
Francisco Viana
De São Paulo
Nos últimos dias os jornais noticiaram que organizações como a Folha e a Rede Globo disciplinaram a forma com que seus jornalistas e estrelas, no caso da TV Globo, devem utilizar blogs, twiters, sites e afins. Não houve praticamente reclamações, nem manifestações contrárias salvo uma ou outra declaração em defesa da liberdade de expressão.

A liberdade da mídia se acomoda em "alguns limites", diz Viana
E por que haveria? Em qualquer empresa esse tipo de controle faz parte das regras do jogo. O funcionário de uma empresa automobilística, de uma construtora ou de um banco, por exemplo, não pode dizer uma coisa no blog corporativo e outra no seu blog particular. É elementar, em qualquer estratégia de comunicação, que a linguagem seja homogênea. Sobretudo, que não se dê opiniões, salvo quando autorizado e, assim mesmo, dentro de uma estratégia. Caso contrário... pode-se ser demitido. Regra não escrita, mas de todos conhecida. Regra que se quebrada pode acender o estopim de uma crise, causar prejuízos graves.
Nesse particular, o ombudsman da Folha, Carlos Eduardo Lins e Silva, foi extremamente feliz. Na sua coluna de domingo, dia 13, ele indaga: "(...)se um jornalista que cuida de política veicula em seu blog opiniões apaixonadamente pró ou contra um partido ou pessoa pública, de que modo o leitor vai confiar na isenção do que ele reporta na Folha?" Muito boa a questão. Teoricamente, perfeita.
Mas é nesse momento que surgem dois outros desdobramentos, justamente o que desejo avaliar aqui. A primeira é a isenção. Não existe isenção na mídia. Uma vírgula, a forma de hierarquizar os temas, a seleção de assuntos numa edição, os enfoques, tudo é claramente indício e evidência de uma tomada de posição, de uma visão da realidade.
O conceito de isenção nasce na década de 20 do século passado nos Estados Unidos para viabilizar economicamente a produção jornalística. Naquela época o jornalismo era predominantemente de opinião e isto criava muito conflito. Os empresários e políticos eram chamados abertamente de ladrões. Acusações de corrupção eram tão comuns quando as reportagens personalizadas com denúncias que abalavam alicerces da ordem estabelecida. Tudo muito livre. Tudo muito vibrante. Tomava-se partido. Havia engajamento. Ou se era contra ou se era a favor. Nada desse culto meio hipócrita a isenção, a objetividade dos fatos. A verdade era múltipla de verdade. Ninguém duvidava. O ceticismo - o questionamento de todas as verdades - era tão comum quanto o ar que se respira.
Com o conceito de isenção, o caráter do noticiário ficou dividido: opinião é para editorial, reportagem é fato. E o editorial, de preferência, deve ser alicerçado em fatos. E nesse momento é que surgem os impérios de comunicação. Toda empresa necessita de uma teoria. A teoria da empresa de mídia é justamente essa: a isenção, a objetividade dos fatos. Ouve-se as partes envolvidas e, partir daí, a isenção está sacralizada.
Hoje, inventou-se o conceito do outro lado. Fica, na teoria, equilibrado. E se tem o salvo conduto para se posicionar, seja qual for o tema, protegido pelo espesso véu da isenção. As mídias sociais estão lançando luzes sobre as contradições da teoria. Seriam elas mais mito do que realidade?
O segundo aspecto é resultado do primeiro. A mídia é um negócio de duas faces: metade serviço público, metade negócio. Uma espécie de Janus moderno. Herdeira da Revolução Francesa, herdeira do liberalismo clássico, vítima dos impactos da pós-modernidade, refém de um modelo que as novas tecnologias de comunicação estão fazendo ruir um dia após outro. A face do serviço público não sobrevive se o negócio não for vitorioso.
Porém, esse negócio só existe se houver liberdade. Mais que tipo de liberdade? Liberdade de mercado? Liberdade de expressão no sentido de construir uma sociedade governada por poucos ou uma sociedade governada por muitos? Uma sociedade isonômica onde todos tenham direitos iguais? Liberdade para defender uma democracia representativa que está fazendo água por todos os lados ou uma democracia participativa onde o conflito gere as soluções destinadas a beneficiar a todos?
É uma liberdade limitada, a da mídia, acomodada em certos limites. Ela está associada aos fatos e dentro de uma linha que o veículo delineia. Vale para os veículos conservadores, vale para os veículos liberais. Tente entrevistar um jornalista de uma emissora de televisão que trabalhe por contrato e a resposta será: eu tenho um contrato, só posso falar se autorizado. Seria diferente do funcionário de qualquer outra empresa? Claro que não.
E o que é uma empresa senão uma hierarquia bem definida, com regras objetivas e bem delineadas?
Na empresa de mídia não é diferente. O que muda é a natureza da "mercadoria". Esse conflito entre o que se pensa e o que se diz existe todos os dias nas empresas que não vendem noticias. A regra é: discute-se à exaustão o que se pensa, mas os conflitos não podem aflorar em público.
Na mídia não é diferente: já imaginou o editor de um grande veículo dizendo em público que discorda da linha do proprietário ou dos acionistas? Ou que o político que o colunista defende é um canalha que ele quer ver cassado? Ou triturando as empresas anunciantes? Voltaríamos aos anos 20 do século passado. Seria divertido, mas o negócio jornalístico quebraria as pernas. Afundaria.
Redações são mais hierarquizadas do que se imagina. A questão hoje é que as chamadas mídias sociais colocam em xeque o modelo tradicional. Porque há nele uma contradição: como defender a liberdade de expressão se as mesmas pessoas que a defendem não podem usufruir da liberdade? É uma questão esfingética, não? É uma questão de difícil resposta, não? Afinal, que tipo de empresa é um veiculo de mídia?
Na empresa tradicional não existe qualquer compromisso de liberdade de expressão, no sentido da discussão pública, salvo aquele imanente do próprio conceito de democracia. Caso os acionistas ou o dono, claro, tenham vocação democrática. Os produtos são outros, os públicos são outros. A regra é clara: fala quem a empresa autoriza. Mas na empresa de comunicação é diferente.
Como defender a liberdade de expressão se o próprio jornalista não pode dizer o que pensa num blog ou num site que leve o seu nome? Como exigir que as pessoas falem se a própria empresa restringe a fala? Se a política se exerce pela fala, como ensina a liberal Hannh Arendt, não estaria a mídia patrocinando a antipolítica? Eis o drama, simplificando: como articular a face negocial com a face utilidade pública? Eis uma questão a exigir resposta. Eis uma questão que passa agora a fazer parte do cotidiano das relações da mídia com a sociedade brasileira.
Fale com Francisco Viana: francisco_viana@terra.com.br
Terra Magazine