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Sexta, 18 de setembro de 2009, 08h17

Com o pré-sal, que tal a gente comprar Berlim?

Reuters
O dinehiro do pré-sal poderia comprar Berlim e trazê-la, sem o Muro, para São Paulo, sugere escritor
O dinehiro do pré-sal poderia comprar Berlim e trazê-la, sem o Muro, para São Paulo, sugere escritor

Marcelo Carneiro da Cunha
De Berlim

Estimados muitos e muitos milhares de leitores, bom dia. Espero que todos estejam muito bem e faceiros, tal qual o nosso bravo governador de todos os paulistas, que ainda não respondeu a pergunta desse coluna de duas semanas atrás, intitulada: Governador José Serra, qual a sua proposta para o pré-sal, lembram?

Enquanto aguardo impaciente, aproveito para mostrar que não sou desses que ficam esperando soluções vindas somente daqueles que foram eleitos exatamente para oferecê-las, não, claro. Vou em frente e, enquanto cidadão comprometido com o futuro do nosso país, apresento aqui a proposta Carneiro da Cunha sobre o que fazer com a grana do pré-sal. Estimados colegas cidadãos: eu proponho que a gente use parte dos bilhões para comprar Berlim. A gente compra, desmonta e monta de novo aqui mesmo, bem em São Paulo.

Não sei o que o prefeito Kassab ou o governador Serra vão achar disso, mas eu acho que o restante da população vai achar ótimo. Sem precisar fazer muita coisa, a não ser sair do caminho quando os caminhões cheios de Berlim passarem trazendo nossos novos imóveis, a gente vai passar a ter um sistema de transporte bom de dar dó. As padarias nós até já tínhamos. Pois agora, vamos passar a ter pão!! Não o pãozinho que nem faz cócegas e que o pessoal coloca na chapa pra ver se ele se anima um pouco. Nada disso. Pão sólido e delicioso feito na minha querida padaria Siebert, agora para todos.

Todos nós vamos ter um sistema de transporte público combinando metrô, trem de superfície, ônibus de dois andares, e até bonde. Bonde, minha gente, como o que passa aqui na frente de casa, na Bernauertrasse, bem pimpão. Vamos ir e vir com uma facilidade tão constrangedora, que todos vão se perguntar - "mas por que a gente não fez isso antes?" Ora, não fizemos porque não tínhamos o pré-sal. Agora temos.

Vamos ter uma cidade onde qualquer um pode ir até onde bem entender pedalando a sua bicicleta. Por que a nova cidade, resultado dessa fusão do melhor entre os melhores, vai ser plana! Esqueci de mencionar essa parte. Com o pré-sal a gente vai comprar Berlim e ainda por cima aplainar tudo. Não vai sobrar um Anhagabaú pra atrapalhar o nosso movimento. Tudo lisinho e plano. A cerveja vai deixar de ser essa aí, redonda e absolutamente sem gosto, e teremos uma vasta plataforma de pilsens, weizens, altes, e o que mais, tudo saindo do barril com gosto de cerveja nova e não pasteurizada.

Vamos aprender a viver em uma cidade sem enormes riquezas, e sem pobrezas visíveis; vamos ter que remover as grades dos prédios e janelas, porque isso não combina com a nova São Paulo, resultado da soma das duas cidades mais legais que eu conheço. Vamos ser muito, mas muito civilizados, e falar num tom de voz que permite que a gente não saiba o que o vizinho da mesa ao lado pensa sobre praticamente tudo, como ainda acontece na Vila Madalena, antes de ela se tornar Dorf Madallenan, em breve. Vamos ter museus como o Pergamon, o Boden, a National Galerie, que mais precisaremos ter, além do MASP, Pinacoteca e Museu da Língua Portuguesa.

Eles vão entrar com o sauerkraut e a gente com a Liberdade e o Bixiga, vamos ter a melhor gastronomia do mundo, aqui mesmo. Vamos ganhar mil anos de história e nada dos horrores das duas guerras ou do Muro.

Eles, os que vierem junto com a cidade, ganham uma cidade onde todo mundo se entende, onde se misturar é uma norma, e onde as pessoas curtem ser pessoas. Vamos ganhar umas três ou quatro estações novas, como inverno, primavera e outono. Eles vão ganhar a permissão pra usar Havaianas o ano inteiro e vão descobrir o prazer de se encontrar com os amigos no botequim e falar de coisas de Zeppelin e traseiro de moça. Eles vão nos ensinar a compreender Hegel, antes de eles mesmos passarem a achar que não vale a pena.

