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Sábado, 26 de setembro de 2009, 07h45

Roberto S. Causo entrevista Nelson de Oliveira

Roberto de Sousa Causo
De São Paulo

Escritor consagrado no mainstream literário, agora voltando-se para a ficção científica, Nelson de Oliveira tem se firmado como uma das lideranças mais interessantes dentro do gênero neste começo de século 21, por sua atividade editorial, que inclui o Projeto Portal, uma revista semestral de FC e fantasia, e pela recém-lançada antologia Futuro Presente, publicada pela poderosa Editora Record, do Rio de Janeiro.

O livro traz histórias inéditas de Andréa del Fuego, Ataíde Tartari, Carlos André Mores, Charles Kiefer, Deonísio da Silva, Edla van Steen, Hilton James Kutscka, Ivan Hegenberg, Luiz Bras, Luiz Roberto Guedes, Márcio Souza, Maria Alzira Brum Lemos, Maria José Silveira, Mustafá Ali Kanso, Paulo Sandrini, Rinaldo de Fernandes e Roberto de Sousa Causo. O texto de orelha é de Fábio Fernandes.

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O que os dois projetos têm de semelhante é a proposta de combinar, misturar e talvez interpolinizar a FC e o mainstream - proposta inédita sublinhada pela visão de que a ficção científica teria muito a acrescentar ao contexto geral da literatura brasileira.

Roberto de Sousa Causo - Como surgiu o projeto da coletânea Futuro Presente?
Nelson de Oliveira -
Eu gosto de trabalhar principalmente com o que conheço mal. Foi assim no mestrado, quando decidi estudar o romance português da segunda metade do século 20. Foi assim no doutorado, quando resolvi estudar a poesia portuguesa da virada do século. Foi assim com a Geração 90. Ainda me lembro do impacto que foi ler, em meados da década de 90, Memória de Elefante e Os Cus de Judas, do Lobo Antunes. Eu não conhecia nada da prosa portuguesa recente. Apenas o Saramago. Então decidi que o eixo de minha dissertação seriam os romances do Lobo Antunes (principalmente As Naus), porque isso me obrigaria a conhecer sua obra e a de seus contemporâneos. Com as antologias da Geração 90 foi a mesma coisa. Eu precisava conhecer os autores da minha geração, os prosadores que estrearam comigo na década de 90. Com a coletânea Futuro Presente, já no século 21, foi a mesma coisa. Nessa altura do campeonato eu já estava enjoado dos autores conhecidos, dos temas conhecidos. E havia o antigo fascínio pela ficção científica, que vinha renascendo em mim. Saudade dos contos de Ray Bradbury e Isaac Asimov. Nostalgia da adolescência sossegada no interior paulista. O fato é que até bem pouco tempo eu não conhecia nada, absolutamente nada da FC literária contemporânea (conhecia bem a cinematográfica), suas inúmeras modalidades. Neuromancer foi uma grande novidade, quando li em 2005. Bem como O Jogo do Exterminador e Orador dos Mortos, que só fui conhecer em 2008. Organizar Futuro Presente me obrigou a pesquisar, me forçou a começar a me atualizar. Eu conhecia poucos autores ligados ao gênero: Márcio Souza (A Ordem do Dia), Braulio Tavares (infelizmente ele não pôde participar dessa coletânea), você. Não conhecia André Carneiro!

Como foi o processo de contatar os escritores?
Essa foi a parte mais sossegada. Quem escreve conhece dezenas de seres-que-escrevem. A primeira diretriz foi: renovar o time, escalar um novo escrete. Ou seja, convidar autores que não haviam participado das outras antologias. Também trabalhei com indicações: você indicou André Carneiro, que indicou Mustafá Ali Kanso. Deonísio da Silva indicou Carlos André Mores. Luiz Roberto Guedes indicou Hilton James Kutscka. E Rinaldo de Fernandes indicou Ataíde Tartari. Veja que todos os autores indicados pertencem à esfera da FC. Diferentemente, os escritores que eu já conhecia receberam o convite como um desafio, pois são sensibilidades de outra esfera (às vezes chamada de mainstream), dominam outros códigos.

Futuro Presente possui a mesma abordagem editorial que você emprega na série de revistas Portal, de misturar autores de ficção literária com aqueles de ficção científica propriamente. Pode nos contar qual é a filosofia por trás dessa abordagem?
Observando o panorama literário atual, eu vejo uma rede multicolorida de possibilidades e interesses diferentes. Hoje não há uma tendência hegemônica, como havia no renascimento, no barroco, no romantismo, no realismo ou no modernismo. Atualmente todas as tendências poéticas aprenderam a conviver mais ou menos pacificamente. Na Futuro Presente eu busquei privilegiar essa multiplicidade poética. Também tenho feito isso no Projeto Portal. Aliás, não sei se você sabe, esse projeto nasceu da impaciência. Eu havia acabado de entregar os contos da Futuro Presente ao editor. Data: final de 2007. Como a fila era grande (a fila sempre é grande), o lançamento do livro foi programado para o final de 2009. Dois anos é muuuiiito tempo, pensei. Eu estava bastante ansioso. Meu alter ego, Luiz Bras, também. Quem escreve quer ser lido. Foi aí que me ocorreu fazer algo menor, menos ambicioso, somente pra me manter ocupado até o lançamento da coletânea. Uma revista de pequena tiragem, de fácil produção e distribuição, pensei. Um veículo para os contos do Luiz Bras e de quem mais simpatizasse com um projeto sem finalidade comercial. Repito: sem finalidade comercial. Propus a idéia aos amigos e muitos aderiram. Dividimos o custo editorial. Graças ao empenho de todos os envolvidos, está sendo um pequeno grande sucesso. Música de câmara, diferente da sinfonia da Record.

