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Quinta, 10 de setembro de 2009, 08h12

Toda enfiada

Paulo Costa Lima
De Salvador (BA)

Enquanto houver democaracia e capitalismo haverá sempre um Olimpo, sem Zeus e sua corte, porém habitado por celebridades elevadas da massa... artificiais e até grotescas, mas essencialmente uma expressão da sociedade - Chris Rojek

A sociedade contemporânea depende das celebridades para manutenção da governabilidade. A tese tem amplo espectro. As celebridades de hoje acumulariam as funções de normatização pelo exemplo, anteriormente atribuídas aos poderosos - reis e nobres - e ainda as sobras de poder pelo decréscimo de religião.

Com o advento das classes médias, esse poder de atração e de autoridade simbólica vai sendo deslocado, cada vez mais, para determinados personagens, que embora tragam características individuais específicas para o jogo, acabam adquirindo uma função indispensável para o sistema - mobilizar atenção e desejo em determinadas direções, induzir comportamentos, etc.

Aí nessa juntura - entre a estrutura psicológica do indivíduo e sua negociação com a figura pública que ele próprio projeta, e com a qual precisa conviver (nem sempre harmoniosamente) - é que surge a visão do desafio e da problemática das engrenagens de manutenção da celebridade, que também afetam a manutenção da sociedade.

Todas as celebridades falam sobre as dificuldades em ser celebridade. Ninguém diz que é fácil. Todos admitem que não sabiam do que se tratava antes da experiência em si. Porém, quase não existem exemplos de abandono do desejo de continuar sendo celebridade. Personagens quase esquecidos aparecem esporadicamente tentando um retorno avassalador - alguns poucos conseguem.

Ao que tudo indica, a estrutura psicológica do 'ser celebridade' apresenta inúmeras afinidades com a síndrome de adição ou vício. A premiação bioquímica dos terminais de prazer resultante da exposição e reconhecimento públicos parece ser tão potente quanto aquela proporcionada pelas drogas (ou pelo lucro).

Não espanta, portanto, que haja uma relação frequente entre droga e fama. Pois ser famoso não é uma experiência estática - está mais perto de uma espécie de gangorra ou montanha russa onde o 'ser' e o 'não ser' se digladiam como altos e baixos, abrindo espaço para uma compensação química das diferenças de nível.

Todas essas coisas são sabidas ou intuídas pelo grande público. O viés de espanto é a força crescente de atração desses vetores sobre todos os indivíduos. Imagine o problema do ponto de vista epidemiológico - como saúde mental coletiva. O que fazer quando a sociedade pressiona cada indivíduo na direção desses prazeres aditivos da exposição pública?

Primeiro a violência dessa pressão, que na quase totalidade dos casos levará à frustração e consequências ilimitadas. Aí vem a medicalização em massa como se fosse grande oásis e delírio. Ou seja, vamos alterar a química cerebral de todos (ou quase) para que possam aguentar essas novas pressões.

E mais: as dezenas e centenas de situações estapafúrdias onde determinados indivíduos adquirem celebridade instantânea, e são rapidamente triturados pelo próprio processo que parecia erguê-los a um novo patamar de visibilidade, como se a mídia fosse uma grande trituradora de imagens e de gente, que também é.

Antigamente, as comunidades mais isoladas apresentavam um distanciamento esplêndido das lógicas dominantes. Viviam uma outra vida. Basta lembrar o poema 'Cidadezinha qualquer' de Drummond (1930):

Casas entre bananeiras / mulheres entre laranjeiras / pomar amor cantar.
Um homem vai devagar. /Um cachorro vai devagar. /Um burro vai devagar.

Hoje, todas as periferias parecem ter sido convocadas para um mesmo vórtice. Olho para o vídeo da 'toda enfiada' e me pergunto: de onde virão os mecanismos de defesa do indivíduo (e da própria sociedade) com relação a essa síndrome de adição pela exposição pública?

A pergunta admite variações relevantes:

. Como é que a produção de arte vai escapar dessa lógica homogeneizante que simplesmente vende? Devemos formar artistas imunes à mídia (plenamente ignorados)? Devemos investigar lógicas de trabalho no âmbito desse relacionamento implacável?

. Como é que as 'boas celebridades' vão encontrar espaço para continuar exercendo seu papel de encantamento crítico - se a dimensão crítica parece ser incompatível com mercados de seis bilhões de pessoas, e justamente o alvo principal dos mecanismos de venda de informação?

Eta vida bêsta!*

Entrei por uma porta...

* não se espante caro leitor: esse é o último verso do poema de Drummond.


Paulo Costa Lima é compositor. Pesquisador pelo CNPq. Professor de composição da Universidade Federal da Bahia.
www.myspace.com/paulocostalima - http://www.paulolima.ufba.br/

Fale com Paulo Costa Lima: paulocostalima@terra.com.br

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