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Sábado, 26 de setembro de 2009, 07h46

Pedra e afeto

Paulo Nassar
De Washington

Uma cidade pode ser o lugar em que as memórias se estruturam ou desaparecem. Washington é um exemplo quase completo de lugar que converge à memória de naturezas política, econômica, artística e histórica dos Estados Unidos. Os nomes das ruas, das praças, monumentos, edifícios, bairros e regiões, provocam a lembrança dos principais momentos da narrativa histórica norte-americana nos habitantes e seus visitantes.

Um bom exemplo é a região da cidade dedicada aos memoriais, o Mall, que lembra e homenageia os soldados norte-americanos mortos na Segunda Grande Guerra Mundial, na Guerra da Coréia e na Guerra do Vietnã. Uma região silenciosa, banhada pelo rio Potomac e vizinha de lugares que evocam personagens como Lincoln, Martin Luther King e até o filme "Forrest Gump". Para um observador quase incidental impressiona a quantidade de pessoas que visitam esses memoriais e, por meio de um simples registro fotográfico, a ser mostrado aos amigos e guardado, querem se incluir na paisagem histórica.

Vale destacar o memorial dedicado aos soldados da Guerra do Vietnã, de delicadeza inenarrável. Um grande muro de mármore negro, cravado abaixo do grande jardim, evoca a idéia de uma viagem para o território dos mortos. Um suave declive, leva aos nomes dos quase 60.000 soldados mortos, todos, absolutamente todos, escritos na pedra preta, em desordem alfabética, que traz outra realidade: estão organizados pela data da morte de cada combatente.

A arquiteta Maya Lin, sua criadora, procurou aninhar carinhosamente aqueles que viveram bons e maus momentos juntos no Vietnã para reverenciá-los. Uma forma de organização de mensagens e do espaço que aproxima a arquitetura da memória à arte. Uma lição de respeito aos fatos que geraram as informações. Um bálsamo em uma sociedade em que as mensagens são emitidas de maneira massiva e rápida e sem reflexão sobre os seus impactos éticos, entre eles o esquecimento, o apagamento de memórias e o fuzilamento de reputações.

Tudo isso chama ainda mais a atenção por que, no geral, a memória oficial, promovida por governos e políticos, é morta, estrutura-se na indelicadeza do tratamento da informação e na escolha de homenageados poderosos. São muitos os exemplos encontrados nos equipamentos urbanos brasileiros, cujos nomes são memória de puro puxa-saquismo.

Memória viva é aquela que penetra profundamente nos sentidos e tem interação com toda a sociedade. O memorial do Vietnã tem estas qualidades. Os administradores públicos norte-americanos, que bancaram ideia tão delicada e oposta à mentalidade política vigente, de transacionar homenagens, com certeza são pessoas benditas.


Paulo Nassar é professor da Escola de Comunicações e Artes, da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Diretor-presidente da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (ABERJE). Autor de inúmeros livros, entre eles O que é Comunicação Empresarial, A Comunicação da Pequena Empresa, e Tudo é Comunicação.


Fale com Paulo Nassar: paulo_nassar@terra.com.br

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Meutia Chaerani - Indradi Soemardjan/Wikipedia/Reprodução
O memorial do Vietnã preserva recordações vivas, diz Nassar

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