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Segunda, 28 de setembro de 2009, 11h29 Atualizada às 17h07

A locução é tudo

Márcio Alemão
De São Paulo

Ninguém mais duvida que os reality shows irão dominar boa parte da programação das TVs de todo o planeta. Motivo: nunca foi tão fácil colocar um produto no ar.

Volto a mencionar o Pesca Mortal. Até porque, toda vez que digo que o programa é ruim, o clube dos amigos e fãs da espetacular e perigosíssima pesca, que se transforma em um aborrecido e sonolento programa de TV, enchem minha caixa postal com ofensas de variado calibre.

Caminhoneiros do Gelo segue uma linha parecida. Quase nada acontece mas a locução nos leva a crer que centenas morrerão antes mesmo do final do primeiro bloco. Em 90 % dos episódios, nada acontece. Às vezes um caminhão chega a sair de traseira, uns 5 metros. Mas essa saidinha é repetida em slow-motion umas 8 vezes e o locutor deixa claro que faltou muito pouco para Bob - sei lá se existe um Bob, mas deve existir - sofrer um horripilante acidente.

E que fique claro: a exemplo da tal pesca, esse trabalho, o de conduzir pesados caminhões em uma estrada de gelo no Alaska é realmente muito perigoso e poucos se atrevem a fazê-lo. Mas não resulta em um bom programa.

Locução. É só disso que depende um reality.


Ghost Hunters é mais um que está passando no canal Sci Fi. No dia que decidi acompanhá-los, a promessa era boa. Os rapazes, os caçadores, são encanadores durante o dia. Como no filme, bem mais divertido, Ghostbusters, a central recebe um telefonema solicitando a visita dos especialistas. Um casal havia comprado uma casa, começaram a reformá-la e, do nada ou daquela dimensão por nós desconhecida, coisas estranhas começaram a acontecer.

O marido havia acordado no meio da noite com cortes nos dedos. Hóspedes que dormiam em um certo quarto ouviam coisas e sentiam-se profundamente incomodados. A dona da casa teria visto uma cortina de plástico ser erguida sozinha. No porão da casa essa mesma senhora disse que aquele local teria sido um abrigo de índios (não entendi o que isso poderia significar).

Chegam pois os Ghost Hunters e instalam uma tremenda parafernália, muito superior a que vimos no filme Poltergeist, em 1982. Sim, a tecnologia que dispomos hoje para pegar um fantasma no pulo é muito superior.

Resumão: a turma passa mais de 24 horas registrando tudo. E nada aconteceu. Ah, sim. Uma lanterna estava na mão de um deles e saiu voando. Não é possível ver direito. Outros sentiram uma espécie de teia de aranha passando em seus rostos enquanto estavam no porão dos indígenas. As entidades demoníacas não se manifestaram porque talvez não estivessem por lá. Talvez naquele dia estivessem trabalhando em Supernatural. No final um padre é chamado, benze a casa com santos óleos, água benta e orações. O casal se confessa aliviado.

Dito dessa maneira você deve ter achado muito aborrecido. Veja o programa. O locutor não deixa a peteca cair. Como na maioria dos programas do gênero.

Márcio Alemão é publicitário e cronista gastronômico da revista Carta Capital.

Fale com Márcio Alemão: marcio.alemao@terra.com.br

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