
Amilcar Bettega
De Paris
O alemão (acho, pelo sotaque, apesar do bom domínio do português) chegou a Porto Alegre numa tarde abafada de março. Na bagagem, uma carta de recomendação de um antigo professor e a vaga ideia de fazer um doutorado sobre os catadores de lixo da cidade.
A primeira coisa que fez, logo após deixar a mala num hotelzinho perto do centro, foi entrar num boteco e pedir uma cerveja. Bebeu e viu o quanto era ruim a cerveja que teria de tomar dali em diante se resolvesse mesmo ficar.
O encontro com seu futuro orientador foi agradável. Conversaram sobre futebol, praias e a qualidade da cerveja na Alemanha (ou seja qual for o país de origem do alemão). Ao final ele perguntou se o seu projeto de tese teria chance de ser aceito pela universidade. Já foi aceito, disse-lhe o professor, mas essas formalidades a gente deixa pra depois. Tudo aquilo lhe agradava e lhe fazia bem. Acostumou-se com a cerveja e foi ficando.
Depois de três anos, quatro ou cinco entrevistas com catadores, uma visita a uma central de triagem de lixo numa ilha do Guaíba e sequer uma linha escrita da tese, ele percebeu que o tema não lhe era muito apaixonante, mas o modo de vida naquele país, ao contrário, o fascinava. Exímio jogador de snooker e frequentador assíduo dos botecos das redondezas (dividia um apartamento com dois outros estudantes na Independência) pensou em mudar o tema da tese para algo como "a importância do boteco na vida social do brasileiro médio". Falou com seu orientador a respeito. Este lhe prometeu pensar no assunto e encaminhou um pedido de prorrogação da bolsa.
Enquanto a mesma durou ele foi feliz, tirando da boemia e da vagabundagem interessantes teorias sobre o prazer de uma vida sem muitos compromissos. E mesmo quando se viu sem o subsídio sempre arrumou um meio de "ir levando". Uma noite, enquanto matava o tempo bebendo no boteco em frente ao seu prédio, conheceu um caminhoneiro que lhe falou maravilhas da fronteira gaúcha. Aceitou o convite para acompanhá-lo em sua próxima viagem a Quaraí, onde acabou ficando dois meses e conheceu as delícias do verdadeiro churrasco campeiro - da costela inteira ao sangrador, em fogo de chão e salmoura de limão cravo -, comeu bola de touro em marcação, bebeu canha na guampa e perdeu dinheiro em carreiradas e no pife viciado de bolichos de beira de estrada. Mas de tudo, o que mais o atraiu foi a trova. Não foi dito, mas o Brasil lhe chegara ao coração - como não raro acontece aos europeus - através da música; Porto Alegre, essa espécie de Brasil adulterado, restou como acidente inexplicável.
Seu companheiro de viagem era trovador e, mais tarde, virou parceiro num CD que a dupla financiou com o dinheiro de rifas de quartos e paletas de ovelha que o homem trazia de cada ida à fronteira. Chegaram a fazer algumas apresentações em bailes de CTGs e o alemão trovando, dizia-se, era um "número", que divertia menos pelas rimas do que pelo sotaque.
Passada a febre do gauderismo, ele voltou ao convívio plácido dos balcões de vidro das lancherias, copos de cerveja e o mosquedo dos botecos, mas sem jamais perder o gosto pela trova. A idéia da tese há muito foi enterrada, porém ele continua a se encontrar regularmente com o ex-orientador, natural de Santana do Livramento e poeta em segredo de versos gauchescos, a quem apresentou o amigo caminhoneiro. Com frequência e sem nenhuma combinação prévia os três se reúnem para tomarem umazinhas e, depois de não muitas rodadas, a trova corre solta num arranjo inédito de dois contra um a cada volta, e a cada volta variando a dupla de aliados, numa progressão espiralada e infinita.
Um outro CD estava em vista, mas os amigos descobriram que o alemão estava tomando aulas particulares para suavizar o sotaque e se desentusiasmaram. Os que quiserem ouvi-los agora terão que vir a este bar da Av. Indepedência, à noite, sentar à uma mesa, pedir uma cerveja e ficar à escuta.
Terra Magazine