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Sábado, 26 de setembro de 2009, 07h45

Resenha convidada: Volta de um clássico ao Brasil

Roberto de Sousa Causo
De São Paulo

Por Marcello Simão Branco*

Resenha de Fundação (238 páginas), Fundação e Império (244 páginas) e Segunda Fundação (235 páginas), de Isaac Asimov. Tradução de Fábio Fernandes e Marcelo Barbão. Capas de Delfin. São Paulo: Editora Aleph, 2009.

Não deixou de ser uma surpresa este lançamento da editora Aleph, os três volumes da Trilogia da Fundação, a obra mais volumosa de Isaac Asimov (1920-1992) e uma das mais populares da história da ficção científica. Isso porque esta editora tem centrado a sua publicação de livros do gênero em autores mais contemporâneos, como os cyberpunks William Gibson e Neal Stephenson e, mais recentemente, num dos mais idiossincráticos e controversos, Philip K. Dick. Neste contexto, Isaac Asimov destoa, pois ele é um dos principais autores da chamada Golden Age da ficção científica norte-americana, vivida basicamente nas páginas das pulp magazines, de meados dos anos 30 até o final dos anos 40. Uma plêiade de autores hoje considerados clássicos no modelo ainda mais conhecido do gênero - de aventuras espaciais e abordagem hard (das ciências naturais) -, surgiu neste período com, por exemplo, Robert A. Heinlein e A.E. van Vogt.

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O romance em três volumes chamado Trilogia da Fundação é, na verdade, composto de cinco noveletas e quatro novelas publicadas entre 1942 e 1949 na mais influente revista da época, a Astounding Science Fiction, editada por John W. Campbell, Jr., o maior responsável por essa nova geração de autores. Apenas nos anos 50 é que as histórias foram reunidas em três volumes: Foundation (1951), Foundation and Empire (1952) e Second Foundation (1953). A publicação em formato de livro valorizou a obra e a popularizou ainda mais, para além do círculo dos fiéis apaixonados pelo gênero.

A popularidade da obra é indiscutível, como atestam estes dois fatos: em primeiro lugar, recebeu o Prêmio Hugo Especial de 1966, como "a melhor série de todos os tempos", uma distinção única, criada à parte no mais importante prêmio do gênero. E em segundo, aqui no Brasil, no restrito ambiente do fandom, foi escolhido por duas vezes o "melhor romance de ficção científica de todos os tempos", em votações dos leitores do fanzine Megalon, em 1991 e 1998.

A história é uma grande saga de dimensões épicas que procura mostrar a expansão humana por toda a Via-Láctea. Neste universo não existem alienígenas e nós nos espalhamos por toda a galáxia, construindo um gigantesco império formado por milhares de planetas, todos controlados pelo centro político, a capital Trantor. Se você pensou no Império Romano, está correto, pois a inspiração é assumida pelo próprio autor. Mas ele foi além ao apresentar como este poderoso império - a exemplo do romano - semeia em seu próprio esplendor as contradições internas que o levam à decadência e violenta dissolução, num retorno à "barbárie".

Hari Seldon, um brilhante cientista, cria a ciência da psicohistória como um antídoto para reduzir os efeitos catastróficos da queda do império, prevista por ele para acontecer em alguns séculos. É acusado de conspirador, mas seu plano é aceito e posto em prática. São estabelecidas duas colônias de cientistas nos extremos do império - as fundações - de motivações distintas, para preservar a sabedoria e a cultura, e continuar desenvolvendo a ciência e a tecnologia mesmo em tempos de barbárie. Para Seldon não será possível impedir a queda, pois o processo já estaria adiantado, mas permitir o ressurgimento em apenas mil anos de um novo e revigorado império galáctico.

