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Terça, 29 de setembro de 2009, 14h39

Primeiro eles vieram atrás dos porcos

Reuters
Veterinários egípcios examinam porco para verificar se está contaminado pela gripe suína, no Cairo
Veterinários egípcios examinam porco para verificar se está contaminado pela gripe suína, no Cairo

Christopher Hitchens
Do The New York Times

De acordo com todos os relatórios recentes, a antiga cidade do Cairo apresenta agora ao mundo a imagem de uma pilha crescente de lixo em putrefação. Nada de novo, diz você. As ruas nunca foram exatamente organizadas, e os níveis de barulho e tráfego e poluição são objeto de espanto. Quando visitei este lugar pela primeira vez, fiquei surpreso por encontrar pessoas vivendo com muita dignidade e altivez entre as tumbas e pedras dos grandes cemitérios do Cairo, no que era chamado de "as cidades dos mortos". Também fiquei impressionado com o número e a variedade de animais vivendo um ao lado do outro, por assim dizer, em meio aos ônibus e táxis, com a população humana.

Olhando para baixo, da janela alta do Hotel Shepheard's, vi que uma pessoa ousada, em um prédio próximo, sem elevador, conseguiu colocar um pequeno rebanho de cabras no seu teto. Podia-se dar de cara com outros rebanhos nas vias públicas. E uma grande quantidade de trabalho excelente estava sendo realizada de forma discreta pelo mais útil dos animais, o porco. Como grandes consumidores de resíduo orgânico, os porcos são difíceis de superar. Eles abriam caminho, mastigando grandes quantidades destes resíduos, muito frequentemente sob a supervisão tácita da bem numerosa minoria cristã do Cairo.

Tenho que utilizar o tempo passado sobre estes nobres animais, pois na primavera deste ano, eles foram todos abatidos sob as ordens do governo egípcio. Esta ação louca mudou a cena do lixo no Cairo de "horrível" para "próximo do catastrófico". Recebi a alegação, pelo regime do presidente Hosni Mubarak, sem qualquer base em evidências, que os próprios suínos eram os portadores da assim chamada "gripe suína". (Vários de meus amigos e parentes já pegaram e se recuperaram desta infecção moderada; todos sabem que encontros reais com porcos não tem absolutamente nada a ver com isto.)

Como conseqüência do massacre dos porcos, as ruas do Cairo tornaram-se quase inabitáveis, e os lixeiros cristãos, chamados localmente de "zabaleen", tiveram seu sustento roubado. "Eles mataram os porcos, deixem que eles limpem a cidade", de acordo com a citação de um ex-lixeiro e criador de porcos, Moussa Rateb, falando sobre as autoridades egípcias.

Li até o fim do relato de Michael Slackman, ilustrado brilhantemente e muito bem escrito, publicado em 20 de setembro no The New York Times, com aquela vaga necessidade, que às vezes alguém sente, de ouvir a conclusão. Quando ele pretendia mencionar que havia alguma coisa sectária - possivelmente até algo religioso - na decisão de, ao mesmo tempo, sacrificar os porcos e rebaixar os cristãos?

Isto não seria o único caso de histeria eclesiástica gerada pela epidemia. Recentemente, a televisão iraniana divulgou uma notícia, sugerindo que o vírus da gripe suína tinha sido incubado deliberadamente pelos habituais "círculos" cosmopolitas suspeitos e que a vacina contra ele havia sido monopolizada por uma empresa na qual o ex-Secretário de Defesa dos Estados Unidos, Donald Rumsfeld, detinha muitas ações. Em maio, bem quando a histeria anti-porcos estava ganhando ritmo, houve uma proposta do Sheik Ahmad Ali Othman, um conselheiro veterano no Ministério de Doações Religiosas, para que todos os porcos fossem mortos, pois eles eram os descendentes daqueles judeus incrédulos que foram transformados em suínos no Corão.

Caso você não acompanhe esta discussão muito tóxica entre escolas rivais do islã militante, há aqueles que sustentam que os judeus são a cria dos porcos e macacos nos quais Alá transformou os hereges, e aqueles que assumem a postura mais moderada, que os hereges transformados em porcos e macacos também foram amaldiçoados ao serem transformados em seres estéreis. A última opinião leva à conclusão mais benevolente e tolerante que, ruins como os judeus eram, eles pelo menos não podem estar em uma linha direta de parentesco dos animais originais condenados. Vale a pena conhecer estas distinções sutis.

Em um nível mais popular, é dito que os porcos são sujos porque eles até comem o próprio excremento. Eles não são as únicas criaturas que apelarão para isto, mas é certamente a sua voracidade que faz com que sejam uma patrulha de lixo tão incrível. Não reparar isto nos porcos é não perceber o sentido exato deles. Podemos também observar que eles têm pele e órgãos que podem ser transplantados para seres humanos, que eles têm muita inteligência e uma proporção impressionante de peso corporal para peso cerebral, além de alguns valores familiares e outros traços interessantes. (Não é coincidência que, em todas as sociedades que não inculcaram preconceito contra eles, os bebês porcos são considerados como primos pelo folclore das crianças humanas.)

Dificilmente podemos imaginar uma cidade ou sociedade sem porcos. Um mundo sem porcos seria um mundo no qual os humanos teriam destruído alguns parentes próximos e algumas criaturas amigas muito úteis. Ainda assim, dois dos grandes monoteísmos estão comprometidos com um ódio irracional e até temem o porco. (O cristianismo é um pouco melhor nisto, se você omitir o conto horripilante do porco gadareno, infectado com demônios pelo próprio Jesus. Um padre da Igreja Anglicana, que serviu como missionário em Nova Guiné, onde as ovelhas eram desconhecidas, me contou que a metáfora do rebanho coberto de lã e do pastor havia sido substituída entre os indígenas por pregadores anglicanos que apelaram ao Senhor para manter e proteger os seus preciosos leitões.)

Mas nenhuma fé está imune à ignorância neste ponto. Séculos atrás, na Europa, os gatos eram considerados - especialmente os pretos entre eles - como "familiares" das bruxas e foram mortos com uma crueldade revoltante pelos cristãos que ficavam petrificados com o diabólico e suas mensageiras femininas. A destruição dos felinos levou ao triunfo do rato, e da pulga que ele carregava nas suas costas, e ao quase colapso da civilização europeia. Agora, a erradicação dos porcos leva ao avanço da montanha de lixo, na qual seria surpreendente se o rato e o seu inseto daninho não tenham achado novamente algumas coisas para se agarrar. Deixe isto com as pessoas de fé. Deixe isto com elas, se você tiver coragem...

Christopher Hitchens é jornalista, escritor e colunista de Vanity Fair e Slate Magazine. É autor do livro "Deus não é Grande: como a religião envenena tudo". Artigo distribuído pelo The New York Times Syndicate.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

 

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