Futuro Presente acaba de ser lançada. Como você vê o resultado impresso, dentro dessa filosofia?
Diferente do Projeto Portal, a coletânea da Record ambiciona o sucesso comercial. Ela precisa fazer bonito não só entre os leitores especializados, mas também nas livrarias. O grande público precisa ler. Só assim haverá a possibilidade da continuidade. As grandes editoras nacionais não estão interessadas na ficção científica tupiniquim. Porque não vende nem dá ibope. O preconceito existe, não dá pra negar. O instrumento de erradicação desse preconceito somos nós. Eu, você e tantos outros. Nós somos parte da transformação que queremos promover. Dando certo a Futuro Presente, ano que vem outra coletânea virá. Outras grandes editoras começarão a publicar a FC nacional. Isso acelerará o saudável intercâmbio entre as esferas literárias, promovendo, quem sabe, a renovação. Eu vejo o comprometimento dos autores do mainstream (escrevendo também FC) como parte importante desse processo. Por isso convidei vários deles para a Futuro Presente e para o Projeto Portal. A prosa brasileira oficial contemporânea precisa despertar para o mundo atual. As provocações da nova matemática, da nova física, da nova psicologia, da nova astronomia, da nova medicina, da nova biologia e da nova informática precisam entrar em nossa prosa de ficção. Não dá pra ficar eternamente nessa prosa sociológica, centrada apenas nas dores e nas epifanias do sertanejo, do favelado, do traficante, do adolescente perturbado ou da dona de casa entediada.

Ficou muito interessante a capa da coletânea. Como ela foi produzida?
A princípio eu pensei numa capa tipográfica, com várias tipologias contrastantes, sem figura alguma. Mas, conforme os contos iam chegando, percebi que essa linguagem visual minimalista privilegiaria só um tipo de linguagem literária. Então Tereza Yamashita e eu começamos a pesquisar fotos, em busca de uma que sintetizasse a pluralidade. Impossível. As fotos mais impressionistas ou metonímicas representavam bem certas narrativas, mas não o todo. O mesmo acontecia com as fotos mais surrealistas, ou as mais expressionistas, e assim por diante. No final decidimos trabalhar com um mosaico. Tereza selecionou vários ingredientes característicos da ficção científica - planetas, robôs, alienígenas, fissão nuclear, etc. - e montou dois pequenos painéis. Ambos são um bom sumário visual do que o leitor encontrará nos contos, sejam estes impressionistas, expressionistas, realistas, surrealistas.

O seu trabalho editorial tem sido bem distinto, dentro da situação presente do mercado para a ficção científica. Como você enxerga as outras iniciativas dentro do cenário?
Se você olhar o mapa geopolítico da literatura brasileira, verá que a ficção científica está na periferia da periferia. Ela não é resenhada nos grandes jornais e seus autores não são levados a sério pelo Jabuti, pelo Portugal Telecom, pelo Prêmio São Paulo, etc. Isso não significa que em cinco anos as coisas não serão diferentes. Já estou sentindo os ares da mudança. A Aleph está recolocando nas prateleiras as obras fundamentais dos norte-americanos igualmente fundamentais: Philip K. Dick, Isaac Asimov, William Gibson, Ursula K. Le Guin. A Devir tem investido em autores norte-americanos (Orson Scott Card, Bruce Sterling, Greg Bear) e nacionais: André Carneiro, Jorge Luiz Calife, você. A Tarja Editorial, além de lançar o livro de estréia de Cristina Lasaitis, abriu as portas para a FC brasileira em suas coletâneas. A Conrad e a Via Lettera também publicaram alguma coisa no gênero. E a Record deu esse primeiro passo, com a Futuro Presente. Como eu disse, nesse território sou um recém-chegado. Alheio aos acontecimentos, fui conhecendo essas iniciativas aos poucos. Pelas razões apontadas, diria que meu trabalho editorial tem sido bem pessoal e independente. Eu vim de fora, de longe, certamente por isso não pertenço a nenhuma tribo, a nenhuma facção do fandom.

Essa divisão dos produtores de uma literatura em grupos e facções te incomoda? É diferente na FC, em relação aos autores do mainstream?
Atualmente os autores do mainstream têm defendido o isolamento, a solidão. Se num artigo crítico você reunir alguns deles sob determinada etiqueta aglutinadora - Geração 90, Geração Web ou Ficção Feminina, por exemplo -, eles ficarão bastante irritados. Pra mim, o embrião desse mal-estar tem a ver com a velha noção romântica de genialidade: "Sou original, sou único, não tenho semelhantes". Na FC brasileira parece ser diferente: os autores não se incomodam em pertencer a determinados grupos, até procuram isso. Confesso que não me sinto plenamente confortável em nenhuma das situações. O isolamento é muito, muito chato. Mas pertencer a um clube cerceia a liberdade. Você é patrulhado o tempo todo. Ler e elogiar o bom livro do concorrente vira crime de lesa-majestade. O jeito é ir levando a vida assim, ao sabor do vento, escapando das armadilhas.

Qual é o futuro do Projeto Portal?
Foram lançados três números da revista: Solaris, Neuromancer e Stalker. Serão no total seis. Em novembro lançamos o Portal Fundação. Em junho do próximo ano o Portal 2001 e em novembro o Portal Fahrenheit. Concluída essa primeira etapa, farei uma seleção dos melhores contos publicados na revista, com vista a uma antologia, essa sim, comercial, a ser lançada por uma grande editora em 2011.

Escritor e crítico, Roberto de Sousa Causo é autor do romance A Corrida do Rinoceronte.

Fale com Roberto Causo: roberto.causo@terra.com.br

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Futuro Presente, antologia editada por Nelson de Oliveira

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