|
Carsten.nebel/Wikipedia/Divulgação
|
Alberto Luiz Fonseca
Da Austrália
Foi há alguns meses. Eu estava em meio a uma viagem pelo Nepal. Havia almoçado em um restaurante simples, mas de muito boa comida, numa cabana de madeira à beira de um penhasco, numa das curvas da estrada que leva a Katmandu.
A estrada serpeava pela montanha, com belas vistas do Himalaia, a montanha mais alta do mundo, terra das neves eternas.
De onde estava, eu podia ver a neve que cobria a montanha gigante. Sentia o poder árido, quase agressivo, daquela força da natureza.
O cenário ao meu redor era reconfortante: uma campina verde em suave descaída, com flores alpinas pontilhando, aqui e ali, por toda parte. O sol brilhava intensamente. Ali embaixo, era plena primavera.
Depois do almoço, resolvi descansar um pouco à sombra, deitado numa rede na lateral da cabana. Adormeci.
Ao acordar, ainda um pouco tonto do sono, resolvi dar a volta completa na construção, para apreciar melhor a vista do lugar.
Em meio ao passeio, reparei num funcionário do restaurante, de feições claramente chinesas e roupas simples, que lavava os pratos do almoço - uma enorme pilha - num tanque de pedras rudimentar.
De vez em quando, ele parava, respirava fundo, descansava sorvendo o ar da montanha. Seu rosto era todo atenção ao trabalho, mas, de vez em quando, desviava seus olhos em direção à vista do Himalaia. Parecia apreciá-la.
Simpatizando com o homenzinho, que realizava sua penosa tarefa pela tarde adentro, enquanto nós outros turistas tínhamos todo o tempo para passear e apreciar a vista, aproximei-me, disse-lhe meu nome e desejei-lhe boa tarde. Usava a língua inglesa, que é a mais comum forma de comunicação de turistas com os habitantes locais naquelas paragens.
Pedi licença, sentei-me no banco, a seu lado.
O pequeno chinês devolveu-me o cumprimento, disse que se chamava Liang-Jiu-Ser. Ele tinha o rosto um tanto enrugado, mas tinha aparência extremamente jovem. Não pude adivinhar-lhe a idade com precisão, mas calculei que estaria na primeira metade de sua quinta década de vida.
Liang-Jiu-Ser estava imerso em seu trabalho, o qual, de resto, realizava com vigor e precisão. Ele se dirigira a mim também em inglês, de maneira polida, mas com poucas palavras.
Julguei curioso que um chinês, presumivelmente pobre, chegara até ali naquele penhasco, nas profundezas do Nepal para procurar emprego. Tão longe das grandes cidades de seu país. Perguntei-lhe onde havia nascido, como havia chegado até ali, e por que se empregava naquele restaurante cujo dono claramente explorava seu trabalho.
Ele então olhou-me por alguns momentos. Pela primeira vez, parecia prestar-me alguma real atenção, com semblante curioso. Após longa pausa, disse-me que nascera em Xangai. Quanto ao que fazia ali, explicou-me, sem mudar sua expressão, que não era empregado, mas, sim, o dono do restaurante.
Fiquei então tomado de surpresa, e intrigado com o que ouvira, perguntei a Liang-Jiu-Ser por que, se ele era o dono do restaurante, lavava ele mesmo aquela enorme pilha de pratos. Seria pela falta de funcionários disponíveis para contratar na região?
Não sem voltar a me olhar com um semblante inquisitivo, respondeu-me ele, gentilmente, e em inglês perfeito, que poderia facilmente indicar a um de seus contratados que realizasse a tarefa diariamente, mas preferia ele mesmo fazê-la.
Segundo me disse então, todos os dias, após o almoço, ele ordenava a todos os seus funcionários que se fossem para suas casas e o deixasem ali, com a grande pilha de pratos para lavar.
Expliquei-lhe, então, que para mim, era grande mistério porque o dono de um estabelecimento como aquele, de respeitável clientela, deixaria que seus empregados se fossem para casa todos os dias e se obrigaria a realizar a lavagem dos pratos, que me parecia ser a parte mais pesada no serviço do restaurante.
Liang-Jiu-Ser disse-me então que, para dar-me exata conta da solução daquele mistério, precisaria contar-me, com vagar, sua história de vida até ali. O que passou a fazer, e que eu relatarei ao caro leitor e à cara leitora na coluna da próxima semana.
(continua na próxima semana)