José Pedro Goulart
De Porto Alegre (RS)
Nas palavras de minha mãe, meu pai era um bon vivant. Demorei para entender o que isso queria dizer. Quando caiu a ficha já era tarde: nunca me vi com capacidade de aproveitar a vida do mesmo jeito que ele, um gozador. Aliás, defino meu pai e minha mãe da seguinte forma: ambos roncavam, mas só o meu pai não se importava com isso.
O bon vivant é carismático, simpático, tem sempre um monte de gente na volta . Outra característica de um bon vivant é pedir grana emprestada sem cerimônia; e freqüentemente esquecer o compromisso. Mesmo assim, sempre tem alguém disposto a lhe alcançar algum novamente.
Eu, que infelizmente faço parte do grupo que reclama de ronco, tenho a impressão que passei toda a vida emprestando dinheiro ao meu pai. De maneira que não foi surpresa o sonho que tive depois que ele morreu. Nesse sonho eu recebi uma ligação telefônica dele do "outro" lado. E a ligação - juro, não estou inventando - era à cobrar.
Tudo se resume a pais e filhos. Ou não? Agora mesmo o Nelson pai resolveu incendiar o circo da velocidade: pôs na roda a história de que o Nelson filho bateu de propósito com o propósito de ajudar o Alonso a ganhar. Trapaça planejada pelo capo dei capi, Briatore.
Há, além da enorme falcatrua, uma outra questão: o fracasso. Schumacher, Senna, Prost, jamais ganhariam atestado de nobreza, mas foram supercampeões. Ogol de mão do Maradona foi legalizado pela história. E por quê? Porque ele fez um outro em que driblou o time inteiro da Inglaterra e ainda levantou a taça. O busílis é que o Nelsinho Piquet só perdeu na Fórmula 1, de modo que o fracasso o condena duplamente. Aos perdedores, as batatas.
Tudo isso foi demais para o Nelsão, o pai; um freqüentador de pódio, sujeito reconhecido pela audácia, nas pistas e na relação com os donos da bola. Não deu para engolir um Piquet perdedor e ainda escorraçado como um cachorro sarnento. A reação veio na forma de denúncia: o pai serviu o prato gelado da vingança, mesmo que sobre ele estivesse a cabeça do próprio filho.
A vida já é suficientemente difícil sem uma figura paterna que faça sombra . Ok que o Nelsinho tenha tido vantagens na carreira por conta do sobrenome, mas quanto da estapafúrdia decisão de bater no muro foi tomada no afã de conseguir algo que fizesse jus à expectativa do pai?
Muitos tem o Nelson Piquet nesse episódio como "o justo", o cara que com sua denúncia mandou o Briatore para o inferno. Mas para mim ele é um pai que, por vaidade, mostrou ao mundo o quanto o filho é bunda mole. Nem todos tem a sorte de ter um bon vivant na cabeceira da mesa.
(Twitter: @ZPgoulart)
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