Atualizada às 11h18 Terra Magazine - Estamos na internet e, portanto tem muita gente muito nova. Para que saibam, seu pai era Paulo Machado de Carvalho, empresário de telecomunicação, criador da TV Record, da rádio Jovem Pan (Até 1966 a "Panamericana"), e o chamado "Marechal da Vitória", o Chefe da Delegação, o homem que comandou a seleção brasileira de 1958-62, nas Copas de Suécia e Chile, e que também é nome do estádio do Pacaembu (São Paulo).
Antonio Augusto Amaral de Carvalho -
É, depois da Copa deram o nome do estádio para ele. Mas tudo bem, é isso aí. Então em 1953, eu fui para a tevê. Até no livro conta que o Nilton Travesso estava lá...
O livro se chama "Ninguém faz sucesso sozinho". Que conta os "Bastidores dos anos de ouro da TV Record e da rádio Jovem Pan".
Então em 1953, foi quando comecei. Peguei uns livros americanos sobre televisão, não conhecia nada.
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O senhor falava inglês?
Falo bem inglês. E não concordei com o que estava vendo. Sem conhecer. Por quê? Porque eles tinham uma série de regras, e eu acho que certas regras não podem ser dadas para quem faz...
Tipo?
Tipo assim: nunca pode ser cortada uma câmera de um plano geral para um close. Não pode fazer isso: cortado de todo jeito. Mas o grande problema é o seguinte: se eu, em uma novela, quiser dar um susto no telespectador, dou um geral, dou um close da boca do cara gritando... Então, achei que o livro ensinava, assim, mais ou menos.
Muito esquemático...
Muito preso no deles lá. Falei: olha acho que isso não serve. Fui tentar aprender eu mesmo.
...Botar um dendê nisso...
Mexia o dia inteiro, o dia inteiro cortando, fazendo coisa, treinando. Assim, com o Nilton Travesso junto. Então, nós dois começamos a fazer direção de tevê na época. Os dois faziam. Mas quando juntou a equipe A, ele abriu mão de fazer.
Quem era a equipe A?
O Manoel Carlos, esse que faz as novelas hoje em dia na Globo. O Raul Duarte, que era um cara antigo, que sabia tudo da parte antiga, tudo o que precisasse, ele sabia. Letras de música... Antigo funcionário da Record.
A memória, um erudito...
E o Nilton Travesso e eu. Aí a gente falava quem vai cortar (editar os programas)? Porque o Nilton tinha muita facilidade na produção, em treinar os caras lá, o que eles iam falar, como é que funcionava... Então ele ficou com essa parte de cenário...
Direção...
Direção de palco, e eu fiquei com a direção de tevê.
Qual é o primeiro pulo do gato da TV Record?
Vamos ver a primeira vez que se fez alguma coisa... Não sei, talvez a gincana.
Que ano?
Sou péssimo para ano.
A década?
A década: 1960.
Aquela gincana que incomodava o Silvio Santos, está no livro.
É. No começo da década de 60, a gente inventou a gincana. Só eu sabia as provas. Eu ia procurar, perguntava uma coisa para você, para outro, mas não dava nada. Só escrevia e depois ia achar o que era. Normalmente, a gente tinha uns duzentos carros, muita gente. E cada carro tinha outros carros companheiros daquele, para ajudar e tal. Todo mundo queria ter um carro de prêmio e todo mundo queria fazer. A gente começou a fazer. Mas a gincana era um problema tremendo. Porque quando chegava o final da gincana, era um problema. Uma das vezes, por exemplo, a gente pediu um urubu, às dez horas da noite, trazer um urubu. Um deles, aparentemente era uma galinha, pintada.
(Risos).
Mas não havia a menor condição de dizer que aquilo era galinha. Porque ia dar morte. Porque os caras, dez horas da noite, depois do dia inteiro trabalhando, inventaram um negócio...
Uma galinha preta? Sabe-se lá de que terreiro veio aquilo...
