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Quinta, 24 de setembro de 2009, 08h19 Atualizada às 08h45

Uma coluna bofética

Paulo Costa Lima
De Salvador (BA)


Para nós músicos, linguagem é música...

tem sonoridade e mil intenções performáticas:

tem entonação, acento, articulação, crescendo e decrescendo, tem glissando (fala aí sessenta, leitor paulista) -

há nesse 'sessenta' uma verdadeira flauta de êmbolo que apita até um patamar agudíssimo e depois desce para finalizar o show - tão 'cute'.

a única coisa que atrapalha é essa carga pesada de significações meio que embutidas nos sons, e que os dicionários insistem em registrar com afinco -

em música estamos mais acostumados com uma maior soltura do material, afinal o que significa um dó? que vem depois de um lá e antes de um sib?

manipulando o som produzimos o sentido, e também o sem sentido, as vezes bem mais interessante

obviamente sonhamos com a possibilidade de amassar o material da linguagem como se fosse uma espécie de barro em nossa escultura sonora -

ou mesmo um bolo de comida como se fazia antigamente ao comer feijão com fato

há palavras bem boféticas, que já são verdadeiros happenings sonoros - e suas significações quase que vão a reboque da música que veiculam...

essas palavras vão saracoteando por aí sem pedir permissão a ninguém, entram no ouvido e pronto

nós músicos gostaríamos que a linguagem fosse só música, e que o sentido viesse do próprio som, do próprio material sonoro das palavras... e nada mais

e sobre o que não se pudesse falar, se pudesse cantar...

e tal como passarinhos em carritilha desenvolveríamos assim o raciocínio sonoro:

Oh Tica ! Cadê o bofe? Fica no bote e bate o café sua bofética!

trata-se de linguagem motívica, linguagem serial, e não prejudica o meio ambiente...

você joga o Tarô e o que aparece: o bofe da ética

não confundir com a ética do boff, que muito respeito

e pra quem não sabe, o bofe do boi é o pulmão - o pulmão da ética!

ou, se quiserem: a fé na botica - e no boteco

a ética é coisa séria; e a humanidade a está esquecendo - há tanta gente idiota no mundo...

a humanidade deve escrever essa palavra em todas as portas e janelas, como nos cem anos de solidão-

o mesmo não pode ser dito da 'fé no boteco', que vem ganhando terreno em todos os horários... seja ele qual for

e entre esses dois pólos, todo o nosso destino

mas há outras opções: fé boa notícia, oh fé cabotina, o ebó fica!

(para os não iniciados, ebó é o nome da oferenda ritual aos orixás, geralmente colocada no encontro de duas estradas...)

e a partir daí é só curtição... deslizando na língua como fazem os psicóticos, os bebês, psicanalistas lacanianos e namorados: oamorélindo, nãoqueroparar deulheamolésita, otatusubiunopau,

há gente idiota no mundo
agente idiota, no mundo
a gente! idiota! no mundo
há há! gente idiota no mundo
a gente, idiota-no-mundo
agüente: idiota-nu-mundo

entrei por uma botica e saí pela outra
oh edite nêga! tá nua no mundo, tá?


Paulo Costa Lima é compositor. Pesquisador pelo CNPq. Professor de composição da Universidade Federal da Bahia.
www.myspace.com/paulocostalima - http://www.paulolima.ufba.br/

Fale com Paulo Costa Lima: paulocostalima@terra.com.br

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