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Quinta, 17 de setembro de 2009, 08h14

O retorno de Elias Canetti

Tomás Eloy Martínez
Do The New York Times

São poucos os escritores que passam a imagem de gênios de forma tão imediata quanto o búlgaro Elias Canetti. Assim que o leitor se aventura nas primeiras páginas dos seus livros, sente-se iluminado por uma sabedoria mais antiga que o tempo.

A primeira vez que li a respeito da sensação de superioridade e de alívio que sente alguém que está de pé perante um morto foi em um ensaio sobre a sobrevivência e o poder. Parece algo simples, mas quando Canetti o descreve percebemos a pouca atenção que as pessoas dão ao profundo significado de gestos e movimentos que se repetem todos os dias.

Foi ele também quem explicou, melhor do que ninguém, o motivo pelo qual, para se sentir "o centro de tudo", o escritor tcheco Franz Kafka se refugiava no mínimo, no silêncio, na leviandade. Quando Canetti estuda os diários e a correspondência de Kafka, acaba por revelar um novo escritor, recém-descoberto. É surpreendente o resultado que consegue empregando poucas palavras.

Há mais de 20 anos que os seus livros não estavam nas prateleiras das livrarias da América Hispânica, mas no final de agosto apareceram obras luxuosas e caras, inacessíveis nesta época de crise.

Mario Muchnik, de Buenos Aires, foi o seu primeiro editor em língua espanhola, publicou seis ou sete das suas obras mais importantes. Muchnik teve a audácia de ir ao encontro de Canetti no Grand Hotel de Estocolmo na mesma tarde de 1981 em que receberia, com toda justiça, o prêmio Nobel; pegou-o pelo braço e os dois permaneceram um tempo conversando. Canetti não dava entrevistas, mas não podia se recusar a conversar com um dos seus maiores editores. Muchnik publicou detalhes dessa conversa na autobiografia de 1999.

Os candidatos ao Nobel de 1981 eram Canetti, o argentino Jorge Luis Borges e o colombiano Gabriel García Márquez, que o recebeu no ano seguinte. García Márquez sempre foi muito discreto e evita comentar sobre o fato de Borges ser um eterno candidato sem prêmio, mas já comentou que alguns integrantes da academia de Estocolmo valorizam mais as poesias de Borges do que as suas obras de ficção.

Segundo Muchnik, Cenetti teria dito algo parecido na véspera de ser premiado: "Eu não premiaria Borges. Não por razões políticas, embora não faltassem motivos, veja a medalha que recebeu desse tal Pinochet. Não o premiaria porque a sua literatura é trivial, bem escrita, mas superficial, como o xadrez".

Canetti era um gênio e, nas palavras de Susan Sontag, "também era parcial e injusto com os povos sem história". Por isso não entendia Borges, o qual, por ser de um povo sem história, sentia a necessidade de criar uma.

Todos os acontecimentos da longa vida de Canetti parecem desmedidos. Nascido em Ruse, um povoado búlgaro do baixo Danúbio, mudou-se várias vezes desde os cinco anos de idade. Em 1911 foi levado para Manchester; em 1913, após a morte do seu pai, para Viena; entre 1916 e 1920 transitou entre Zurique e Lausana; entre 1921 e 1922 frequentou uma escola em Frankfurt; em 1924 voltou para Viena; no final da década de 1920 visitou Berlim; depois voltou para Viena, passando antes por Paris e, finalmente, em 1938 estabeleceu-se definitivamente em Londres, de onde só saiu para falecer, em Zurique, em 1994, aos 89 anos de idade.

Diferente da maioria dos homens que contam com apenas um idioma para o amor, as lembranças e as desventuras, Canetti dominou, pelo menos, quatro idiomas durante a sua infância: o ladino, "a minha língua caseira", como ele a definia; o búlgaro; o alemão - que os seus pais lhe proibiram de ler e falar até os sete anos; e o inglês, das suas primeiras leituras.

Poderia ter escrito em qualquer uma dessas línguas, mas decidiu fazê-lo em alemão, como uma forma de fortalecer a sua identidade judaica. Canetti seduz por meio das palavras, porque o leitor adivinha nele, além da sua autêntica humildade, uma rara capacidade para compreender tudo. Parece estar voltando das culturas mais antigas, dos sentimentos mais primários, das experiências mais revolucionárias: como se fosse o sobrevivente de um lugar no qual já aconteceu tudo o que poderia acontecer.

Começou a escrever o seu primeiro romance, Auto de fé, em abril de 1927, quando ainda estudava química e morava em uma peça vienense de cujas janelas via o zoológico e o hospício Steinhof.

A sua obra mais importante é o ensaio "Massas e Poder" (1960), uma leitura obrigatória para quem quer entender o populismo, a demagogia e o desprezo que os poderosos sentem pelas massas às quais manipulam.

Toda vez que o autor se aproxima de qualquer versão da massa (o trigo, a floresta, o fogo, a chuva), põe simultaneamente em movimento as mais diversas disciplinas; da antropologia salta com naturalidade à história das religiões, dali para a poesia e para a anatomia patológica, chegando, em cada caso, ao milagre (de que outra forma chamá-lo?) de transformar essa imensidão em uma criatura viva, pequena, concreta, com a qual o leitor pode identificar-se facilmente.

A história, narrada pela linguagem de Canetti, acaba sendo como a última prédica de uma tribo de sobreviventes, a ladainha de um louco que se pensa invulnerável.

Apesar da imponência de "Massa e poder", cujas 500 páginas nunca mencionam Marx e fazem uma mínima referência a Freud (uma nota casual de pé de página), o texto mais revelador sobre Canetti é, sem dúvida, A língua absolvida (1977), primeiro volume da sua autobiografia, que deixa no leitor a sensação de que a linguagem foi esgotada, esvaziada das suas melhores substâncias e que já não é possível expressar mais nada com essas mesmas palavras.

É inesquecível a fascinação que o narrador transmite pelas bochechas rosadas de uma aldeã, o terrível grito da mãe quando o pai morre no jardim, a tranquila aceitação do sexo como tabu e o descobrimento, em Zurique, de que o preconceito antissemita estará presente ao longo da sua vida.

Estava na sua casa, almoçando com os sogros bávaros, quando recebeu a notícia da premiação com o Nobel. Hera, sua esposa, deixou cair a concha com a qual servia a sopa e sujou a toalha de mesa. Canetti deixou cair no prato o pão que estava comendo.

Quando percebeu que a sua vida familiar não voltaria a ser a mesma, sentiu que o Nobel o empobrecia, tornava-o um escravo. Os deuses o tinham assinalado com o seu dedo de luz e o fato de ser um escolhido passou a atormentá-lo.

Enfrentou a adversidade da glória recolhendo-se à sua residência de Londres, da qual só saiu quando viajou a Zurique para morrer.


Tomás Eloy Martínez é escritor e tem livros traduzidos em mais de 30 idiomas. É diretor do programa de Estudos Latino-Americanos na Universidade de Rutgers. Artigo distribuido pelo The New York Times Syndicate.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

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Reprodução
Capa de "Massa e poder", obra mais importante de Elias Canetti, segundo Martínez

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