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Terça, 29 de setembro de 2009, 08h14

Outros tempos!

André Setaro
De Salvador (BA)

Antes, muito antes, do advento dos complexos de cinemas em shoppings centers (Multiplex, Cinemark, Unibanco...), era outro o comportamento das platéias. Havia, por assim dizer, um respeito ao filme, civilidade e educação. A sociedade capitalista, cada vez mais consumista, com sua voracidade, vem transformando usos e costumes e comportamentos, agravada pelo nefasto neoliberalismo. No caso do Brasil, a educação e saúde foram para o "beleléu". O chamado "lhano trato" desapareceu em função de um tratamento quase selvagem nas relações humanas. No caso específico dos espectadores cinematográficos, estes se transformaram num bando de vândalos, como, aliás, venho sempre a observar aqui, nesta coluna, e alhures.

Nos bons tempos (a expressão é esta), o público, quando da exibição de um filme, ficava em silêncio, exceção se faça aos cinemas tidos como "poeiras", de terceira categoria, como os situados em Salvador, onde moro, na famosa Baixa dos Sapateiros da inesquecível canção de Ary Barroso. Bem, nestas salas, o público, principalmente nas sessões de fim de semana, constituído de adolescentes, fazia, é verdade, um certo barulho, uma gritaria, mas tudo em função do acompanhamento da ação do filme, a exemplo de quando o mocinho chegava em tempo hábil para salvar a mocinha, a cavalaria salvava os heróis das mãos de índios enfurecidos, etc. Nestes momentos, a platéia batia nas cadeiras de madeira, havia gritos de emoção, mas, sempre, numa interação com o que estava a acontecer na tela. Muito diferente do comportamento do público atualmente que se caracteriza pela total apatia ao que se passa na tela, tal uma "esquizofrenia temporária e grupal".

Mas como ia dizendo, nos bons tempos, reinado da educação e do silêncio na recepção do filme, havia, mesmo nas melhores salas, uma piada bem colocada que soava irresistível e capaz de suscitar uma gargalhada geral. Dou um exemplo, que me ficou na memória.

Uma pessoa viu duas vezes o filme "Santa Joana", de Otto Preminger, com Jean Seberg (aquela que fez par com Jean-Paul Belmondo no clássico "Acossado", de Jean-Luc Godard), para poder fazer a piada. Há um momento no filme que mostra a mártir francesa a subir os degraus do cadafalso. O plano se mantém estático, fixo, a contemplar os passos da heroína para a morte. Quando está a pisar no quinto degrau, e não sei o motivo, o fato é que ela olha para trás, para o público, por um instante, e continua a subir. O nosso piadista, no segundo antes dela virar o rosto, grita: "Joana!!". Ela se vira. Ele, da platéia: "Não é nada não, pode ir". O público veio abaixo.

Noutra ocasião, no tenebroso cinema Pax, da Baixa dos Sapateiros, via "Trama diabólica" ("Homicidal"), de William Castle, quando, de repente, no clímax de sua progressão dramática, um relógio aparece em plano de detalhe na tela. Um narrador diz que o que se vai ver a seguir não é recomendável para cardíacos e pessoas nervosas (um jargão muito usado naquele tempo) e que estas tinham um minuto para que se retirassem. O ponteiro dos segundos gira trezentos e sessenta graus na tela. Algumas pessoas, com medo, saíram da sala.

Quando foi exibido, no começo dos anos 60, "O vampiro da noite" ("Dracula"), de Terence Fischer, com Christopher Lee, "rigorosamente proibido até 18 anos", o exibidor, num lance de "marketing" genial, colocou uma ambulância na porta do cinema e um aviso logo acima da bilheteria, que dizia ser o filme impróprio não somente para menores como também não indicado "para cardíacos e pessoas nervosas". O cinéfilo se assustava ao ver a ambulância na porta da sala exibidora, mas a excitação predominava sobre o receio e o filme foi um tremendo sucesso de bilheteria. Nos jornais da época, há o registro de alguns casos de pessoas, impressionadas, que desmaiavam (por sugestão, a exemplo das igrejas evangélicas) e eram socorridas pela ambulância, que tinha um equipamento de primeiros socorros.

"O vampiro da noite", hoje, se comparado aos filmes de terror atuais, não tem nada demais e é incapaz de meter medo a qualquer pessoa. Por sinal, há alguns anos passou na sessão da tarde de alguma emissora televisiva. Produção da Hammer, companhia inglesa especializada em filmes de terror, que eram feitos com classe e cuidado, reveladores de atores como Christopher Lee e Peter Cushing.

No tempo em que vigorava o sinistro Código Hayes americano, que determinava o que podia e o que não podia ser mostrado nos filmes, um beijo, por exemplo, havia de ter um tempo curto determinado e era chamado, pelo menos aqui na Bahia, de "colada". Uma película que tinha muitas "coladas" fazia a delícia da garotada, principalmente das mulheres adolescentes, bastante reprimidas em seus desejos recônditos nestes tempos (anos 50, parte dos 60). E antes, mas falo de uma época da qual me lembro. Quando um homem beijava uma mulher, alguém, e sempre acontecia, gritava: "Chupa, Caetano!!". Nunca entendi, até hoje, a expressão e o motivo da referência ao tal de Caetano. Nada a ver com o Veloso, que, ainda era menino de calças curtas em Santo Amaro da Purificação.

O comportamento da platéia, sobre ser um comportamento que ajudava a ver o filme e a provocar gargalhada, era, portanto, bem diferente do de hoje. O cinema era mágico e as imagens em movimento restritas às salas exibidoras. Para vê-las, era preciso se ir ao cinema, mediante o pagamento de um ingresso. E o filme, fugidio, pois a maioria deles quando entrava em cartaz passava uma semana e nunca mais podia ser visto.


André Setaro é crítico de cinema e professor de comunicação da Universidade Federal da Bahia (Ufba).

Fale com André Setaro: andre.setaro@terra.com.br

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Reprodução
Jean Seberg em Saint Joan, de Otto Preminger

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