Vai dizer que aquilo não era um urubu? Era um problema. Como outros ficavam desclassificados por não terem conseguido outras coisas, a gente fazia. E a gente dirigia a quem a gente queria aborrecer. Então, por exemplo, o Silvio Santos, ele tinha programa ao vivo. Então a gente falava: olha, tem que ir no Silvio Santos e aparecer. Na tevê. Se não aparecer, está fora. Todo mundo ia lá, ao chegar, 50, 100 caras...
Tipo os meninos do Pânico...
O Silvio não perdeu a esportiva. Falava: vou acumulando, deixava os caras de fundo, aí abria as cortinas, e falava: "Olha, está todo mundo aqui da gincana da Record. Está todo mundo aqui, aprovado e tal e coisa", e continuava (risos). E a gente pedia...
E o urubu, como é que terminou?
O urubu terminou que aceitou.
A galinha que virou urubu.
Aceitou que aquilo era um urubu... porque ia ter morte. A partir da segunda vez que a gente fez, a gente começou a: "Bom, temos que pensar em uma pessoa". A primeira vez foi o Jô Soares. A outra vez foi o Jair Rodrigues. Tem que achar uma pessoa, o Jô Soares: ele está em algum lugar de São Paulo. A gente punha: está entre a Brigadeiro e a Lapa. Na realidade, ele estava na praça Buenos Aires. Aí ele ficava sentado, à medida que vai apertando o negócio, de repente chegou uma turma que pegou ele.
Pegou, capturou...
...levou e ganharam o prêmio principal. Na outra vez foi o Jair Rodrigues.
Nessa época já tinha o futebol na Record...
Já.
O vídeotape de noite.
Não, não existia vídeotape.
Era como?
No início, ao vivo, tudo ao vivo. A gente podia filmar, algum recurso para gravar alguma coisa, mas não tinha o vídeo ainda.
O Geraldo José de Almeida era de quem?
Da Record.
O da expressão "O craque Café" para o Pelé...
..."Seleção Canarinho", tudo dele.
Quer dizer, o futebol já era uma peça de resistência. E era o grande canal do futebol.
E eu comecei a fazer futebol. A primeira vez que fiz o futebol, a televisão não estava no ar ainda.
Não?
Não. Fizemos antes da estréia para sentir como é que funcionava.
E deu sorte, mais uma vez, porque pegou o auge do Santos, o maior time do mundo, o Santos...
Mas naquela época o Santos estava começando...
Ah, 1955, ainda era Pagão...
Foi depois de 1958 que ele apareceu, dali para frente que começou. No início, tape não tinha, o troço era meio difícil.
Mas a explosão da Record se dá nos anos 60 já com...
Mas toda a época da Record foi essa: de 60 a 70.
Teve o futebol, o auge era o Santos, o grande time do Brasil e do mundo, e teve o lançamento de uma geração de música brasileira pop - Roberto Carlos etc - e a MPB.
Tudo apareceu ali. Por necessidade.
E por improvisação.
Improvisação e necessidade. Porque não tinha onde fazer o programa, só no teatro. Tinha que fazer todo o programa de lá. Inclusive a Família Trapo, quando a gente foi fazer no teatro, meu irmão era meio contra por conta da questão do cenário.
Era uma casa, né?
O cenário, todo mundo vai no teatro Record todo dia, a mesma coisa. A única coisa para modificar era ter dois andares, tem que ter em baixo e em cima. Ele não queria, (dizia: )"Vai gastar muito, não tenho certeza". Não, mas vai ter que fazer. Ele acabou concordando e foi feito o cenário. E realmente ajudava muito. Na época a gente não tinha os microfones e as coisas como a gente tem hoje. Eram aqueles microfones direcionais, o cara deitava lá (fazia de conta) para esticar e chegar perto d o microfone. Porque tinha muita dificuldade do som.
E o programa foi um extraordinário sucesso. Quantos anos ficou no ar?
Ficou uns dois, três anos.
Ali já era ditadura. Como foi a relação? Os festivais tinham dificuldades, não tinham... Como foi aquilo tudo?
