
Lecticia Cavalcanti
Do Recife (PE)

Cada lugar tem seu jeito próprio de celebrar casamentos. Só não mudam os bolos em volta dos quais a festa se dá. Foi sempre assim. Os primeiros tinham, quase sempre, a forma de pássaros. E eram flambados na cerimônia para afastar os espíritos ruins. O noivo comia parte de uma fatia, esmagando o resto na cabeça da noiva - simbolizando o romper do hímen e, sinal daqueles tempos, o domínio do homem sobre a mulher. As migalhas eram disputadas pelos convidados, segundo se acreditava para dar sorte.
Na Idade Média, vingou o costume de empilhar os vários pequenos bolos trazidos pelos convidados; e surgia assim, meio por acaso, o bolo em andares - oficializado pela primeira vez, em 1553, no casamento da florentina Catarina de Médici com o futuro rei Henrique II da França. Nos fim do séc. XIX, quanto maior e mais detalhes tivesse o bolo, e mais importante seria a festa. Chegavam a ter 200 kg, e mais de dois metros de altura.
Passa o tempo e esse bolo mantém nobreza e simbolismo. Há, nele, todo o mistério que marca o próprio ato de duas pessoas unirem seus destinos, em ritual parecido por toda parte. A primeira fatia deve ser cortada pelos noivos, de mãos juntas e já com alianças - representando, por sua forma redonda, a própria eternidade, ausência de começo ou fim.
São usadas no dedo anular da mão esquerda desde os egípcios - que acreditavam correr, nesse dedo, uma veia em direção ao coração. Têm todos a cor branca, na cobertura, simbolizando pureza e virgindade. Como são brancos hoje, os vestidos de noiva, imitando a cor dos bolos - por conta da rainha Vitória, que vestiu um de cetim debruado com as mesmas flores de laranjeiras que decoravam seu bolo.
No Brasil, bolos de casamento têm preparos diferentes. No Sul, a massa é branca e tem recheios variados - ainda herança do colonizador português. Diferentes dos de Pernambuco, com massa escura à base de vinho, ameixas, passas e frutas cristalizadas - herança dos ingleses.
Só para lembrar, esses ingleses chegaram por aqui no princípio do séc. XIX, com Great Western, Western Telegraph Company, Pernambuco Tramways and Power Company, Western of Brazil Railway Company e outras Companhias mais.
Além do bolo de frutas, nos ensinaram o chá das cinco e filé com fritas. Também a usar tropical inglês, linho diagonal branco (Taylor & 120), casimira, gravatinha borboleta, sapatos com polainas, chapéu de palha e bengalas.
Voltando aos bolos de casamento, aqui eles são quase sempre cobertos com pasta de amêndoa e recobertos com glacê branco. A moda chegou na Península Ibérica em 1906, com o casamento da princesa Victoria Eugenia de Battenberg (neta da rainha Vitória) com o rei da Espanha, Afonso XIII (avós paternos do atual rei Juan Carlos I). Sendo, por fim, decorados com flores em relevo feitas de goma e açúcar - herança da Ilha da Madeira.
E assim será, por muitos e muitos séculos mais, ao menos enquanto existirem casamentos, festas de casamento e um pouco de poesia neste mundo de Deus.
P.S. Dedico essa coluna aos meus pais, que quinta-feira passada celebraram seus primeiros 60 anos de casados. Em volta de um bolo de casamento, claro.
INGREDIENTES:
6kg de manteiga
6 kg de açúcar
100 ovos
10 limões
Noz-moscada ralada
Cravo-da-índia e canela (torrados e triturados)
4 kg de ameixa
6 kg de frutas cristalizadas
3 kg de passas brancas
3 kg de passas pretas
1 ½ copo de conhaque
5 garrafas de vinho do Porto
6 kg de farinha de trigo
1 colher (de sobremesa) de fermento em pó
3 kg de amêndoas (sem pele) moídas
PREPARO:
- Bata bem a manteiga. Junte o açúcar, aos poucos, e continue batendo.
- Acrescente ovos (clara e gema), raspas de limão, noz-moscada ralada, cravo e canela.
- Prepare um doce com as ameixas, quase sem caldo. Junte à massa esse doce de ameixa. Também frutas cristalizadas (moídas na máquina), passas que ficaram anteriormente de molho no conhaque e no vinho do Porto. Colocando também na massa o vinho e o conhaque em que as passas ficaram de molho.
- Quando tudo estiver bem misturado, vá juntando farinha de trigo peneirada, fermento e amêndoas moídas.
- Despeje em fôrmas bem untadas e forradas de papel impermeável.
- Asse em forno médio, por mais ou menos seis horas.
- Cubra a parte de cima do bolo com uma camada (de mais ou menos um dedo de altura) de pasta de amêndoa feita com - duas latas de leite condensado, duas latas (a mesma do leite condensado) de amêndoas trituradas e essência de amêndoa. Leve o leite condensado e as amêndoas ao fogo. Mexa até desgrudar do fundo da panela. Retire do fogo e junte a essência de amêndoa. Coloque sobre o bolo esta pasta ainda morna.
- Cubra tudo com o glacê branco e decore.
- Esta receita faz dois bolos, um de 60 cm de diâmetro e outro de 40cm, devendo o menor ser posto sobre o maior, compondo o bolo de noiva com dois andares.
Fale com Lecticia Cavalcanti: lecticia.cavalcanti@terra.com.br
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