Terra Magazine

› Terra Magazine › Cultura

Segunda, 21 de setembro de 2009, 10h07 Atualizada às 11h13

Tuta: "Ninguém faz sucesso sozinho"

Bob Fernandes

Quem nasceu depois dos anos 70, se não é ligado não sabe quem ele é. O Tuta. Antonio Augusto Amaral de Carvalho, que você pode ler e ouvir logo mais abaixo. Ele, aos 78 anos, é o dono e dínamo da Rádio Jovem Pan.

Mas Tuta foi, é, muito mais do que isso. Nas últimas páginas do Livro "Ninguém Faz Sucesso Sozinho", que ele lança nesta segunda-feira a partir das 18 horas na Saraiva do Shopping Higienópolis, São Paulo, Tuta lista 247 cantores, cantoras e artistas que com ele trabalharam na televisão entre 1953 e o final dos anos 60. Elenca também os 339 jornalistas que para ele trabalharam e os 415 repórteres, radialistas, técnicos e consultores que neste 2009 trabalham na Radio Jovem Pan.

Veja também:
» Opine aqui sobre a trajetória de Tuta
» Bob Fernandes entrevista Tuta, da Jovem Pan. Ouça
» Siga Bob Fernandes no twitter

A televisão é aquela que um dia pertenceu a seu pai, e onde ele começou em 1953, ainda antes da TV, a Record, ir ao ar. Seu pai, o empresário Paulo Machado de Carvalho, conhecido também , ou ainda mais, por ter chefiado as seleções brasileiras na Copas de 58 e 62, donde ser chamado de O Marechal da Vitória e ter o seu nome rebatizado o estádio do Pacaembu depois do bicampeonato no Chile.

Para que se tenha uma idéia do que perpassa a história de Tuta: Em uma ampla sala da Jovem Pan, 24° andar da Avenida Paulista com Joaquim Eugênio de Lima, Jardins e zona Sul de São Paulo a perder de vista, retratos na parede. Todos autografados para "Tuta".

Muitos dos retratos autografados são de alguns dos que estiveram em algum dos programas por ele dirigidos na Record dos anos 50/60: Louis Armstrong, Sammy Davis Jr, Ray Charles, Tonny Bennet, Nat King Cole, Charles Aznavour, Earl Grant, Bill Halley, Amalia Rodrigues, Marlene Dietrich, Maurice Chevalier, StevieWonder... e por ai afora.

A mesma TV Record onde seriam lançados Roberto Carlos e toda a Jovem Guarda, e boa porção do que ainda hoje é nata na MPB: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque de Holanda, assim como na Record despontaram, ou por lá passaram, Vinicius e Toquinho,Jair Rodrigues, Os Mutantes, Os Novos Baianos, Demônios da Garoa, Elis Regina, Wilson Simonal e Nara Leão, entre dezenas e dezenas de grandes nomes da história da música brasileira.

Os programas se chamavam "Essa Noite se Improvisa", "Show do Sete", "O Fino da Bossa", "Bossaudade", "Corte Rayol Show"...Elizeth Cardoso lá brilhava, Ataulfo Alves na Record fez suas últimas aparições, no mesmo Canal 7 Hebe Camargo se consolidou como estrela da família brasileira. E nos palcos da Record o gênio do humor Ronald Golias comandou a inesquecível "Família Trapo", sitcom escrito por Jô Soares, também mordomo daquela família, e Manoel de Nóbrega .

No comando, deste ou daquele programa, sempre, a Equipe A: Tuta, Manoel Carlos (o mesmo autor de novelas da Globo de hoje), Raul Duarte e Nilton Travesso...

Em 1966, sentindo que a Radio Panamericana despencava, como todas, que sofriam com o crescimento da televisão, Tuta assumiu o controle, mudou o nome para Jovem Pan e deu início a mais uma história de sucesso. A Jovem Pan reinventou no jornalismo, no radiojornalismo esportivo, impôs o hábito de campanhas cidadãs, como a de combate à AIDS, dengue e meningite, pela vacinação infantil e pela educação contra o uso de drogas.

Nesta conversa num estúdio da Jovem Pan, o empresário Tuta que acompanha a programação da sua rádio o dia inteiro, fala sobre o livro que lança nesta segunda-feira e os seus 50 anos de carreira.

