
Atualizada às 08h29 Deolinda Vilhena
De Santos (SP)

Mercedes Sosa e Fabián Matus, seu filho e esta colunista
Salvador, 17/12/2008
Foto: Irène Kirsch
Si se calla el cantor calla la vida/ porque la vida, la vida misma es todo un canto...São as primeiras palavras que me vem à cabeça quando ao abrir o computador encontro a notícia da morte de Mercedes Sosa.
As lágrimas correm pelo meu rosto. Sim, choro muito enquanto escrevo. Mercedes faz parte da minha vida. Suas canções pontilharam minha trajetória e constituem a trilha sonora da minha adolescência vivida sob os anos negros das ditaduras militares que ocuparam a Latino-América. Os adolescentes de hoje não sabem da missa a metade, não viveram sob as trevas e isso os torna incapacitados para compreender a força e a importância dos versos cantados por Mercedes, verdadeiro desafio aos usurpadores do poder em nosso continente.

Cairá, cairá...e caíram Mercedes
Foto: Reprodução
Só quem a viu em cima de um palco, enrolada em seu poncho vermelho, lenço na mão cantando Todo cambia, e fez coro cantando com ela "cairá, cairá" em alusão a Pinochet e a outros ditadores saberá do que estou falando... Pero no cambia mi amor/ Por mas lejo que me encuentre/ Ni el recuerdo ni el dolor/ De mi pueblo y de mi gente...
Tenho muitos de seus discos, me arrependo amargamente de ter dado e/ou vendido os de vinil, que além de tudo estavam assinados por ela...mas posso me considerar uma pessoa de sorte pois assisti a pelo menos um concerto de Mercedes a cada vez que ela se apresentou no Brasil entre 1980 e 2008...
Lembro-me de uma temporada dela no Canecão quando assisti a todos os shows, com o auxílio luxuoso de Léa Penteado - que reencontrarei em grande estilo numa palestra que ela fará dia 7 de outubro dentro da disciplina Produção Teatral na ECA/USP - à época assessora de imprensa contratada por Dody Sirena para a temporada de Mercedes. E ao final de cada show, em companhia de Djenane Machado, corríamos para o camarim para "tietar" La Negra. Que sempre nos recebeu de braços abertos, e Djenane depois de ter tomado umas e outras não se furtava de usufruir ao máximo dos privilégios que a vida nos oferecia e deitava-se no colo de Mercedes...morria de inveja mas não ousava. Já me considerava uma pessoa abençoada por poder privar de alguns momentos com uma Diva na verdadeira acepção da palavra.
Em 1988 aconteceu a mesma coisa e ao final da temporada ganhei de Fabián Matus, filho de Mercedes, uma credencial da turnê mundial do espetáculo e a guardo pendurada até hoje na porta do armário do meu quarto como uma relíquia, um "santinho" que 20 anos depois pude mostrar a Mercedes quando de sua passagem por Salvador.

Credencial da turnê mundial de 88
Foto: Reprodução
Para os fãs de Mercedes nesses idos anos 80, suas fotos eram moeda de troca e quase arrumei briga com minha comadre Angela Ro Ro. Heleninha, uma grande amiga, havia feito várias fotos de Mercedes Sosa e eu, pela proximidade com Angela, tinha inúmeras fotos dela, de quem Heleninha era fã...e estabelecemos a troca, cada foto de Mercedes Sosa valia três fotos de Angela Ro Ro, vocês podem imaginar o tamanho da encrenca.
Durante anos Mercedes veio regularmente ao Brasil e a cada vez a encontrava. Depois ela ficou um bom tempo sem vir. Estava morando em Paris quando soube que Mercedes faria um concerto em Genebra. Comprei os ingressos, As passagens de trem. Reservei hotel. Mas o concerto foi cancelado por problemas de saúde.

São Paulo, 18 de outubro de 2007: Olivia, Lili, Judith, Ghiv, Pedro, eu, Patrícia e Mercedes
Foto: Maria Adroher>
Meu reencontro com Mercedes aconteceria em outubro de 2007, em São Paulo. Minha irmã, Patrícia que está em Buenos Aires hoje e deveria ir, em minha homenagem, render homenagem a Mercedes, me deu de presente de aniversário uma mesa no Via Funchal.
O Théâtre du Soleil se apresentava em Sampa na ocasião e comentei com Liliana Andreone - assessora de imprensa da companhia e presente da ditadura argentina a Ariane Mnouchkine - que iria ver Mercedes. Na mesma hora ela pulou da cadeira, amiga de Mercedes que em seu pequeno apartamento de exilada em Paris cantava para os que sofriam dos mesmos males e dores. Corremos para comprar mais ingressos e creio que éramos cerca de 20 pessoas, inclusive o pequeno Ghiv filho de Judith e Kaveh, que com 45 dias com certeza era o mais novo na galeria dos fãs de Mercedes.
Vivemos um momento único. Um concerto deslumbrante. La Negra cantava como nunca. E ao final, com a ajuda de Fabián somos todos ao camarim...Lili chorava emocionada abraçada a Mercedes, e eu chorava por ver as duas chorarem imaginando o filme que passava na cabeça delas...exílio é dessas coisas que só conhece quem viveu. Impossível imaginar ou medir a dor.

