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Quarta, 7 de outubro de 2009, 08h04

Mudanças climáticas: o povo fala

Amália Safatle
De São Paulo

O que acontece quando uma empregada doméstica e um professor universitário sentam-se à mesma mesa para discutir combustíveis fósseis, aquecimento global, desmatamento? O Brasil e mais 38 países participaram no final de setembro de uma ampla e representativa consulta pública, buscando de cidadãos do mundo recomendações para se enfrentar a crise climática.

O projeto Visões Globais do Clima (WWV, na sigla em inglês), criado pelo Comitê Dinamarquês de Tecnologia, tem como objetivo coletar opiniões de cidadãos comuns do mundo todo e tentar influenciar a posição dos governos nas negociações internacionais do clima, que ocorrerão durante a 15ª Conferência das Partes das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP 15), em Copenhague, na Dinamarca, de 7 a 18 de dezembro.

"Geralmente, as decisões que envolvem os interesses de todo o mundo são tomadas de cima para baixo. Com essa experiência de democracia participativa, queremos inverter essa situação e dar espaço àqueles que terão de viver com a política climática seja ela qual for, e sobretudo com as consequências do aquecimento global", afirmou André Ferretti, coordenador do Observatório do Clima - OC, responsável pelo projeto no Brasil juntamente com o Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas - GVCes.

O Comitê Dinamarquês de Tecnologia se comprometeu em apresentar as recomendações consolidadas dos entrevistados de todos os países durante a COP-15.

E o que sugerem os brasileiros? Entre as principais recomendações estão a criação de um fundo mundial - monitorado por uma agência reguladora - para financiar tecnologias de redução de gases do efeito estufa, além de prover educação básica sobre mudanças climáticas, cumprir metas de redução de CO2, taxar os combustíveis fósseis e combater o desmatamento. Na visão dos entrevistados, os países que não se comprometerem a um acordo global deveriam ter seus produtos sobretaxados no comércio internacional e o dinheiro complementaria esse fundo.

Os brasileiros também propuseram a criação de um comitê internacional para lidar com as questões climáticas, sobretudo com o envolvimento dos maiores países emissores de gases estufa. O comitê seria responsável por ações de comunicação e educação para as mudanças climáticas, com foco nas energias renováveis e na transferência de tecnológica dos países ricos aos países em desenvolvimento.

Na opinião dos entrevistados, todas as nações deveriam criar políticas públicas para medir as emissões e engajar os setores da sociedade no combate às mudanças climáticas.

Foram ouvidos 100 moradores da cidade de São Paulo, procedentes de todas as regiões brasileiras e com diferentes perfis socioeconômicos, étnicos e culturais - a fim de compor uma amostra próxima da diversidade da população brasileira a partir dos critérios censitários do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A consulta foi feita da seguinte forma: divididos em grupos, os participantes assistiram a quatro vídeos sobre as mudanças climáticas e os principais temas envolvendo as negociações internacionais na ONU. Cada vídeo servia como base para a discussão de um tópico: mudanças climáticas e suas consequências, objetivos e urgências, gases do efeito estufa e economia da tecnologia e adaptação.

Depois da apresentação de cada vídeo, havia uma discussão geral, seguida de perguntas específicas, com alternativas a serem assinaladas pelos cidadãos.

Em termos gerais, 91% dos entrevistados dos 39 países consideram as mudanças climáticas uma questão urgente e têm expectativa de que um acordo climático seja fechado na COP (entre entrevistados brasileiros, esse índice foi de 98%). E 87% defendem a criação de um fundo global de mitigação (combate) e adaptação ao aquecimento global.

"Quase todos querem ações imediatas e cobram compromissos dos governos em termos de metas internas e externas", disse Michelle Muhringer, coordenadora do WWV pelo GVces. Mas os entrevistados querem metas de redução diferenciadas para quem emite mais gases de efeito estufa e 55% entendem que os países menos desenvolvidos devem ficar de fora quando o assunto é "quem paga a conta".

Os resultados detalhados da consulta feita nos 39 países pode ser acessada (em inglês) em: http://results.wwviews.org/new2/?cid=blank&gid=1631&ccid=blank&cgid=blank&question=blank&rec=0


Amália Safatle é jornalista e fundadora da Página 22, revista mensal sobre sustentabilidade, que tem como proposta interligar os fatos econômicos às questões sociais e ambientais.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

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