A ditadura, a censura, era muito chata e era de uma maneira, que eu até coloquei no livro, quando eles vinham apanhar alguma fita, alguma coisa, na tevê, eles vinham com uma perua com sirene tocando, todo mundo de metralhadora, descendo de metralhadora para pegar a fita. Eu pensava: "Pô... A fita está aí, pode levar!".
Fita de programa, entrevista?
É fita de programa, Chico Anísio, os programas humorísticos que tinham coisa. Inclusive o Chico Anísio era um que eles vetaram, um absurdo, por uma piada que o Chico conta até hoje que o campo de futebol era uma subida e o negão, que era muito bom e tal, tinha um bonezão, e a primeira coisa que você via ele vinha era o boné. "Lá vem o negãããão". Acharam que o negão era pejorativo, falar negão. Mas não era, a gente conversando, fazendo futebol, era negão.
O Pelé era chamado assim...
Era normal. Mas o cara ensinava. A gente era obrigada a deixá-lo assistir aos programas gravados, antes de irem para o ar, e cortar o que ele queria. E as pessoas eram pessoas normais, não sei se tinham qualidade para cortar ou não cortar, mas a ordem era essa então a gente tinha que ter carteira do Dops para trabalhar.
Já depois, teve um programa com o qual vocês tiveram problema, "Jogo de Cartas"...
Vários, vários. Eles (militares) criavam caso com tudo, até para valer a condição deles. Deixar o programa normal era meio besta. E na música, eles tiveram muita dificuldade, porque a maneira de interpretar a música é... O que eu acho é o seguinte: por que esses grandes compositores brasileiros não fazem mais música?
Porque não tem a quem enfrentar?
...É uma coisa curiosa.
Mas também é a coisa de espaços...
Toda música de sucesso que fizeram na música e de repente não criam mais? Não sei...
Ou não se têm espaço?
...eles depois não criaram mais, coisa meio esquisita...
Sua opinião sobre o jabá é polêmica. Qual a opinião do senhor sobre o famoso jabá?
As gravadoras, inclusive, alimentavam de certa maneira o jabá. Porque a partir da hora em que você escolhia determinado cantor para cantar, é porque eles davam verbas. Como é hoje na política, quem combate o governo não tem verba; quem fala bem do governo tem verbas grandes. Seria mais ou menos isso na música. A gravadora tinha às vezes interesse em um cantor menor, mas era a gravadora que tinha interesse, então dava alguma facilidade para você poder dar mais destaque àquela música do que o normal. Eu não achava nada demais. Porque o jabá ruim seria alguém pegar um dinheiro para tocar, um sonoplasta, alguém. Não era isso.
No meio dos anos 60, se não me engano, o senhor volta para fazer a Jovem Pan como ela se tornaria conhecida.
Foi, em 1966, na época da Revolução (golpe militar).
Como é isso?
A Pan, a partir dessa época, começou a enfraquecer. Ela vinha fazendo futebol e depois deu uma esfriada, por causa da tevê. Porque quando foi iniciar a tevê, meu pai reuniu todo mundo em casa e falou: "O importante é o seguinte: que ninguém pense só na tevê, se não as rádios vão todas para a breca", o que aconteceu com a Tupi. A difusora e a Tupi ficaram delegadas a segundo plano e tal. Ele deu esse alerta. Em 1953, a televisão realmente enfraqueceu um pouco as rádios... tinha programa japonês, programa árabe, sei lá, um monte de coisas de colônia, que não dava... podia atingir um pouco mais, o outro é mais fraco. Eu queria por para minha ação um plano que eu tinha de americano, como eles faziam. Que era: pegar um número de músicas, 50 músicas, e tocar só aquilo, dia e noite só aquelas; tudo música de sucesso, cantores bons, para ver o que ia acontecer. E í meu pai autorizou. A partir da hora que ele autorizou, eu escolhi 50 músicas e cortei toda a programação que tinha nas rádios. "A partir de amanhã, não tem mais japonês, não tem mais...". A turma ficou muito assustada, mas a gente não podia perder tempo. Eu não sou muito de perder tempo.
Vamos fazer, vamos fazer?