A psicohistória é uma ciência que lida com os fenômenos sociais de um ponto de vista coletivo, adotando princípios filosóficos de indução e as ferramentas da estatística. Pode soar pouco crível, mas bebe na fonte das teorias dos jogos, que começaram a ganhar ímpeto nos anos quarenta e têm servido como um suporte metodológico importante para as ciências sociais desde então, em especial para a economia.

As diversas aventuras situadas nos três volumes mostram as turbulências entre o fim do império e o surgimento de vários pequenos estados despóticos, assim como o desenvolvimento das duas fundações, que tem por objetivo restaurar a glória perdida do status quo. Contudo, aparece uma situação não planejada pelas equações da psicohistória, um poderoso mutante com poderes mentais chamado O Mulo, que ambiciona assumir o controle da galáxia.

Se é verdade que estamos diante de uma clássica história ao estilo space opera - colonização espacial, futuro de consenso, grandes períodos de tempo, ritmo de aventura e personagens pouco densos em sua maioria -, percebe-se o quão complexa é a trama e as várias nuances que surgem ao longo dos três romances. Chama a atenção que a ênfase do enredo esteja no processo histórico e nas mudanças na sociedade, ou seja, discute-se as relações humanas numa aventura de space opera, que é mais afeita também à exploração de grandes engenhos tecnológicos. Em Fundação, eles apenas fazem parte do pano de fundo, aceitos como integrantes da civilização. Deste modo, Asimov descola a ênfase das ciências naturais para as sociais, utilizando, contudo, o uso de uma nova ciência que alia História e Matemática.

Há quem veja também em Fundação os efeitos do contexto político em que a história foi criada, pois estávamos em plena Segunda Guerra Mundial. Talvez Asimov especulasse sobre o destino do modo de vida dominante na época, primeiramente desafiado pelo colapso da balança de poder entre as potências européias (na Primeira Guerra Mundial) e anos depois por um regime totalitário que a todos queria subjulgar. Assim, talvez as duas fundações fossem representações das democracias e seus valores civilizatórios em perigo.

Já para a figura de Seldon e seus colaboradores, seria possível estabelecer um paralelo com a idéia de Platão, de sábios a conduzir o destino da sociedade, em que a ciência teria as melhores soluções para os conflitos inerentes da natureza humana. Aqui poderíamos compreender as implicações da história de um ponto de vista mais autoritário.

Seja qual for a interpretação mais relevante - ou outras, a depender da interpretação de cada um -, o fato é que a Trilogia da Fundação é uma obra significativa, pois vai além do tradicional das histórias de exploração do espaço que procuravam mostrar muito da visão anglo-americana de como se constituir a melhor forma de sociedade. Em Fundação, tais alicerces são construídos para depois serem questionados, a partir de desafios políticos e surpresas do destino.

Durante os anos oitenta esta obra foi publicada pela editora Hemus, de São Paulo, em um único volume. A edição era modesta mas simpática e, melhor, econômica. O relançamento ocorre em três volumes separados, o que encarece a compra. Ainda mais porque a edição é bem produzida, com uma tradução melhor do que a anterior, ainda que as ilustrações de capa destoem do espírito da obra. Quem tem a edição da Hemus deve preservá-la, já que ela é única também com relação ao conteúdo, pois é a tradução da obra original escrita nos anos 40. Já a da Aleph contempla uma revisão realizada por Asimov em meados dos anos oitenta para padronizá-la em relação ao conjunto de suas obras de ficção científica, já que ele passou a escrever outras aventuras dentro deste universo. Seja por qual edição for, o excitamento pelo entretenimento inteligente ou por debates político-filosóficos subjacentes, garante uma leitura rica e ilustrativa da própria evolução do gênero no século 20.

* Marcello Simão Branco é um dos editores do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica

Escritor e crítico, Roberto de Sousa Causo é autor do romance A Corrida do Rinoceronte.

Fale com Roberto Causo: roberto.causo@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

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Fundação Aleph, de Isaac Asimov, compõe trilogia das mais populares da história da ficção científica

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