
Paulo Costa Lima
De Salvador (BA)
Sete entre dez estudantes de música, hoje, querem saber sobre a relação entre música e emoção. Querem pisar em terreno mais sólido com relação ao controle de emoções desencadeadas pela música. Também costumam justificar esse interesse lembrando a importância da música no cinema.

Darwin e a música como fator de atração sexual
É uma situação curiosa, se comparada ao estado da arte há algumas décadas atrás, quando a pergunta era quase obscena. Naquela altura, via-se o desenvolvimento da arte musical como o campo de prioridade - as emoções viriam como um resultado das escolhas feitas. Se dissonantes, melhor.
O que aconteceu? Será que foi a tal da contra-revolução propiciada nos anos 80 que legitimou o interesse pelo controle das emoções musicais? Ou foi necessário flexibilizar o discurso de prioridade das grandes causas - reconhecendo que os componentes emocionais da experiência musical mereciam maior atenção, não sendo isso algo intrinsecamente fascista?
Claro está que a manipulação das emoções musicais tem estreita associação com a manutenção de grandes fatias de mercado, e, por essa via, incentiva, ou melhor, condiciona a homogeneização da dieta auditiva do mundo. Será que dá para imaginar o mundo livre da máquina mercante musical?
O fato é que há uma neuropsicologia em pleno florescimento, buscando responder perguntas básicas sobre o processamento das emoções musicais no cérebro humano. Vejo que alguns cientistas se queixam amargamente sobre a falta de consenso sobre o que seja de fato música - e não posso deixar de me alegrar com isso... nem tudo está perdido!
Isabele Peretz (2006) em "Ouvindo o cérebro: uma perspectiva biológica das emoções musicais", diz que se a funcionalidade da música fosse melhor conhecida, o trabalho dos neurocientistas de identificar tais emoções em seus canais de processamento no cérebro seria grandemente facilitado. Que beleza de confusão que nós humanos somos capazes de fazer - atenção senhores neurocientistas, não vamos dar moleza!
Mas, já é possível apontar com razoável certeza um arranjo neural específico para certas emoções musicais, tais como o eixo alegria-tristeza. Membros de uma mesma cultura podem levar até ½ segundo para identificar se um trecho é alegre ou triste.
Outra coisa interessante é a constatação de que a tristeza em música produz prazer, ao contrário da tristeza em vários outros campos de emoção. Isso significaria que as emoções em música poderiam ser diferentes das emoções em geral.
Também parece claro, que não há um sistema único embasando todas as respostas emocionais à música. Por exemplo, o sistema neural que trata do julgamento de prazer sonoro derivado de consonâncias é complexo, e aparece distribuído por várias partes do cérebro; bem distinto daquele que lida com o eixo alegria-tristeza.
A constatação da existência de estruturas do cérebro que são específicas para o processamento de música atesta a ancestralidade dessa atividade e permite que uma série de questões sejam formuladas - tal como, por exemplo, o valor adaptativo da música no processo de evolução da espécie.
Ainda não se descartou uma idéia que teve origem com o próprio Darwin sobre a função da música como fator de atração sexual entre parceiros. Mas o interesse hoje gravita na direção do papel da música como capaz de estabelecer coesão grupal. O primeiro passo desse processo de ligação entre indivíduo e comunidade viria da trilha sonora do berço, as canções de ninar.
Há duas características musicais que estão diretamente envolvidas nessa comunhão sonora nas comunidades. Primeiro, a possibilidade de misturar vozes gerando manifestações sonoras complexas, potencializando os efeitos da simultaneidade - vale observar que, no caso da linguagem, é preciso entender cada um isoladamente.
E também, além da mistura vocal, todo o universo da sincronia motora, gerando as mais incríveis estruturas rítmicas, que são tão preciosas para a vida em comum das sociedades.
Tudo isso abre novos horizontes de estudo e de pesquisa em música. Se, por um lado, podemos antever cenários potencialmente catastróficos, tais como a manipulação química da audição musical - a música será uma pílula -, por outro, nada impede sonhar com emoções musicais nunca dantes experimentadas, ou com a possibilidade de compor emoções para gerar música, novos e incríveis desafios para os criadores do futuro...
Entrei por uma orelha
E saí pela outra...
Terra Magazine
» Gestão cultural e vozes da alteridade