O empresário vê "acomodação" e falta de disposição para a boa briga nos concorrentes da Rádio, descreve a trajetória da Record e Jovem Pan, tantas vezes guiada pelo destino, pelo acaso e improvisação, mas também pelo faro e talento dele e equipes.

Tuta aborda os extraordinários sucessos, a época de ouro da TV Record, mostra como vive a sua Jovem Pan hoje e aponta seus favoritos, os que foram, são objeto da sua admiração. Mas não consegue esconder qual foi sua maior decepção em 50 anos de carreira:

-O Milton Neves(...) Trabalhou 33 anos e entrou na Justiça(...) Desde o dia em que ele entrou na rádio começou a guardar papeis. Até hoje tem um processo na Justiça.

A seguir, a entrevista.

Terra Magazine - Estamos com o senhor Antonio Augusto Amaral de Carvalho, o Tuta. Gerações mais recentes têm a impressão de que foram o Bill Gates, o Steve Jobs, os fundadores do Youtube que criaram tudo... eu queria começar perguntando o seguinte: a nata da música popular brasileira ainda hoje, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, a Elis Regina que já se foi e tantos outros, a Jovem Guarda de Roberto Carlos... Tudo isso passou, de alguma forma, pelas suas mãos e de sua equipe ( NR: Na TV Record, então propriedade de Paulo Machado de Carvalho, pai de Tuta). Certo? Pra a gente começar a conversar...

Antonio Augusto Amaral de Carvalho -
É isso aí.

Como era? Como é que se formulava, como é que se criava, como é que surgiu?
Era muito dividido. Porque o jovem tinha a turma do Roberto Carlos, Erasmo e tal. A Elis Regina, a música popular brasileira, e tinha a Elizeth (Cardoso) com as coisas mais antigas...

O Ataulfo Alves...
O Ataulfo Alves estava mais no carnaval nessa época, normalmente nos programas não entrava tanto. Acho que era meio dividido...

Ele entrava no Show do Sete...
No dia sete sim, no Show do dia Sete. A última vez que nós fizemos Ataulfo Alves, fizemos no teatro Paramount. Acho que foi um dos primeiros programas que nós passamos no Paramount, por causa do incêndio na Consolação. Então, a gente bolou um programa bem brasileiro para o Ataulfo Alves, aquele negócio todo. E a gente queria que naquele programa, todos os espectadores entrassem com bandeiras brasileiras. E naquele tempo, era o tempo militar (ditadura militar, 1964-1985), e a gente foi consultar o comandante se poderia fazer isso, e foi negado. E nós fizemos o espetáculo todo com bandeira paulista, parecendo que a gente estava torcendo, vendendo um peixe que não era verdade. A gente queria fazer com a brasileira, e fomos proibidas de fazer com a brasileira. Era um absurdo. Esse tape, quem comprou e tem até hoje foi a Globo. Porque depois em uma época de dificuldade da Record, eles (Globo) acabaram ficando com isso. Algumas semanas depois, o Ataulfo morreu.

À Record como chegaram os baianos, por exemplo, Gilberto Gil, Caetano, que cantavam nos festivais, como chegou o Chico Buarque? Eles chegaram ou vocês que chegaram? Como foi a junção que começou a mudar a música popular brasileira?
O problema foi o incêndio da Record. Quando houve o incêndio da Record, a gente tirou para fora, a única coisa que sobrou para fora foi o caminhão de reportagem, onde tinham quatro câmeras, e equipamento para fazer a reportagem, futebol e tal. A gente conseguiu tirar ele de dentro da tevê. E a partir das dez horas da manhã, a gente pôs a estação no ar, diretamente do teatro Record. Isso mudou tudo... Não houve um esquema.

Foi improvisação, na verdade?
Não houve um esquema para fazer música brasileira. Foi o destino...

Foi o destino, a improvisação e a inteligência...
Aí tinha acontecido o espetáculo da Elis, a gente puxou a Elis. Foi a primeira. Depois disso, o Simonal, que estava na Tupi, na época fazendo um programa, sacaram ele de lá. Depois foram vindo os outros, pela quantidade de programas que a gente tinha, shows e tal, e praticamente acabou ficando. Porque os outros (as emissoras Tupi, Excelsior e Globo) não tinham interesse, não tinham programas musicais.

