
Marcelo Carneiro da Cunha
De São Paulo
Estimados milhares de leitores, como vão as coisas, nessa semana em que São Paulo afundou? Eu, bíblico, acho que foi castigo só porque o governador de todos os paulistas não deu as caras no Desfile. Dom Pedro, lá do ceuzinho, repara nessas coisas e quem paga o pato somos nós, além dos patos, claro, que devem estar rolando Tietê abaixo até agora, tadinhos.
Pois aqui na minha luxuosa laje em Pinheiros me defronto com uma pergunta daquelas que, se a gente realmente soubesse responder, estaria milionário que nem o Paulo Coelho. Como se faz para escrever o livro dos nossos sonhos? O jornalista que mandou a pergunta nem imagina, mas se eu soubesse, alguém aí acha que eu estaria aqui na minha laje e não na Cote D'azur no meu iate imperial, Lady Avó Jovita III, com que tanto sonho?
Inicialmente, eu daria a sugestão que dou aos alunos onde eu ensino criação ficcional: sejam muito reticentes no uso das reticências, não usem aspas a não ser em caso de morte na família. Use adjetivos somente se recomendados a você pelo seu gerente de banco e jamais use o mais-que-perfeito, um tempo verbal que morreu junto com os dinossauros e ninguém empalhou até agora por descuido.
Pronto. Claro que você precisa ainda de algo que valha a pena contar, e isso não significa que você ou sua vida sejam interessantes apenas porque a sua mãe adora as suas histórias. E você precisa naturalmente desenvolver uma forma narrativa capaz de traduzir a sua visão de mundo, apresentada através da história que você elegeu narrar.
Moleza, não?
Ah, esqueci. De posse de tudo isso, agora você só precisa ir para Berlim escrever o seu livro, ou nada, nada mesmo, vai dar certo. Pronto, feito.
E como eu sou um sujeito muito, mas muito coerente, quando vocês estiverem lendo essas mal-traçadas, eu vou estar sacolejando em um bumba transatlântico, com direto a escala em Amsterdam, porque eu sou um insensível que somente chora diante dos girassóis no Museu Van Gogh, fazer o que.
Em Berlim escrevi o meu último livro, Depois do Sexo. Lá compreendem o cinema que eu escrevo; é lá que tem que ser.
Berlim foi um caso de amor à primeira vista, e a primeira vista foi bem horrorosa, o Muro em todo seu desesplendor, umas 4 da manhã e eu sem ter dormido a noite inteira, desde Paris, o trem cheio de poloneses que acreditavam na vodca acima de todas as coisas. Assim mesmo, ou graças à vodca, deu pra ver que aquela cidade ali era de verdade, como são os livros que valem a pena serem escritos.
Berlim é uma cidade tão única, que eu não entendo como tanta gente perde seu tempo e dinheiro com o resto da Europa. Diante de uma cidade de verdade, para que as outras? Berlim respira história e contradições em cada esquina. Uma cidade que foi sempre um ponto de encontro e desencontro entre o Ocidente e o Leste, um lugar vermelho e branco, e, diferentemente do Inter, fascinante.
Uma cidade com lagos e mais quilômetros de praias do que a Riviera Francesa, divida por muitos e muitos anos por um Muro maluco, que para mim representava a diferença entre o Ocidente capitalista, onde eu era um estudante miserável, e o Comunismo soviético, onde eu chegava e subitamente me via alçado à condição de milionário por conta dos 10 dólares que a gente tinha que trocar e gastar, sem jamais conseguir. Berlim, como a gente, pagou o pato por Hitler, que ela nunca apoiou, e foi arrasada a canhão pelos russos. Uma cidade que passou por isso, ama a vida como nenhuma outra. Querem lugar melhor para escrever o seu livro?
Berlim, ainda por cima, fica na Alemanha, que é, como todos sabem, um país rodeado de cervejarias por todos os lados. Para um escritor, o que pode ser melhor do que entrar em um supermercado onde o caminho começa pela gôndola das milhares de cervejas, tudo entre 50 e 70 centavos a garrafa?
Melhor ainda: em Berlim, as mulheres são alemãs. As mulheres alemãs me dão a impressão de estarem sempre pensando na melhor maneira de escravizar todos os homens e invadir a Europa Central e implantar o matriarcado como forma de governo.
Querem maior estímulo para esquecer distrações e se concentrar no seu texto?
Vou pra Berlim terminar meu livro novo, que, se a KLM deixar, lanço no ano que vem. Vou visitar a única cidade do mundo onde eu poderia viver, se não tivesse escolhido ser brasileiro e estivesse agora pertinho de conseguir meu green card paulistano. Onde existe a padaria Siebert - e quem não conhece uma padaria alemã pode duvidar de outras criações divinas; ali no meu bairro de Prenzlauerberg, desde 1906 fazendo os seus pães, enquanto o país passava pela Primeira Guerra Mundial, pela República de Weimar, pela entrada do nazismo em cena, pela Segunda Guerra Mundial, pelos 40 anos de vida na triste Berlim Oriental, pela queda do Muro e reinvenção de uma vida como a que somente em Berlim se vive.
A Filarmônica de Berlim, o museu Die Brucke, o Pergamon, a Gemaldegalerie, a estação Zoo, onde a Cristiane F. aprontava; o vietnamita M. Vuong, que deixa qualquer um apaixonado pelo que a Ásia tem de mais legal; o maluco Kaffee Burger, onde você pode morrer ao som de algo chamado Russischen Disco; ou o melhor bar do mundo, Scotch and Sofa, onde 6ª e sábado um DJ vintage toca música dos anos 60 vinda, via Hubble, direto dos anos 60.
Assim, estimados leitores, lá me vou, e volto com o livro, ou não volto. Seria vergonha demais pra esse pobre eu, voltar do melhor lugar do mundo para se escrever algo que valha a pena sem trazer nada além de um pão de cereais da Siebert.
Se eu não voltar, todos já sabem a causa, e assim, podem me deixar lá mesmo, tal Belchior, sumido e feliz, vítima da minha fraqueza, de não saber resistir a tanta cidade lá fora, para ficar ali dentro de casa sentado, a cervical massacrando a pessoa, e tudo isso para que mesmo? Ah, sim, um livro novo.
Deve valer a pena. Se não valer, aviso.
Terra Magazine