Tem que fazer, então vamos lá. Comecei a fazer, mas comecei a sentir um pouco de problema porque o sonoplasta , os caras que tocavam as músicas queriam tocar as deles e não as que tinham na lista. Então, eu andava com a lista no bolso e conferia. Chegava e falava: "Quem está tocando? Elis Regina. Bom, acabou a Elis tem que tocar Roberto e depois vem uma música americana". Eu tinha a ordem e ia pegar no pé dos caras. Às vezes tinha uma suspensão pequena, mas tive que pegar no pé porque... eu falava: "Olha, isso não é nem música que eu gosto, ou não gosto. É música escolhida e acabou, tem que tocar isso. Porque se vocês não tocarem isso, eu não sei se deu certo ou não. Se você enxertar com outras músicas que não essas, eu vou ficar em dúvida se deu certo ou se não deu certo". Então, eu comecei a pegar no pé e a turma tocou e houve o primeiro pulinho da Pan, outra vez deu uma melhorada...
Com mais jornalismo?
Aí entraram primeiro os cantores, e aí a segunda etapa qual foi? Fazia todo dia os programas com os cantores. Falei: "Que tal por os caras para fazer?". Então fui conversar um por um: "Vem cá, que você acha de fazer um programa de rádio? Assim, assim, você pode gravar na rádio, na sua casa, aqui no teatro...". Mas que vantagem tem isso? Vai pagar? "Não, não tem dinheiro para pagar". E qual a vantagem? "A vantagem é que você vai conseguir falar com seu público o que você quer: qual é seu próximo espetáculo, aonde você vai estar, mandar um beijinho para fulana que mandou carta, vai comandar as cartas que você recebe. É uma comunicação direta com seu público". A turma topou, os primeiros começaram fazendo, os outros acharam ótimo.
Quem veio?
Todos. Roberto, Elis, Jair, todo mundo.
Simonal...
Simonal, até Miriam Batucada. Tinha meia-hora. Todo mundo topou fazer. Aí deu um segundo pulo.
E o terceiro?
O terceiro foi o jornalismo.
Começa de manhã o programa, utilidade pública...
Começamos com a "Equipe 7:30". O programa teve tanta repercussão, que logo, logo teve que aumentar. Então aumentou para oito, oito e meia, e aí tinha que ir para trás no horário. Então não podia ser "Equipe 7:30", tivemos que mudar o nome. "Equipe 7:30" e o programa vai começar às seis e meia? Então, a gente mudou o nome sempre jogando no jornalismo e foi incrementando, achando as peças certas para fazer.
À mesma época, o rádio esportivo?
Era quase que junto.
Época do Estevam Sangirardi (também já anos 70), maravilhoso show de rádio, que dizia "Rádio Camanducaia, pelo amor de Deus, Anuncie nessa emissora!!!".
Tinha que convidar o cara que tocava clarinete, não sei como ele chamava, e ele já vai jantado.
Tinha o "Zé das Docas" (risos) o "Comendador"...
É (risos), pode convidar que o bicho já vai jantado. Isso foi o Sangirardi, ele já havia feito no passado, já havia feito o Show de Rádio.
Ainda na Panamericana?
Na Panamericana, mas tempos atrás.
Futebol? Os mesmos personagens, cada time tinha um?
A mesma coisa. Ele voltou, porque tinha saído do ar, falaram: "Que tal voltar? Um show de rádio, novos personagens", aí voltou.
Um sucesso extraordinário...
Sucesso extraordinário. Quando a gente foi modificar isso é porque ninguém combatia ele, o Show de Rádio. "Não, esse já ganhou, não adianta fazer programa". Nenhuma outra rádio, Bandeirantes, tal, fazia programa para combater. Quando ele saiu, eu tive que combater. Precisava manter a audiência que estava perdendo. Aí entrou o "Terceiro tempo", que também não era demais, era apenas o que acontecia normal. Era só dar tempo para isso, para fazer vestiário, os jogadores...
"Terceiro tempo" agora é o nome de um programa da...
