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Sexta, 25 de setembro de 2009, 08h14 Atualizada às 11h53

As mulheres ficaram mais infelizes

Marcelo Carneiro da Cunha
De Berlim

Estimados milhares de leitores, e, em especial, leitoras. Durante um vôo a algum lugar que não sei ao certo qual, porque todos os vôos são iguais, ao menos para a minha cervical, li um artigo de um sujeito chamado Marcus Buckingham, ex-pesquisador do instituto Gallup, dizendo em alto e bom tom que as mulheres andam mais e mais infelizes, especialmente na comparação com os homens, que andam mais e mais felizes.

Eu tenho a nítida impressão de que já sentíamos isso todos nós, que andamos pagando o pato por conta dessa infelicidade feminina, todos nós, eu, você, o senhor aqui ao lado, todos os patos hetero em geral, que grasnam por esse mundo à fora.

E como pato curioso, fui meter o bico no assunto e descobri muitas, mas muitas mesmo, referências; entre elas o ensaio "The Paradox of Declining Female Happiness" dos pesquisadores Betsey Stevenson e Justin Wolfers, e um texto do colunista Ross Douthad, no New York Times, "Liberation and Unhappiness". Parece que estamos diante de algo novo, perturbador, e doloroso, em especial para pobres patos condenados a gostar de mulheres, por menos que elas gostem da gente.

E o mais curioso, lendo todos esses textos sobre o tema, é que nenhum deles aponta para uma causa ou uma solução. Existe a tal infelicidade, ela ataca as mulheres tanto dos Estados Unidos quanto da Europa (nenhum texto remetia para as brasileiras, mas vamos considerar que essa é uma infelicidade global, ao menos ocidental, já que ninguém consegue enxergar as muçulmanas pra saber o que elas pensam). Mas não se sabe ao certo o que a causa, e portanto, qual a cura.

Sendo um pato completamente anti-misticismos, não vou enveredar por coisas como Vênus e Marte e deusas celtas pra entender o que torna as mulheres tão esquisitas. Pato científico, prefiro apoiar meus preconceitos na opinião de quem supostamente entende do assunto, e nessas patuscadas, encontrei a opinião de alguns psicanalistas que dizem que as mulheres são mais infantis do que os homens, e por isso sentem mais dificuldade no lidar com o fato de que seus desejos não vão ser sempre atendidos pelo mundo lá fora. Hummm.

Ligando os pontinhos, fico pensando em pesquisas que mostram que os alemães da antiga Alemanha Oriental, libertados da opressão do regime comunista quando o Muro caiu, são MENOS felizes do que os alemães do lado ocidental, que não se libertaram de nada.

Será que nossas queridas patinhas, assim como os ex-comunistas, se libertaram e não gostaram do que encontraram no vasto mundo do protagonismo, para o qual voaram sem se dar conta de que liberdade é legal, mas é também uma baita fria pra quem estava acostumado a ter o seu mundo organizado por uma CVC da vida?

Será que nós homens, assim como os alemães ocidentais, já sabíamos, por estarmos no jogo há muito tempo, o que o mundo tinha pra dar, mas também pra cobrar da gente, e portanto não nos assustamos com a selva do capitalismo ou da igualdade pós-feminista?

Não sei se vocês sabem, mas esse pato que vos escreve já anda migrando pra cima e pra baixo há muitos e muitos invernos, entre eles o longo e tenebroso inverno da ditadura nada branda que arrumaram pra gente. E lembro que, durante aqueles tempos, a nossa fantasia era a de que a tristeza iria embora na hora em que o general Figueiredo fosse junto. O Chico era quem garantia, dizendo que apesar de você amanhã há de ser outro dia. Pois esse pato aqui aguentou até o outro dia e deu de cara, sabem com o que? Com o Sarney. E posso garantir, mesmo com minha memória emplumada de pato que ninguém, mesmo a dona Marly, se sentiu muito feliz naqueles tempos.

Portanto, se a ditadura não era a única causa da tristeza, o que seria? Se a liberdade sozinha não era a solução, o que seria?

Como bom pato feminista, sempre tive o livro da Betty Friedan debaixo do meu travesseiro de penas, e lembro dela dizer que "as mulheres sofrem do problema que não tem nome". Pois eu acho que o problema tem nome e ele se chama insatisfação com o que o mundo nos oferece, com a vida que temos ou criamos para nós, com o tempo que temos.

A vida, estimados leitores, é algo muito complexo para se tocar com soluções simples. E é isso o que talvez diferencie nós patos de vocês, patinhas. A gente já chamuscou as penas por milênios enfrentando o que houvesse lá fora à espera, ficamos felizes por podermos estar aqui dentro assistindo o Barcelona dar um pau no outro time, qualquer que seja. O mundo aqui dentro é quentinho, e isso já resolve boa parte dos nossos problemas. Os vôos lá fora são necessários, vamos a eles curtindo a altitude e a paisagem, mas sabendo que é só bobear e pimba, algum pássaro mais raivoso nos transforma em foie gras. Assim, curtimos a liberdade pelo que ela nos oferece, apreciamos a calmaria pelo que ela nos traz, e ficamos assim, patos mais felizes, ou menos infelizes, quase que apenas porque sim. Além disso, somos patos contentes por termos mais grana, ou por sermos menos duros, uma vez que o mundo, até no Brasil, se tornou mais próspero nos últimos 40 anos (o que, curiosamente, não faz a menor diferença na infelicidade medida das mulheres).

O mundo é objetivo, mas nossa relação com ele é bastante subjetiva. Acho que os homens tiveram tempo suficiente pra ajustar os instrumentos que nos guiam pela vida, e equilibrar expectativas com o que sabemos que podemos esperar antes do grande e definitivo vôo pra lugar algum, que nos espera, em algum momento aí adiante.

Agora, é aguentar o tranco enquanto as mulheres chegam ao mesmo ponto da história e ao mesmo estágio de evolução sobre o mundo que nos torna mais felizes com o que temos, e menos infelizes com o que sabemos que vai nos acontecer.

Existe ainda uma outra tese. A de que nós, homens, somos tão burros e insensíveis que nem ao menos nos damos conta da nossa insatisfação e infelicidade. As mulheres, seguindo essa linha de pensamento, são apenas mais conscientes. Óbvio que quem disse isso era mulher, estava bem perto de mim quanto falou, e eu seria um pato morto se discordasse. Concordei, ando concordando até hoje, enquanto olho ao redor e me preparo pra curtir mais uma fatia de pão da maravilhosa padaria Siebert, e pensando cá comigo, por que, mas por que mesmo eu deveria me sentir menos contente do que me sinto, mesmo que para tornar as mulheres menos infelizes com elas mesmo, ou comigo?


Marcelo Carneiro da Cunha é escritor e jornalista. Escreveu o argumento do curta-metragem "O Branco", premiado em Berlim e outros importantes festivais. Entre outros, publicou o livro de contos "Simples" e o romance "O Nosso Juiz", pela editora Record. Acaba de escrever o romance "Depois do Sexo", que foi publicado em junho pela Record. Dois longas-metragens estão sendo produzidos a partir de seus romances "Insônia" e "Antes que o Mundo Acabe", publicados pela editora Projeto.

Fale com Marcelo Carneiro da Cunha: marceloccunha@terra.com.br

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