Pronto, usei apenas uma fração do dinheirão todo e já criei um paradigma de cidade que vai reunir a nossa humanidade em estado novo, com a antiguidade cultivada deles. Vamos receber uma enorme onda de sentimentos pacifistas, bem na hora em que o Brasil começa a se armar, quem sabe um pouco além da conta, agora que seremos a nova potência, também graças ao pré-sal. Assim, o dinheiro nos ajuda a comprar sabedoria, bem na hora que vamos precisar dela.

Ah, e com o troco da grana toda, proponho ainda que a gente compre e feche Londres. Estive lá nessa semana, reunião de trabalho, correria. Era para ser uma visita rápida, mas fiquei trancado por uma hora e meia na imigração, mais de 200 pessoas e apenas quatro, três e, finalmente, duas, atendendo a todos, nesse inferno que se tornou o Terminal 1 do aeroporto de Heathrow, para quem tenta chegar a Londres civilizadamente. Eles mudaram para pior a lei de imigração, ao contrário do Brasil, que facilitou as coisas para o mundo globalizado. Pois pelo que ouvi na fila, eles vão se arrepender. Eles não estão com essa bola toda, para poder maltratar assim quem apenas pretende entrar na Inglaterra. Portanto, comprar e fechar, essa a minha proposta, e, sinceramente, como não tenho apreço algum por monarquias, deixo ela para eles, de graça.

,p> Porque a gente quer ir e ver, mas quer ir e ver lugares que nos tratem dignamente. Uma hora e vinte em uma fila inútil é prova de que a Inglaterra não dá bola pra quem dá bola pra ela. Na minha opinião, esse é um grande, enorme, erro.

Na nossa futura São Paulo/Berlim, criada para ser a cidade mais legal do mundo, vamos trazer o aeroporto de Guarulhos para o centro de São Paulo, e ainda por cima abrir tantas posições na Imigração quanto o supermercado Zaffari tem de caixas sempre abertas. Todo mundo que quiser visitar a nossa cidade vai chegar rapidinho, entrar rapidinho e curtir a cidade como quiser, como eu pude fazer a partir do segundo em que cheguei a Berlim.

Porque uma cidade legal, uma cidade para o novo século, é uma cidade onde as pessoas sentem que tudo foi criado em função delas. São Paulo/Berlim vai ser assim, nossos espíritos combinados vão garantir que vai dar certo, e o dinheiro do pré-sal vai garantir o que faltar. O único problema vai ser o que fazer com o resto das cidades por aí, porque é óbvio que, assim que surgir, a nossa nova cidade vai ser o lugar onde tudo mundo vai querer morar, meio que como já é São Paulo hoje, no entanto, ainda por cima plana e com o pão da Siebert.

Assim, mesmo em um lugar onde cabem todos, como São Paulo, é capaz de faltar espaço. Mas aí não é problema. Com o que sobra de pré-sal, a gente compra mais algum lugar que nos pareça interessante, tipo a Chapada Diamantina, e pronto, anexa.

Pois afinal, quando há recursos de sobra, quando existe desejo de fazer e acontecer com eles, o que parece faltar ao Serra e sobrar no Lula, a gente vai lá e faz. O que não tem jeito mesmo é a falta de imaginação, como a que ainda hoje nos governa. Aí tudo é sem graça, tudo é cinza, ao menos até quando Berlim, nossa aquisição mais recente, chegar para mostrar o que estávamos perdendo, até agora, o que poderíamos e vamos ser, porque agora a gente quer, e pode.


Marcelo Carneiro da Cunha é escritor e jornalista. Escreveu o argumento do curta-metragem "O Branco", premiado em Berlim e outros importantes festivais. Entre outros, publicou o livro de contos "Simples" e o romance "O Nosso Juiz", pela editora Record. Acaba de escrever o romance "Depois do Sexo", que foi publicado em junho pela Record. Dois longas-metragens estão sendo produzidos a partir de seus romances "Insônia" e "Antes que o Mundo Acabe", publicados pela editora Projeto.

Fale com Marcelo Carneiro da Cunha: marceloccunha@terra.com.br

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