Mas aí o que aconteceu? Aí o Milton Neves, na época, foi quem começou a fazer o "Terceiro tempo". Ficou anos, dez anos, quinze anos fazendo esse programa. Aí de repente começou comentário de que ele ia sair da rádio. Então, quando foi chegando o fim do ano, eu pensei: "Tenho que trocar o nome". Por quê? Porque ele sai de uma hora para outra e eu sou obrigado a parar com o nome de uma hora para outra, de estalo. Então quando entrar o novo ano, vamos inventar um novo. Qual seria? O "Fim de jogo", a gente registrou. Porque ele, durante um tempo, registrou o nome para ele.
Ele registrou o nome para ele?
É. Na época, ele falou "Eu registrei para mim". Eu falei: "Ah tudo bem, não vamos discutir, não adianta...". Mas com o tempo, o nome foi ficando muito dele, e ele começou a dar para cerveja, dar para um bar, dar para não sei quem, meio avacalhando o nome. E com a possibilidade de ele sair. Então, inventamos o "Fim de jogo" para começar o ano. O cara fala: "Ah, que bobagem mudar o nome!". Bobagem não. Fui obrigado a mudar o nome.
O senhor tem meio século de jornalismo, e etcetera, né?
Comecei em 1949.
Pelo menos por categorias, eu sei que é difícil porque é muita gente, eu vi na parede agora pouco a enorme quantidade de artistas estrangeiros que dirigiu na tevê Record...
No final do livro, tem os caras que trabalharam aqui e saíram, os que estão trabalhando, e todos os artistas. 247 artistas.
Do Brasil e do mundo todo.
É.
Do ponto de vista profissional, estamos falando de jornalismo, e rádio-jornalismo, pelo menos um ou dois, qual o maior locutor esportivo?
Para mim, Pedro Luis.
Pedro Luis, que trabalhava em dupla com Mário Moraes?
É. O Mario Moraes fui eu quem coloquei como comentarista, porque ele era o locutor que ficava atrás do gol.
Pedro Luis. E repórter, qual?
Acredito que o Wanderley Nogueira seja um dos melhores de todos esses tempos.
Qual a maior decepção nesses 50 anos?
Milton Neves.
Por quê?
Trabalhou 33 anos e entrou na Justiça. Até hoje tem um processo na Justiça.
Por que motivo?
Pelo motivo que ele achou... Ele tem uma coisa curiosa, que depois eu soube. Desde o dia em que ele entrou na rádio, começou a guardar papeis da rádio. Eu acho que quem entra fresco na rádio, não pode ter idéia de que um dia vai entrar contra essa vaga. E ele tinha papeis. Teve uma vez, inclusive que eu brinquei, foi em um tribunal lá e ele mostrou o papel, junto com os documentos dele. Um dia ele falou que o Corinthians ia ganhar o jogo. Ele, internamente, era chamado de "Deus"; O Cara maior, o Cara que falava, o Cara isso, e não podia ser contrariado. Então era Deus. De brincadeira. O nome que a turma chamava ele. Ele falou que o Corinthians ia ganhar, um jogo fácil, o Corinthians perdeu. Aí eu escrevi à mão em um papel dizendo: "Nessa, até Deus errou". Em uma folha, e o papel em que eu escrevi estava no meio dos documentos dele(na justiça). Tirou, fez Xerox, pegou o papel de novo. A decepção foi essa. Uma decepção pessoal foi essa.
E admiração? Muita gente, certamente.
Muita gente.
Claro, os nomes que o senhor lista no final do livro, muita gente que marcou nesses 50 anos, além, é claro, da senhora Margot, sua mulher, a quem o senhor atribui grande parte de seu sucesso.
É porque a mulher é que agüenta o pepino. O pai vai embora, e ... e durante 15 anos, nunca passei uma virada de ano com ela. Porque antes eu virava com a rádio, que tinha a São Silvestre, e quando começou a ter televisão, comecei a virar com a televisão, fazendo naquela hora, chegava em casa duas da manhã. Além de tudo, que já é merecedora, mais isso ainda. Além de que isso aqui, de que "Não se faz nada sozinho" é uma prova dela, que carregou a gente por trás para ter o sucesso.
