
Atualizada às 10h31 Ronaldo Correia de Brito
Do Recife (PE)
Na segunda-feira morreu José de Arruda Queiroga, às 17h30. De verdade, ele começou a morrer desde a terça-feira anterior, dia 29 de setembro, quando tomava banho para ir ao trabalho. Caiu e sofreu luxação de duas vértebras cervicais, perdendo a sensibilidade e os movimentos abaixo do pescoço. Ao médico que o atendeu na urgência ele falou que os velhos sempre morrem de queda e no caso dele o 'serviço' fora pela metade; ou seja, não morrera de vez. Mantinha-se calmo e bem humorado, apesar da gravidade da situação.
Queiroga tinha 82 anos e era médico há quase sessenta. Trabalhava como pneumologista, com especialização no tratamento de tuberculose. Chefiava a Clínica de Pneumologia do Hospital Otávio de Freitas, no Recife, uma das maiores do Brasil. Conheci-o há trinta anos, no cargo de diretor, quando me apresentei numa entrevista para o meu primeiro emprego em Serviço Público. Ele me perguntou se eu possuía título de especialista e formação nos Estados Unidos ou se era um médico de traquejo simples como olhar, ouvir e examinar os doentes, tomando decisões adequadas à nossa realidade social.
O Hospital Otávio de Freitas fora construído num bairro afastado, um dos pontos mais altos da cidade, em meio ao verde das mangueiras, pés de fruta-pão, jambeiros, coqueiros e flamboiãs. Na década de cinquenta, acreditava-se que o isolamento dos portadores de tuberculose seria uma das condições para a erradicação da doença no Brasil. O Sancho, como ficou conhecido o hospital, era a Montanha Mágica do romance de Thomas Mann, o lugar onde os pacientes ficavam internados meses e até anos a fio, esquecidos da família e deles mesmos, até o dia em que transpunham o portão de saída, inadaptados ou mortos.
Queiroga atravessou o tempo em que se tratavam os casos mais graves de tuberculose com procedimentos cirúrgicos como a pleurostomia ou o pneumotórax - no poema de Manuel Bandeira, após este último recurso a única coisa a fazer é dançar um tango argentino - e chegou à era dos antibióticos de última geração. Viu os leitos de tisiologia reduzidos para menos de uma centena, sem que a doença fosse erradicada. Assistiu ao recrudescimento da tuberculose com o advento da AIDS e o surgimento de pacientes chamados multidroga resistentes, aqueles insensíveis a todos os tipos de remédios. Sempre atento aos avanços da medicina e das terapêuticas, tornou-se mestre de gerações de médicos e modelo de dedicação aos pacientes.
Todos conhecem a expressão 'vestir a camisa', exemplo de compromisso com o trabalho. Os antigos médicos do hospital Otávio de Freitas trocavam roupa e sapatos, antes de ir para as enfermarias. Nesse tempo, trabalhar no Serviço Público era um dos principais objetivos da medicina. Os ensinamentos de Hipócrates não significavam meras citações em discursos de formatura.
Acompanhei Dr. Queiroga durante 30 anos. Apesar da idade ele não faltava ao trabalho e cumpria carga horária acima do contrato. Escolheu manter-se na ativa por necessidade financeira e para manter-se vivo e pensante. Dirigia o carro pequeno - fazia parte de um grupo de médicos financeiramente modestos -, sempre escutando música clássica. Todos no hospital admiravam o senhor elegante e culto, que nunca precisou de óculos, possuía caligrafia perfeita e escrevia evoluções que mais pareciam textos literários e que em dezenas de anos de convívio com funcionários de todas as hierarquias se fez amar e respeitar.
O luto pelo médico admirável é também pela medicina, cada dia mais distante do seu humanismo. Em nome de uma técnica que já foi techné entre os gregos - arte -, os pressupostos mais simples - ver, ouvir e tocar o paciente - foram esquecidos. Dr. Queiroga se deslumbrava com os avanços da ciência e sofria com o abandono dessa arte de curar, que exige sentir o sofrimento alheio como se fosse próprio. Cura-te a ti mesmo, estava escrito no templo do deus Apolo. Curar-se é primeiro enxergar que existe uma dor além da nossa. Tentar aplacá-la, como fez Queiroga durante toda vida, é ser verdadeiramente médico.
Fale com Ronaldo Correia de Brito: ronaldo_correia@terra.com.br
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