
Deolinda Vilhena
De Santos (SP)
O fato de eu ter quase meio século de vida faz com que eu seja de um tempo em que se dizia que "roupa suja se lava em casa". Entretanto, essa máxima não foi suficiente para que eu não sucumbisse aos encantos de Sophie Calle e o sucesso de sua exposição Cuide de você.
Sim, confesso que sou facilmente influenciada por artistas que desafiam as fronteiras entre arte e vida, e Sophie Calle vem se especializando nisso. Por isso uso o espaço de hoje, relembrando meus tempos de coluna social - fui assistente de Hildegard Angel, Nina Chavs e Reinaldo Loyo - para dar a César o que é de César: aplaudo entusiasticamente a Bahia, que deu um quinau no resto do país - exceto São Paulo que é quase outro país - ao levar para o Museu de Arte Moderna a exposição Prenez soin de vous, de uma das figuras mais instigantes da cena artística internacional, a francesa Sophie Calle.
Luxo dos luxos: o vernissage em Salvador contou a presença da artista que passou uma semana nas terras do Senhor do Bonfim. Parabéns Jaques Wagner, parabéns Márcio Meirelles, parabéns Monique Badaró, parabéns Solange Farkas e parabéns Irène Kirsch pelo trabalho realizado nos bastidores.

Irène Kirsch, Cristina Castro, Yves Lo-Pinto, Sophie Calle, Márcio Meirelles e Pierre Sabaté
Foto: Uran Rodrigues
O sucesso da abertura da mostra na noite da última terça no Solar do Unhão - construção de extrema importância histórica e arquitetônica, original do século 17 - mostra que sob a direção de Solange Farkas o MAM-BA parece retomar seu projeto original, concebido pela arquiteta Lina Bo Bardi no início dos anos 1960, de museu como espaço democrático, de convivência e participação, com atividades multidisciplinares que rompem as barreiras entre o erudito e o popular.
Por outro lado, a França reconhecendo a importância da artista e da empreitada, se fez representar por Nicole Lamarque, Secretária Adjunta Geral da agência CulturesFrance, responsável pela difusão da cultura francesa no exterior e das culturas estrangeiras na França, e braço direito do Brasil nesse ano da França nas terras do patropi e por Yves Lo-Pinto, Cônsul geral da França para o Nordeste, baseado em Recife, que se deslocou especialmente para receber a artista e agradecer ao governo baiano a impecável parceria no projeto Cuide de Você.
O governo baiano por sua vez se fez representar por Fátima Mendonça, primeira dama da Bahia e da simpatia e por Márcio Meirelles, Secretário de Cultura. Márcio dizia que "a exposição de Sophie Calle na Bahia reafirma a política da Secretaria de Cultura de abrir o estado para o intercâmbio com as artes mundiais, fomentando as residências artísticas e transformando os museus em espaços culturais dinâmicos. A exposição é importante para as nossas artes visuais, que precisam sempre estar em contato com novas questões, novos discursos, novas linguagens e outros sotaques."
E generoso, lembrava dos outros parceiros, da empreitada "somos gratos ao SESC São Paulo, ao Vídeobrasil e ao Ministério da Cultura, que, por reconhecerem o esforço da secretaria e sua política inovadora, uniram esforços para trazer Cuide de você para o MAM-BA, único lugar no Brasil a receber a mostra, além de São Paulo".
Sophie Calle usando um vestido de Iuri Sarmento, artista plástico e estilista mineiro radicado em Salvador, circulava pelos espaços do Solar do Unhão conversando com todos que se aproximavam, posava sorridente e pacientemente para fotos, com um cigarro eternamente entre os dedos, adora esta postura de apertar a tecla "delete" para o politicamente correto - no meu imaginário artista/intelectual francês que não fuma é inimaginável e não se furtou dos prazeres gastronômicos da Bahia nem de experimentar a boa cachaça e os deliciosos coquetéis das nossas deliciosas frutas...Coisas de uma mulher inteligente e bom gosto. Mais do que francesa ela é uma típica parisiense de boa cepa.

