pronunciamentos de improviso), o que equivale ao léxico de pessoas cultas (seu léxico é bem variado, e inclui palavras consideradas por muitos como inadequadas para um presidente, até palavras cultas e mesmo raras). Outro fato é que, segundo Kamel, Lula é bastante coerente. São poucos os casos nos quais, segundo sua análise, Lula teria mudado de posição (um deles está na passagem do Fome Zero ao Bolsa Família, e talvez Kamel destaque este fato porque ele mesmo é parte do debate, já que Lula teria se referido a um artigo seu publicado em O Globo).

Tomara que este trabalho dê início a uma tradição de estudo da retórica dos governantes (é o que diz Kamel, e eu assino). Que este trabalho deixe de ser picado, aos pedaços, ao sabor das declarações que são notícia, segundos os critérios vigentes...

Sei que a Academia já fez análises semelhantes. Talvez até melhores. Mas tratou-se sempre de corpus menores (discursos de campanha, por exemplo, que têm um viés muito particular). Pior, quase nunca circularam. São dissertações e teses que, frequentemente, ficam nas bibliotecas das universidades. Nem sempre por culpa delas, é bom que se diga. A imprensa não precisa ficar à espera de que a universidade lhe mande um release...

Espero mesmo que as universidades leiam este livro de Kamel. Teria sido bom se sua bibliografia fosse mais numerosa e diversificada. Mas então não se trataria deste estudo (um dicionário). Mas seriam diversas teses. O que seria injusto pedir a qualquer um.


Sírio Possenti é professor associado do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua, Os limites do discurso e Questões para analistas de discurso.

Fale com Sírio Possenti: siriopossenti@terra.com.br

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