E alguém que marcou? Não sei se admiração, alguém que marcou nesses 50 anos?
Olha, é difícil... Por exemplo, meu pai é admirável... bela vantagem admirar o pai. Mas é que eu segui ele muito, eu era o menorzinho. Segui ele no futebol, fui para o Rio de Janeiro, as seleções. Porque na seleção paulista, várias vezes ,ele bateu os cariocas lá no Rio. Vivia muito isso. Teve época da seleção estar apavorada, com problema porque encontraram uma galinha na encruzilhada com uma pinga, e os caras ficavam apavorados, e ele mandava imprimir uns papeis: "Carioca não é de nada, vamos ganhar deles. Carioca é louco, galinha é para comer". Sei lá. Milhares de papeis, enchia aquilo lá para mexer com a moral dos jogadores. Ele tinha esse feeling fantástico de jogador, de futebol.
Tem a história da camisa azul na final da Copa de 58...
É. Com a camisa azul. De repente você vai lá, sorteia, você perdeu...
...e vai jogar a final contra a Suécia com a camisa azul e eles com a amarela, não o Brasil...
Vai trocar a camisa? O cara é cismado. Às vezes usa a mesma um mês. Ele olhou e falou: "Além do mais azul é a cor do manto de Nossa Senhora", que ele era fanático. Além disso o Uruguai campeão do mundo era azul, a Itália campeã do mundo era azul, então... Azul era uma cor que já estava acompanhando os campeões. Ele usou isso. Lembro, antes de começar a Copa, nenhum jogador abria nenhuma correspondência. Ele que abria a correspondência porque vai que até em uma felicidade vai nascer um filho teu, mas vai te trazer preocupação...
Então o senhor diria que o Dunga está certo nessa tentativa de controle?
Acho que sim. Acho que o erro do Dunga, ou o que a gente acha, é uma opinião da gente, eu acho que o Dunga não serve, mas nesse sentido, se ele tem capacidade. Atualmente, ele tira um jogador de uma posição e põe outro na mesma posição. Não muda o esquema de jogo. Dizem que quem treina a seleção é o Jorginho. Não sei se é verdade ou não, essas coisas contra... Agora, ele pode ter dado à seleção uma vontade, uma força...importante.
Aliás, os números dizem que sim.
Então a gente não tem muito o que falar. Eu achava que o Dunga ia cair. Vai pegar um jogo com a Argentina, um jogo difícil, ele vai acabar saindo fora. Ele está demonstrando o contrário. Quem sabe, entrando assim na Copa, até ganha a Copa. Para a gente, uma surpresa, quando vários bons técnicos já perderam a copa.
Bem, a Pan já está na Copa. O Levi, um jovem que eu conheci lá, na África do Sul, já está lá. Nas suas transformações, o senhor também já faz rádio com imagem...
Isso aí é o seguinte. A gente já está fazendo online, no site, fazendo. A gente começou a por um site no ar. Ai tem que botar as pessoas que vão trabalhar no site. Pus um uniforme, um casaco e um JP.( De Jovem Pan) O JP não está no bolso aqui em cima, está na lapela. É esquisito, mas foi colocado na lapela. O terno dos caras não é igual, por necessidade, porque não havia dinheiro para fazer 80 ternos. Por que por o terno? Porque, acho que o cara uniformizado forma o time, forma equipe. Isso foi uma verdade. Porque durante esse tempo, vem médicos, pessoas que vem dar entrevista e perguntam se eu quero que ponha terno. "Não, o senhor é convidado, não tem nada que por o terno". Mas deu um sentido de equipe. Depois de um ano e meio, a gente já tirou isso. O cara já pode por o terno dele, pode por uma camisa.
A operação está indo bem?
A operação é muito mais difícil que a televisão. Porque o que a gente pretende na televisão e no rádio é audiência. Lá (internet), se tem muita audiência, cai o sinal.
Porque não tem ainda a capacidade de suportar todo acesso?