Calle, Márcio Meirelles, Cristina Castro e Fátima Mendonça: boas gargalhadas
Foto: Irène Kirsch
Aliás, a simpatia e disponibilidade de Sophie impressionaram os meus amigos baianos, uma diva sempre provoca desconfiança no quesito temperamento...Digo sempre que querer que alguém seja gênio e ainda tenha bom gênio é exigir demais de uma mesma e mortal criatura. Sophie hospedou-se no Pestana Convento do Carmo e usufruiu do ambiente mágico, apesar dos pesares, do Pelourinho, acompanhou a montagem da exposição no MAM, jantou no Paraíso Tropical a convite de Márcio Meirelles com toda a equipe envolvida na realização do evento - um dos mais importantes em artes plásticas do Ano da França no Brasil - e, em companhia de Irène Kirsch, Adida Cultural da França em Salvador e Armindo Bião, o maior contador de causos da história da Bahia, passou uma manhã na Feira de São Joaquim entre cheiros, cores e sabores tropicais e ainda teve ânimo e disposição para conversar com uma platéia curiosa que lotou o bom e velho Vila Velha por mais de duas horas.
Mas e a exposição? Para os que ainda não sabem, Cuide de você foi uma das obras mais contundentes da última Bienal de Veneza (2007), ocasião na qual o jornal inglês The Guardian apelidou Sophie Calle de "o Marcel Duchamp da roupa suja emocional". Cuide de Você foi mostrada também na França, no Canadá e em Nova York. E os convites não param, países tão distantes quanto a Dinamarca e a Coréias estão na lista de espera.
A exposição reúne textos, fotos e vídeos nos quais mais de 100 mulheres que interpretaram, a convite da artista, uma carta de rompimento amoroso recebida por ela de um ex-amante, o escritor Grégoire Bouillier. No intuito de "esgotar" as mensagens contidas no texto e em seus subtextos, Calle recrutou para a tarefa "leitoras" de especialidades e profissões diferentes, entre mulheres estranhas e amigas, anônimas e famosas.

Victoria Abril © Sophie Calle, ADAGP 2009
Entre as mulheres que aceitaram o desafio estão as atrizes Jeanne Moreau, Victoria Abril e Maria de Medeiros; a compositora Laurie Anderson; a DJ Miss Kittin; e profissionais como linguista, taróloga, juíza, antropóloga, designer, sexóloga, assistente social e clarividente, entre outras, como uma adolescente, por exemplo. Ao aplicar sua ótica pessoal ou o "filtro" de sua especialidade à carta, elas produziram um rico panorama de respostas - técnicas, acadêmicas, performáticas e emocionais - ao desafio da artista.
Uma menina de nove anos achou o texto intrigante: "ele escreve para contar a ela que quer se separar. É legal, mas complicado. Diz que a ama e quer se separar". Enquanto a visão da psiquiatra diz não ver "razão para prescrever antidepressivos, a solução apropriada não é química. Você está simplesmente triste... Estou certa de que você é forte o suficiente para mudar e achar forças para agir e reagir".
A idéia de transformar dor de corno em arte não é nova, e o resultado nem sempre é genial, mas Sophie Calle excedeu. Afinal ela conta ter tido a idéia de fazer esse trabalho apenas dois dias depois de ter recebido a mensagem. Ou seja, no auge da dor. Não é por acaso que a frase Cuide de Você serve de título à obra, "foram essas palavras que me deram o estalo para o trabalho". Foi o método que ela encontrou para cuidar de si: "reverter as coisas em minha vantagem, para não sofrer com elas". E acrescenta, "recebi um email terminando um relacionamento. Não sabia o que responder. Ele terminava com a frase Cuide de Você. Foi o que fiz".
O que mais me apaixona na trajetória de Sophie Calle é que "sua busca artística é, na essência, uma busca humana", como bem disse Solange Farkas, o que torna a sua obra, que é exemplo da mais instigante produção contemporânea, acessível a grandes públicos.
Sophie Calle diz acreditar ser "mais fácil realizar um projeto quando sofremos do que quando estamos felizes" e vai além, ao afirmar que não sabe o que prefere "estar feliz com um homem ou fazer uma boa exposição."
Confesso que depois de ver Cuide de você, e mesmo sem querer desejar a infelicidade alheia, estou torcendo para que Sophie Calle opte sempre pela segunda opção.
Baianos corram, tudo bem que vocês não são adeptos do esporte, mas acreditem vale a pena correr até o MAM da Bahia para ver Cuide de você às margens da Baía de Todos os Santos e vocês só tem até o dia 22 de novembro. É para ontem...

