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Quinta, 1 de outubro de 2009, 17h20 Atualizada às 17h44

Para ex-ministro, houve falha de logística no Enem

Marcela Rocha

Em entrevista a Terra Magazine, o ex-ministro da Educação do governo FHC (1995-2002), Paulo Renato de Souza, faz criticas à logística usada no processo de produção e distribuição das provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). "Eu já estava preocupado com esse Enem", diz em referência à demora do MEC em anunciar as escolas em que seriam feitas as provas.

Segundo o ex-ministro, "a empresa que ganhou a concorrência para fazer a prova (Connase, um consórcio formado pela Consultec, Funrio e Cetro) é uma empresa sem experiência em fazer um exame desta proporção", critica. E acrescenta ainda que "a prova passou a ter um valor econômico e social muito grande e isso teria que ter sido levado em conta".

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Hoje secretário da educação do Estado de São Paulo, Paulo Renato foi também o criador da prova aplicada em todo o País.

- Quanto à continuidade dele (Enem) no governo Lula, até agora tinha ido bem. Não tenho nenhum reparo. Acho que o governo acertou em valorizar o Enem ao colocá-lo como condição para o Pro-Uni.

O exame de Ensino Médio, que seria realizado neste fim de semana, foi cancelado após suspeitas de vazamento de questões. Ao todo, 4,1 milhões de estudantes se inscreveram para o Enem deste ano em 1.829 municípios.

Ao todo, o Ministério estima que os prejuízos pela impressão e anulação das provas tenha representado um prejuízo de cerca de R$ 30 milhões. A prova do Enem deverá ser aplicada em novembro, ainda sem data definida.

As suspeitas de fraude no exame ocorreram após um homem ter telefonado para o jornal O Estado de S. Paulo informando que tinha em mãos duas das provas que seriam aplicadas no sábado pelo Ministério da Educação.

Leia a íntegra da entrevista:

Terra Magazine - O que pode ter causado esse vazamento?
Paulo Renato -
Sou solidário ao ministro, que, obviamente, é vítima nesse processo, assim como todos os alunos. É um episódio lamentável. De um vazamento desse, é difícil indicarmos os motivos, ou os mecanismos precisos. Talvez a Polícia Federal possa determinar melhor o que aconteceu. Vazamento menores existiram em vários vestibulares muitas vezes, mas nunca uma coisa desta dimensão: 4 milhões de alunos. Quando eu deixei o Ministério em 2002, já tínhamos 2 milhões no Enem e a logística, de 2 milhões para 4 milhões é semelhante. Acredito que houve uma falha de segurança causada pela logística do processo.

Como assim?
A logística envolve o preparo da prova e o sigilo até o momento da aplicação dela. Devo dizer que eu já estava preocupado com esse Enem. Aqui, em São Paulo, o exame será aplicado em 1.300 escolas do Estado, fora as particulares e universidades, para cerca de 1 milhão de alunos. Só fui conseguir informações sobre quais seriam essas escolas na segunda-feira, depois de falar pessoalmente com o ministro. Chegaram reclamações sobre a distribuição dos locais. Criamos uma força tarefa para supervisionar transporte e segurança, isto por minha conta, não foi o ministro que pediu. Seriam colocados mil ônibus a mais no sábado e mais mil no domingo. Os problemas de logísticas vinham já acontecendo. A empresa que ganhou é uma empresa sem experiência em fazer um exame desta proporção.

A empresa já vinha apontando falhas?
Não conheço a empresa, mas sei que ela nunca fez algo deste tamanho. Quando nós fazíamos o Enem, ou o Provão, fazia uma licitação chamando as duas maiores empresas do mercado. Aqui, os concursos públicos que fazemos, convidamos três. É uma licitação fechada, o menor preço leva. Tem uma outra coisa que complicou bastante.

O que?
O Enem, como era realizado até o ano passado, era um prova de raciocínio, basicamente. Ela não era uma prova de vestibular. Neste ano, o caráter do exame foi alterado, foi transformado em um vestibular. Agora, o sujeito que tirar 0,001 a mais do que o outro pode entrar na faculdade e o outro não. A prova passou a ter um valor econômico e social muito grande e isso teria que ter sido levado em conta. Não vi o contrato dessa empresa, não sei dos cuidados tomados pelo Ministério, o ministro é vítima como os alunos. Mas acho que houve mais uma falha na logística. Falhas já existiam, não tão graves quanto essa.

Foi o senhor quem criou o Enem. Como o senhor avalia a continuidade dele no governo Lula?
Para transformá-lo num vestibular nacional, eu acredito que o Enem poderia ser transformado na primeira fase de todos os vestibulares. E com a pontuação obtida no Enem o aluno faria a segunda fase. Seria a mesma coisa, sem mudar muito o caráter do exame e sem transformar num exame de tudo ou nada. Mas esta é uma opção do ministro, mas eu teria feito diferente. Quanto à continuidade dele, até agora tinha ido bem. Não tenho nenhum reparo. Acho que o governo acertou em valorizar o Enem ao colocá-lo como condição para o Pro-Uni.

 
Elza Fiúza/Agência Brasil
Paulo Renato de Souza, secretário da educação do Estado de São Paulo

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