Terra Magazine

› Terra Magazine › Colunistas › André Setaro

Terça, 22 de setembro de 2009, 08h02

Entre umas e outras

André Setaro
De Salvador (BA)

1) Acabo de rever, deslumbrado, "Meu tio da América" ("Mon oncle d'Amerique", 1980), de Alain Resnais, que analisa o comportamento de três personagens segundo as teorias de Henri Laborit. É cinema puro e em estado de graça. Não tenho a menor dúvida: Resnais, neste caos contemporâneo, é o maior realizador cinematográfico vivo. Há poucos anos, ainda foi capaz de uma atualidade impressionante com o seu luminar "Medos privados em lugares públicos" ("Coeurs"), que, por incrível que pareça, ainda se encontra em cartaz num cinema paulista há inacreditáveis dois anos e sempre com sala cheia. Já perto de 90 anos, apresentou um novo filme no último Festival de Cannes.

2) Resnais levou os livros de Henri Laborit para Jean Gruault, que, a partir deles, escreveu o roteiro. O próprio Laborit aparece no filme a explicar a sua teoria. Nos filmes de Resnais, a montagem é fundamental e extremamente funcional na produção de sentidos. Em "Mon oncle d'Amerique", por exemplo, há montagens que alternam planos dos personagens em ação com planos de filmes antigos com Jean Marais e Jean Gabin. O que mais encanta em Resnais é a sua originalíssima "mise-en-scène", seu profundo sentido da necessidade de expressar a idéia pela linguagem, pelo elo sintático. O que falta sobremaneira a Steven Soderbergh em "Che" (1 e 2). A estrutura narrativa, "saltada", não permite a envolvência, e os espectadores acompanham a bela história da Revolução Cuba e de Che sem a cumplicidade necessária ao espetáculo. Não se quer dizer que se pretenda uma simpatia com o personagem, mas ao espetáculo, solicita-se, apenas, de Soderbergh, uma "emoção sintática" como a que nos proporciona, sempre, o autor de "Hiroshima, mon amour", obra-prima inconteste da história do cinema. Resnais deste seu primeiro longa, em 1959, reinventa, com "Hiroshima, mon amour", o próprio cinema.

3) A "emoção sintática" que se alcança pela percepção da articulação brilhante da linguagem cinematográfica, do sentimento da "mise-en-scène", dá-nos, de sobra, o grande cineasta francês. Há, no cinema, assim como na literatura, e em outras artes, os dois elos, o sintático e o semântico. A maioria das pessoas que vai ao cinema somente se interessa pela história, pela intriga, pelos "fuxicos" da trama. A teledramaturgia, por exemplo, é toda concentrada no elo semântico, salvo raras e honrosas exceções, embora, a rigor, nunca deixe de existir o elo sintático. Alguns estudiosos dizem que no cinema há a narrativa (a maneira de articular a linguagem) e a fábula (que seria a história, o desenvolvimento da dita história). Em filmes de maior densidade poética, a narrativa se impõe e, por vezes, fica acima da fábula ou os dois elos podem até se contradizer, como é o caso da sequência de "Laranja mecânica", de Stanley Kubrick, que estou a lembrar agora, quando o bando de Alex invade a casa do escritor e o espanca com requintes de brutalidade enquanto sua mulher é estuprada. Na trilha sonora, ouve-se Gene Kelly "cantando na chuva."

4.) O inferno está cheio de boas intenções. "Salvador (Puig Antich)", 2006, de Manuel Huerga, tem o propósito de fazer um relato da vida do líder anarquista basco Salvador Puig Antich, mas Huerga apela para uma narrativa visual publicitária e sua "mise-en-scène" é terrivelmente destituída de interesse. O resultado é simplesmente decepcionante e há até a vontade de se apertar o botão "stop" do controle remoto do dvd. Daniel Brühl, que se notabilizou depois que trabalhou em "Adeus Lênin", filme alemão de muito sucesso, nasceu em Barcelona, apesar de filho de pai germânico e de ter sido criado na Alemanha. Ele faz o papel-título. Outro filme que é uma grande decepção, e mal se aguenta a vê-lo é "Gomorra", obra bastante premiada em festivais internacionais assinada pelo italiano Matteo Garrone. Dois filmes de caráter político, "Salvador" e "Gomorra", mas ambos decepcionais. O primeiro tem uma montagem de cortes rápidos, rápidos demais, e o segundo se caracteriza pelo oposto, pelas tomadas demoradas e extremamente cansativas. "Gomorra" chegou, inclusive, a ser nominado para o Globo de Ouro. Quão diferentes são dos filmes de Alain Resnais! Espera-se do cinema vida inteligente atrás das câmeras e isso não se encontra nos filmes citados de Matteo Garrone (saudades de Elio Petri, Carlo Lizzani, Damiano Damiani, Florestano Vancini, estes, sim, sabiam fazer um cinema político de alta classe e envolvência). Costa-Gavras, quando esteve, há quatro anos em Salvador, disse em alto e bom som que o cinema, antes de tudo, é um espetáculo e é preciso que o espectador se sinta envolvido para "entrar" na trama.

5.) Vários cinemas estão agora a exibir filmes em versão digital. Tudo bem se não fosse pela deturpação que tem se verificado no formato original do filme. Se em cinemascope, a cópia digital corta as laterais, como é feito criminosamente pelas emissoras de televisão. Tenho muito cuidado quando decido ir ao cinema na atualidade em verificar se a cópia é em digital. Não vejo mais, por enquanto, até que se restabeleça o respeito ao formato original, filmes projetados digitalmente. Não se admite, por exemplo, tanta publicidade em canais por assinatura. Todos os canais que passam filmes também desrespeitam os seus formatos originais, exceção se faça ao Telecine Cult, que exibe apenas alguns filme no original. O resto é tudo "full screen" (tela cheia). Pelo menos os telecines ainda exibem os filmes sem intervalos, porque a Fox, Warner, AXN, Universal, entre outros, fazem três, quatro, intervalos durante a exibição dos filmes. Atualmente tudo gira somente em função do lucro indecente. E o problema se estende também a algumas cópias em dvd. É verdade que as empresas americanas respeitam o formato original, mas as brasileiras que importam filmes não ligam para isso. A Europa, que tem como donos pessoas ligadas ao cinema brasileiro, é campeã na deturpação das obras cinematográfica. Estragou por completo "Menina de ouro", de Clint Eastwood, que, em cinemascope, está distribuído em dvd em abominável tela cheia. Quem não viu este filme de Eastwood nos cinemas não deve vê-lo na cópia espúria e desrespeitosa posta em circulação pela distribuidora Europa.


André Setaro é crítico de cinema e professor de comunicação da Universidade Federal da Bahia (Ufba).

Fale com André Setaro: andre.setaro@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

Terra Magazine

 
Divulgação
"Che, a guerrilha" não cria cumplicidade com espectador, avalia crítico André Setaro

Exibir mapa ampliado

Tags

O que André Setaro vê na Web

Favoritos

Busque outras notícias no Terra

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol

Argentina Chile Colômbia Equador Estados Unidos México Peru Venezuela