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Quinta, 24 de setembro de 2009, 08h19 Atualizada às 09h06

Uma estrutura

Sírio Possenti
De Campinas (SP)

Passei a semana anotando "curiosidades" para esta e, eventualmente, para futuras colunas. É impressionante como se encontram fatos que mostram que a língua viva não é igual à da escola, à das gramáticas, mas, principalmente, não é igual à dos manuais que dão a seus leitores dicas para não errar mais. Esta parece mais um cadáver do que um "organismo", embora esta metáfora seja às vezes invocada.

Ao lado das formas que produzem (volto a elas, leitor), eventualmente os articulistas ou locutores decidem opinar sobre determinada estrutura, um nome ou uma sigla. O comentário revela, em geral, uma espécie de doutrina sobre como uma língua é ou deveria ser (mais clara, sem ambiguidades etc).

Por exemplo: Joelmir Betting, âncora de um jornal da TV, comentava números da economia, entre os quais o IPCA, sigla que ele traduziu vagarosamente: Índice de Preços ao Consumidor Ampliado. E acrescentou, irônico, "ampliado é o índice, não o consumidor". E emendou que a sigla poderia ser mudada para IAPC. Dava esta sugestão aos economistas do governo.

Às vezes, os professores ou as autoridades educacionais têm dúvidas sobre ensinar gramática ou não, e, se sim, de que maneira. Minhas sugestões, nos últimos tempos, têm sido no sentido de "aproveitar" fatos vivos. Por exemplo, há cerca de dois anos tornou-se quase popular a palavra "descatracalização", porque apareceu num vestibular da USP. Teria sido uma boa ocasião para mostrar (discutir) numa aula - para alunos de qualquer idade - como as palavras se formam. Ao vivo! Não para dizer que é uma palavra bacana ou horrível (isso é um problema de gosto), mas para mostrar sua estrutura. O mesmo se pode fazer com os ditos estrangeirismos e neologismos, também eles exigindo que se separem as questões "políticas" das estruturais. Pois bem: o caso do IPCA é um bom caso, dá uma boa aula.

"Indice de Preços ao Consumidor Ampliado" é uma estrutura que deve ser considerada assim (simplifico um pouco):

((Indice de Preços ao Consumidor) Ampliado), em que ampliado se "aplica" ao sintagma que o antecede como um todo; mas, como seu núcleo é "índice", "ampliado" se aplica principalmente a esta palavra. Um teste? Suponhamos que o C da sigla significasse "consumidores", no plural: "ampliado" continuaria no singular, porque se aplica a "índice".

Portanto, não se lê assim:

(Indice de Preços ao (Consumidor (Ampliado))), que seria a estrutura, se "ampliado" se aplicasse a "consumidor".

A mudança sugerida pelo jornalista produziria uma estrutura sem possibilidade de equívoco. A porção que interessa destacar teria a forma que abaixo está em negrito, que deixa mais claro que "ampliado" se aplica só à palavra "índice".

(Indice (Ampliado)) de Preços ao Consumidor

Disse acima que uma aula sobre a formação de palavras como "descatracalização" pode funcionar para alunos de qualquer idade. Pois uma aula sobre IPCA ou IAPC também. Mas é claro que a melhor época para esse aula é quando os alunos estiverem estudando expressões com parênteses e colchetes em matemática. Lá eles aprendem que, por exemplo, uma coisa é (2 x 2) + 4 e outra é 2 x (2+4).

A análise da estrutura de IPCA é da mesma natureza: mostra a hierarquia entre os elementos do sintagma, assim como a expressão matemática a mostra entre os números. E o resultado é diferente.

Uma aula assim não deveria ter como objetivo "ensinar o que é certo". Teria dois outros: mostrar as entranhas da língua, como ela se organiza, como é mesmo sua sintaxe! E mostrar que, uma sequência organizada assim ou assado produz efeitos, sentidos, que não são os mesmos.

Depois, com o tempo, o aluno escolhe as estruturas que prefere. Para ser humorista, por exemplo, ele deve preferir as formas que têm duplo sentido, um deles mais ou menos inesperado.

A sugestão de Joelmir indica que ele preferiria (mas não se pode ter certeza de que estivesse falando sério...) uma sigla que não permitisse nem de longe uma leitura ambígua.

Mas, se fosse assim, ele teria perdido um interessante comentário...


Sírio Possenti é professor associado do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua, Os limites do discurso e Questões para analistas de discurso.

Fale com Sírio Possenti: siriopossenti@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

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