Lenda viva do cinema francês
Foto: Divulgação
Jeanne Moreau está no Brasil. Ela cumpre a promessa que me fez ano passado no Théâtre de la Madeleine após a apresentação de Quartett de Heiner Müller. Motivo de festa e de peregrinação para os fiéis capazes de reconhecer uma grande atriz. A dica para o sábado dos cariocas é o Encontro com Jeanne Moreau apresentada por Cacá Diegues, que a dirigiu em Joana a Francesa, 10h45 no Cinema Odeon Petrobras.
Não poderei estar no Cinema Odeon mas, como Deus é Pai, dia 6 de janeiro de 2010, Dia de Reis, vou festejar uma Rainha no Théâtre de l'Odéon em Paris: verei Jeanne Moreau na peça de Amos Gitai La Guerre des fils de lumière contre les fils des ténèbres, que une teatro-música-cinema, baseada no texto "La Guerre des Juifs" de Flavius Josèphe e que a levou ao Festival de Avignon em julho passado.
Moreau é uma atriz sem igual, dona de uma personalidade invejável. Formada pelo Conservatório de Paris, seguiu o caminho normal e estreou na Comédie-Française, destino natural da elite formada pelo Conservatório, em 1950, com a peça "Les Caves du Vatican", de André Gide. Sucesso estrondoso, capa da revista Paris Match. Mas nem o sucesso repentino, nem o prestígio da Casa de Molière foram suficientes para segurá-la e ela trocou a Comédie pelo Théatre National Populaire de Jean Vilar.
No cinema o estrelato chega em 1958, com os filmes de Louis Malle "Ascensor Para o Cadafalso" e "Os Amantes". Mas isso foi apenas o começo de uma brilhante carreira internacional ao lado dos maiores cineastas: de François Truffaut a Luís Buñuel, passando por Michelangelo Antonioni e Orson Welles, sem jamais abandonar o teatro. Vale levantar cedo e trocar a praia pela Cinelândia para ouvir Jeanne Moreau. Ela sabe de tudo e ainda tem aquela voz. Qual é o segredo da voz? Com certeza as inúmeras carteiras de cigarro que ela fumou nesses quase 82 anos de vida. Como diria a canção Le Tourbillon, do filme Jules et Jim:
"Elle avait des yeux, des yeux d'opale/Qui m'fascinaient, qui m'fascinaient,/Y avait l'ovale d'son visage pâle/De femme fatale qui m'fut fatal..."

Olhares sobre a Yayá
Foto: Divulgação
Que tal aprender um pouco da história da cidade São Paulo, in loco, e de uma forma diferente? Com uma proposta criativa e horários alternativos, a peça Olhares sobre a Yayá, montagem do grupo História do Brasil em Cena, se apresenta dias 25 e 26 de setembro, em São Paulo.
O Grupo História do Brasil em Cena, dirigido por Carlos Freitas - meu ex-aluno, da leva das cobaias da primeira turma para a qual dei aula -, formado em 2007 por pessoas interessadas em promover uma reflexão sobre a história do Brasil, a partir de espetáculos de teatro-dança, é composto por artistas das mais diversas linguagens, como bailarinos, atores, artistas cômicos, cantores e instrumentistas. O ponto em comum entre eles, além do amor pela arte, é a atuação como professores ou educadores. Todos os trabalhos são realizados em patrimônios históricos tombados e edificados e têm o próprio local como cenário. Mas não espere ficar sentado na frente de um palco, pois para saber mais sobre a vida de Sebastiana de Mello Freire, também conhecida como Dona Yayá, o público terá de se deslocar por todos os cômodos da casa em que ela viveu, onde os artistas contarão sua história.
O espetáculo teatro-dança acontece na Casa da Dona Yayá, um antigo casarão no bairro do Bixiga transformado em espaço cultural e sede do Centro de Preservação Cultural (CPC), órgão ligado à Universidade de São Paulo (USP).
Serviço Olhares sobre a Yayá
Direção Carlos Freitas
Local: Casa da Dona Yayá - Rua Major Diogo, 353 - Bela Vista - São Paulo - SP
Informações: 11 3106-3562
Capacidade: 20 pessoas
Datas espetáculo: 26 e 27 de setembro e 24 e 25 de outubro.
Horário: Sábados: 15h / Domingos: 11h
Duração: 90 minutos
Entrada franca
Fale com Deolinda Vilhena: deolindavilhena@terra.com.br
Terra Magazine
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Jean-Baptiste Mondino/Reprodução
Sophie Calle na Biblioteca Nacional da França
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» O teatro brasileiro de ontem, hoje e amanhã