O carinho de Márcio Meirelles
Foto: Deolinda Vilhena
Um ano depois, gracias a la vida, estava em Salvador quando ela se apresenta no Teatro Castro Alves - compro ingresso na primeira fila central. Encontro Fabián e mais uma vez sou privilegiada com uma visita ao camarim de La Negra, detalhe: antes do espetáculo. Sou ou não ser um abençoado pelo senhor do universo? Rimos, vimos as fotos com a turma do Soleil, falamos da minha cirurgia, já havia perdido quase 40 quilos. Pensei como seria bom que ela pudesse perdê-los também.
Mas não foi a última vez que a vi. Pois graça das graças, Márcio Meirelles bate o pé e exige a presença de Mercedes para o Canto Geral, espetáculo que marcaria o encerramento de uma cúpula de presidentes latino-americanos realizada na Costa do Sauípe...e eu que havia visto Mercedita no dia 30 de novembro pude reencontrá-la 17 dias depois no mesmo Teatro Castro Alves e mais uma vez sentada na primeira fila, de camarote...e pude ouvir Carlinhos Brown dizer a seguinte frase: "no dia em que a América Latina esbanjar dignidade todos nós nos chamaremos Sosa".
E mais uma vez pude beijá-la, abraçá-la, agradecer sua existência e sua presença nesse mundo...sonhava com o momento de reencontrá-la, apesar da dificuldade de locomoção, cantava sentada e raramente ensaiava alguns passos, mas sua força e sua energia jamais a abandonaram. Não conheci em minha vida carisma maior. Ariane Mnouchkine é a que mais se aproxima, mas Ariane nunca está no palco.
Infelizmente nosso encontro foi adiado. Sua voz celestial que encantou essa terra agora será ouvida no céu. Essa terra vai ficando cada dia que passa mais sem graça. Porque os grandes não são substituídos jamais.
A voz de Mercedes não se calará. Ela vai ecoar a cada vez que um jovem sentir sua liberdade ameaçada. A cada vez que uma mãe trabalhar e não for paga. Mas nunca mais verei La Negra embora no leitor de DVD da minha casa desde 8h30 da manhã desse domingo ela esteja cantando, linda, com uma energia que espero continue a iluminar os passos dos que a amam e foram por ela guiados.

Mercedes a maior voz da América Latina
Fotos: Arquivos La Nación
Mercedes foi um ser especial. Capaz de, ao ser presa em 1979 durante um concerto em La Plata, preferir a dor do exílio à dor de permanecer calada na Argentina. Os ditadores argentinos deram ao mundo a voz de Mercedes, e fazendo dela a maior voz da América Latina. A voz que alertava ao mundo o que se passava nos porões negros das ditaduras sul-americanas. Seu talento inconfundível, sua voz grave e a força de seu carisma transformaram em hino de resistência e esperança na liberdade as canções de Violeta Parra, de Atahualpa Yupanqui e tantos outros.
Provocadora, audaciosa ao misturar o folclore ao rock, sozinha em cena com seu tambor e seu poncho vermelho ela cantou - e encantou o mundo - em salas de prestígio entre as quais cito a Capela Sistina no Vaticano (1994), o Carnegie Hall de Nova Iorque (2002) e o Coliseu de Roma (2002) durante um Concerto pela Paz.
Ao longo dos seus 74 anos Mercedes Sosa recebeu inúmeras recompensas, numa dessas ocasiões disse uma frase que guardei na memória e no coração: "esses prêmios não me são concedidos porque eu canto, mas porque eu penso. Penso nos seres humanos e na injustiça. Penso que se não tivesse pensado meu destino não teria sido o mesmo."
Pena Mercedita que os seres humanos pensem cada vez menos. Pena ainda maior: que os artistas pensem cada vez menos. Os artistas cujo papel na sociedade deveria ser importantíssimo mesmo se eles não fazem parte das classes historicamente fortes, mas quando eles traem é muito grave, porque traem justamente o pensamento.
Adíos Mercedes...ou quem sabe hasta pronto...
Fale com Deolinda Vilhena: deolindavilhena@terra.com.br
Terra Magazine