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Quinta, 1 de outubro de 2009, 08h16

Os clássicos: Góngora, poema 228

Érico Nogueira
De São Paulo

Nascido em Córdoba, sul da Espanha, em 1561, e falecido na mesma cidade em 1627, Luis de Góngora y Argote viveu o ápice do chamado "siglo de oro" das letras espanholas. Escreveu, diz-se, em "castelhano imperial", uma língua não raro obscura eivada de helenismos, latinismos, figuras retóricas e alusões mitológicas. Sua paixão pela metáfora - ou, antes, pelo processo analógico que Gracián chamou de agudeza e que propicia toda metáfora - chegou ao cúmulo do paroxismo e da obsessão. Em Fábula de Polifemo y Galatea e, sobretudo, em Soledades, chegou ao autismo. Imerso no puro mundo das formas, solitário entre engrenagens da máquina poética, deu-se ao luxo de ser intransitivo. Wittgenstein esclarece: "Há decerto o inefável. Ele se mostra - é o místico".

Aos vinte anos, se tanto, escreveu sua profissão de fé. É um soneto à moda de Petrarca, com algo de Camões, e superior a ambos. Eu diria que é a cumulação da arte do soneto, de suas possibilidades formais e, por que não, (o místico se mostra, não é?) expressivas. Leiamo-lo:

Enquanto, ao competir com teu cabelo,
ouro polido ao sol deslumbra em vão;
enquanto com desprezo ao rés-do-chão
olha tua alva frente o lírio belo;

enquanto atrás do lábio, por querê-lo,
mais olhos que do cravo agora vão;
e enquanto triunfa com afetação
do luzente cristal teu ser de gelo;

goza gelo, cabelo, lábio e frente,
antes que tua hora tão dourada,
- ouro, lírio, lilás, cristal luzente -

não só em prata ou flor estiolada
se torne, mas tu e isso juntamente
em terra, em fumo, em pó, em sombra, em nada.

O que temos aqui, neste soneto, não são símiles apenas. Aqui, ouro e cabelo, lírio e pele, não se relacionam de maneira efêmera, casual, com o fito preciso de realçar as qualidades físicas - e às vezes morais - da mulher amada. Neste soneto, os valores plásticos, sonoros e conceptuais dos termos que, a cada vez, são comparados e equiparados, se intercambiam. O cabelo é ouro; a pele é lírio...

Por trás dessa transubstanciação, percebemos o poeta, como criterioso alquimista, a fazer o inventário das coisas que o cercam. Conforme as qualidades, sensíveis, lógicas ou simbólicas que tenham, dispõe-nas em dois grupos: as semelhantes e as dessemelhantes. E eis aqui a descoberta, a glória de Góngora: perceber que os elementos de um mesmo grupo, na alquimia de um poema, são de tal modo intercambiáveis a ponto de dispensar, por supérflua, e explicitação do princípio de semelhança que os ligou. A água não parece um cristal luzente; ela o é.

Ironicamente, o final da sua vida foi também o final da sua glória. Góngora tinha um rival na corte madrilena, um homem a quem, afundado em dívidas, teve de vender a sua casa na capital e retornar a Córdoba. Este homem era Francisco de Quevedo y Villegas.

Dizem que os grandes poetas prevêem o próprio fim. O caso mais próximo, ao que a mim me toca, é o de Tolentino: sua Katharina, como ele, morreu aos sessenta e seis anos. Quanto a Góngora, depois de perder o favor dos poderosos, voltar à cidade natal e viver doente e sem fausto os dias que lhe restavam, não lhe pode haver escapado que, ainda na juventude, descrevera o próprio destino. Os elementos que dançam, que se refletem, refratam e repulsam, estão em contínuo desaparecimento. Mal chegaram, eis que já se foram. Esta ida, porém, pode ser gradual, pode obedecer a certa ordem, que o poeta, num lance de felicidade, pode apreender. É o que a insuperável gradação da chave de ouro, repetindo cinco vezes um iambo literalmente fatal, parece querer nos dizer. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.


Érico Nogueira é poeta, editor (Dicta & Contradicta) e professor de línguas e literaturas clássicas (IICS). Ganhou o "Prêmio Governo de MG de Literatura" de 2008 com O livro de Scardanelli. Escreve também no Ars Poetica, blogue de poesia. Vive e trabalha em São Paulo.

Fale com Érico Nogueira: nogueira.erico@terra.com.br

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Museu de Belas Artes de Boston/ Wikipedia/Divulgação
O poeta Gongora, retratado por Diego Velázquez

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