Ali se consolidou uma geração da música brasileira...
É, ali consolidou. Mas, assim, meio na sorte. Agora, inclusive parte dos baianos e tal, não eram cantores. Como Chico Buarque, que não era cantor. Eles eram compositores.

Eles entraram no "Essa noite se improvisa"(NR: Programa onde os convidados tinham que cantar,e antes dos demais, uma música que contivesse a palavra citada).
A partir do "Essa Noite se Improvisa", é que eles passaram a ser cantores.

"A palavra é" ... era o mote...
É. A gente tinha que decidir, eu conhecia bastante música, gostava muito. O Manoel Carlos conhecia bastante música, então a gente se uniu.

E o Nilton Travesso também...
...através disso, a gente tinha que acertar se eles...

...estavam enrolando...
Se estavam enrolando. E tinha o Raul Duarte que conhecia as músicas antigas.

E não tinha Google naquela época para conferir.
É isso aí.

Quem era a equipe que pensava esses programas, essas coisas? Quem inventava?
A maior parte dos programas, eu que inventava. Mas inventava não sei por quê. Porque ficava quebrando a cabeça para...

Por a bola na quadra.
Que nem a "Família Trapo", vamos dizer. Então fui eu que inventei, mas na teoria apenas, não é que eu... Nós fomos desenvolver todo mundo junto. E o fulano... O Paulo Planet Buarque a gente tinha pensado.

Que era locutor esportivo também?
Era, comentarista esportivo. E assim foi. O Zeloni...

Zelloni, o Otelo Pepino Trapo...
...Família Trapo. Aí restava à gente quem ia escrever. Falamos: agora temos que escrever. Aí surgiu a idéia: que tal juntar o Jô Soares com o Carlos Alberto de Nobrega? O Jô tem humor mais fino, o Carlos Alberto de Nóbrega bem popular. Vamos chamar os dois. A princípio eles ficaram meio assim...

...Para ver se ia dar liga...
...Resolveram. Entre eles, dividiu. Porque a Família Trapo era baseado em uma história, por exemplo... O (Ronald) Golias encontrou um bilhete na rua, é o bilhete vencedor, ficava aquele furor todo e no final, o bilhete estava furado. Então eles dividiram entre eles de forma que combinavam e deu certo.

E a liga quem dava?
Eles contavam a história e falavam: "Bom, eu faço do inicio até entrar o Zeloni. Ai você pega no Zeloni e leva até"...não sei o quê. Entendeu? Entre eles. E era uma união perfeita, por incrível que pareça, porque eles dividiram o programa. Aparentemente parece que não ia dar certo.

Tinha o excepcional Ronald Golias (no personagem Carlo Bronco Dinossauro)...
Todos eram. O Zeloni era muito bom, excelente.

Mas o Golias era extraordinário...
É, o Golias sempre foi...

...ele atravessou um programa quase que inteiro contando os componentes de uma feijoada, toda a feijoada e terminava no elevador lotado e quebrado com ele dizendo: "Amigos, fiz o que pude"...
É isso aí. Ele tinha o terreno dele no Mato Grosso.

Um terreno "Sete por quatro".
Aquele negócio todo pequeninho. Então era muito bom, o Golias era excepcional.

Mas antes disso, o senhor começou na rádio Panamericana...
É o seguinte, eu comecei a trabalhar na rádio Panamericana na parte administrativa, em 1949.

A rádio é de quando?
1942. No ar, em 1942, talvez tivesse sido criada antes, mas no ar em 1942. Eu comecei em 1949 fazendo serviço lá, ajudando meu irmão, que era o diretor da rádio.

Qual?
Paulinho. Aí Paulinho foi transferido para a Record, para a rádio Record. Alguém tinha saído da Record, ele passou para a rádio Record. Aí passei eu a controlar lá. Entrei em 1951, 1952, e fui para a tevê. Em 1953, começou a tevê.

Convite de seu pai?
É convite dele. Ele falou: "O que você acha de trabalhar na tevê?". Ótimo.

"Vou nessa". Ali estava nascendo a televisão no Brasil...
Ele falou: "Mas não vai dirigir nada. É só para ir lá e aprender". Tudo bem, tudo bem.

» Clique aqui e leia a continuação da entrevista.

 
Divulgação
Imagem do livro "Ninguém faz sucesso sozinho", que será lançado por Tuta nesta segunda-feira

Busque outras notícias no Terra

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol