
Atualizada às 08h45 Paulo Costa Lima
De Salvador (BA)

Para nós músicos, linguagem é música...
tem sonoridade e mil intenções performáticas:
tem entonação, acento, articulação, crescendo e decrescendo, tem glissando (fala aí sessenta, leitor paulista) -
há nesse 'sessenta' uma verdadeira flauta de êmbolo que apita até um patamar agudíssimo e depois desce para finalizar o show - tão 'cute'.
a única coisa que atrapalha é essa carga pesada de significações meio que embutidas nos sons, e que os dicionários insistem em registrar com afinco -
em música estamos mais acostumados com uma maior soltura do material, afinal o que significa um dó? que vem depois de um lá e antes de um sib?
manipulando o som produzimos o sentido, e também o sem sentido, as vezes bem mais interessante
obviamente sonhamos com a possibilidade de amassar o material da linguagem como se fosse uma espécie de barro em nossa escultura sonora -
ou mesmo um bolo de comida como se fazia antigamente ao comer feijão com fato
há palavras bem boféticas, que já são verdadeiros happenings sonoros - e suas significações quase que vão a reboque da música que veiculam...
essas palavras vão saracoteando por aí sem pedir permissão a ninguém, entram no ouvido e pronto
nós músicos gostaríamos que a linguagem fosse só música, e que o sentido viesse do próprio som, do próprio material sonoro das palavras... e nada mais
e sobre o que não se pudesse falar, se pudesse cantar...
e tal como passarinhos em carritilha desenvolveríamos assim o raciocínio sonoro:
você joga o Tarô e o que aparece: o bofe da ética
não confundir com a ética do boff, que muito respeito
e pra quem não sabe, o bofe do boi é o pulmão - o pulmão da ética!
ou, se quiserem: a fé na botica - e no boteco
a ética é coisa séria; e a humanidade a está esquecendo - há tanta gente idiota no mundo...
a humanidade deve escrever essa palavra em todas as portas e janelas, como nos cem anos de solidão-
o mesmo não pode ser dito da 'fé no boteco', que vem ganhando terreno em todos os horários... seja ele qual for
e entre esses dois pólos, todo o nosso destino
mas há outras opções: fé boa notícia, oh fé cabotina, o ebó fica!
(para os não iniciados, ebó é o nome da oferenda ritual aos orixás, geralmente colocada no encontro de duas estradas...)
e a partir daí é só curtição... deslizando na língua como fazem os psicóticos, os bebês, psicanalistas lacanianos e namorados: oamorélindo, nãoqueroparar deulheamolésita, otatusubiunopau,
entrei por uma botica e saí pela outra
oh edite nêga! tá nua no mundo, tá?
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