Então, você diz que quer pegar tantas mil pessoas. Vai sair por tanto, não dá. Vamos entrar no normalzinho. Aí chegou a idéia de fazer jornal. Porque os caras faziam individualmente. Precisamos juntar todo mundo. Como vai criar esse jornal? Que imagem vai aparecer? A única imagem que vai sair fora de tudo é close. Vou colocar esses caras todos em close. Só o rosto do bicho na tela. Todo mundo me esculhambou,. Falei: "Vamos ver. Vamos deixar banalizar um pouco que o povo fica meio assim e depois vai acabar aceitando." Mas aí começou: "O cara é barbudo". A questão é que o público tem que saber que o repórter vai trabalhar. Entrou na rádio sete horas da manhã, à tarde ele está barbudo. Queira ou não queira. Não vou parar esse cara para fazer barba, como é na Globo. A Globo faz isso. Aqui são repórteres que estão fazendo. Essa imagem vai passando, todo mundo praticamente já aceitou. Não me interessa o cara estar bonitão, interessa o que ele fala. De fundo, era parado, estático. Falei: tenho que mexer esse fundo, porque dá mais vida na transmissão, sem você perceber. Comecei a mandar filmar internamente e fora. Hoje em dia se está chovendo, todas as cenas de fundo são de chuva. Então você sabe que está chovendo e você vendo chuva no vídeo com o cara aqui mesmo, dá uma impressão bastante boa. Não existe questão quanto à audiência. Não sabe direito. Eu que faço o jornal.
Online?
Online. Tem ao meio-dia e seis horas. Escolho no início pela importância da reportagem e no final, ponho entretenimento, cinema e tal e coisa. E vou levando, mas não tenho certeza de que isso é bom. Outra coisa que eles falam é que o tempo tem que ser curto. Estou fazendo 45 minutos, que acho que não tem nada de curto. Mas sou contra a pessoa vir com uma opinião como certa. Todo mundo faz um minuto, um minuto e meio.
Até porque no livro dos americanos dizia, 50 anos atrás, que televisão tinha que fazer de um jeito e o senhor fez de outro jeito.
Todo mundo faz um minuto e meio. Mas quem diz que estão certos?
Que nem a história de que o texto "tem que ter" 11, X centímetros...
Se tem uma entrevista boa, por que o cara não vai ver? Porque ele vai ver só um minuto e meio mesmo se for o Pelé ou seja lá quem for?
Aonde está escrito, né? Mas tem gente que não vale nem 15 segundos...
Não. E tem cara que não gosta. Vai desligar? Ótimo. Tudo bem. Não estamos atrás disso. Estamos atrás da pessoa que gosta de jornalismo. Estamos tendo uma resposta bastante boa, mas ter certeza do que é e do que não é, eu não tenho. E outra coisa: todos querem participar. Tem hora que tem 20 no estúdio. Se você leva um minuto e meio cada um, é vinte, trinta minutos, não tem como. A outra coisa que a gente faz é colocar a rádio. Porque o texto, eu não tenho os políticos, não tenho como filmar, vídeo...
Qual é a sua opinião sobre o jornalismo brasileiro?
Falando de rádio...acho que tem gente que não ta fazendo o que poderia fazer...
Por exemplo?
Quiseram me botar num curralzinho, sem poder entrar no campo, entrei na justiça e o Wanderlei vai lá no meio campo trabalhar. A Bandeirantes já não vai, gente que já não manda equipe completa pra cobrir os jogos, a Bandeirantes não manda, a Jovem Pan manda...
É porque tem lá um acordo com a Globo, jogam juntas...
E daí? O acordo é na televisão, rádio é rádio, é outra coisa. Chega pra eles e diz: "Olha, televisão é uma coisa, rádio e outra, vou fazer o meu negócio". Tem gente muito acomodada no jornalismo brasileiro, aceitam tudo que mandam. Eu não aceito, faço o que acho que devemos fazer, e se for preciso brigo por isso.
Depois de 50 anos valeu, vale a pena?
Valeu, vale, e vai continuar valendo...
Obrigado pela entrevista. E parabéns por essa história de 50 anos.
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