Terra Magazine

› Terra Magazine › Colunistas › José Pedro Goulart

Quarta, 7 de outubro de 2009, 08h12 Atualizada às 09h02

Let Sunshine in

Getty Images
O colunista José Pedro Goulart relata em coluna sua estreia na Broadway (foto)
O colunista José Pedro Goulart relata em coluna sua estreia na Broadway (foto)

José Pedro Goulart
De Nova York

Este é um pequeno depoimento de viagem. O sol está intenso aqui em Nova Iorque agora enquanto escrevo. Depois de uma semana aqui meus pés doem, mas há recompensas. Foram dias de caminhadas e noites musicais que começaram de frente, com o trompete do Roy Hargrove e terminaram de costas, com a bunda da Lady GaGa.

Trata-se de um lugar vagabundo, ordinário: sem janelas, enclausurado. É tudo o que se pode afirmar sobre o The Jazz Gallery. Ficamos no frio uns 40 minutos, eu e a Ana Maria, do lado de fora, à espera que abrissem as portas. Subimos e, opa! Primeira fila.

O clube ordinário parecia servir ao propósito de causar contraste. Hargrove, dois Grammy, parceiro de caras como Herbie Hancock, Wynton Marsalis, entrou em transe - posso afirmar, eu estava a um metro dele. E os músicos o acompanhavam na viagem. Meu testemunho só vai até aqui. O êxtase me desprendeu.

Do lixo (chique) para luxo (brega): Hair na Broadway. O espetáculo símbolo de uma geração agora se transformou nisso: um espetáculo símbolo de uma geração. Não a dos jovens atores que estavam no palco, cantando, tirando a roupa, propagando o amor livre sem saber direito o que isso significou. Mas a dos pais deles. De maneira que o Hair, antes uma peça de contestação, hoje é só um espetáculo colorido, com aquelas musiquinhas, e uma simulação infantil de uso de drogas e da disposição ao sexo.

Mas espere! Há uma luz que vem do fim do túnel do meu passado afetivo; no final, cantando Let Sunshine in, o elenco incentiva que o público suba no palco. (Em viagens, uma parte importante do nosso senso de ridículo é neutralizada.) De modo que foi assim, cantando, pulando, que estreei na Broadway.

Congratulations, ouvi no dia seguinte de desconhecidos. Será? Não, não era para mim, saiu o resultado: "Rio 2016", todos brasileiros recebiam cumprimentos. À noite, nesse mesmo dia, um espetáculo inesquecível no Lincoln Center, Dave Brubeck e João Carlos Martins. Brubeck, 89, foi ovacionado por mais de dez minutos. Depois o João Carlos Martins regeu, emocionado, uma emocionante versão do Hino Nacional Brasileiro.

Última noite: Lou Reed, Laurie Anderson, Bono Vox, Courtney Love, Scarlet Johanson e outros tantos cruzaram o palco do Carnegie Hall com a mesma profusão dos pedestres na Quinta Avenida. Um show beneficente de amigos, essas coisas.

Dizer que esse grupo estava bem perto do meu nariz só serve para provocar os fãs. Já eu me empolguei mesmo com o velho Lou tocando o clássico Sweet Jane. Todos no palco; Laurie Anderson ao violino, Scarlet imóvel, linda e distante, parecia dentro de uma propaganda de sabonete. Courtney Love tentando roubar a cena com uma espécie de dança da serpente albina. E o Bono Vox de puxador do bloco, Sweet Jane.

Antes disso houve a aparição da Lady GaGa. Eu nem sabia quem era direito, mas ela entrou com um maiô transparente, sentou ao piano, abriu a boca e acredite: a voz da criatura tomou conta o teatro.

O impacto da presença dela foi notável. Mas o melhor ela deixou para final, quando levantou-se com aquela vestimenta de dançarina de night club, deu as costas e exibiu um derriére de fazer inveja.

Enquanto isso o sol continua forte lá fora. Let sunshine in.

(Twitter: @ZPgoulart)


José Pedro Goulart é cineasta e jornalista.


Fale com José Pedro Goulart: zp.zeppelin@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

Terra Magazine

Busque outras notícias no Terra

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol

Argentina Chile Colômbia Equador Estados Unidos México Peru Venezuela