
Eduardo Tessler
De Porto Alegre (RS)
O genial humorista Grouxo Marx celebrizou o bigode pintado. Seu jeito era tão engraçado que combinava bem com a tinta preta do bigode. Grouxo divertiu o mundo em 14 inesquecíveis filmes e morreu às vésperas de completar 87 anos, em 1977.
O nem tão genial político maranhense José Ribamar Ferreira de Araújo Costa, o José Sarney, também pinta o bigode. Mas suas trapalhadas no comando do Senado Federal não combinam com a tinta que escurece os pelos entre o nariz e a boca. Já foi presidente da República, na vaga de Tancredo Neves, e hoje disputa eleições pelo Amapá, mesmo tendo residência, família e base no Maranhão, onde já foi governador. Sarney tem 79 anos e segue na ativa, entre escândalos que bem dariam um filme.
O até há pouco desconhecido hondurenho Manuel Zelaya é outro que pinta o bigode. A Embaixada do Brasil em Tegucigalpa está há mais de 15 dias com este hóspede tão ilustre como incômodo. Zelaya está vivendo no prédio da chancelaria brasileira com pouco luxo, mas jamais descuida o bigodão. Aos 57 anos, o presidente deposto tenta voltar ao poder. De bigode pintado.
Tegucigalpa é uma das capitais menos aconchegantes da América Latina. Tem pouco mais de 500 anos de história, mas exibe uma arquitetura entre o moderno kitsch dos anos 50, com alguns toques da cultura espanhola do século XVII. Não é uma base disputada pelos diplomatas do Itamaraty, nem de qualquer outro país. É uma cidade feia. Economicamente é menos importante que a pujante São Pedro Sula, com um terço de seu tamanho.
Honduras é um país pequeno, a metade do estado do Rio Grande do Sul, cujo comércio com o Brasil não chega a pesar na balança. Na diplomacia Honduras é considerado castigo. Com a embaixada invadida, então, nem se fala.
Ah, o bigode pintado de Zelaya.
No Mar do Caribe, que banha o norte de Honduras, jacaré nada de costas. E não é pelas piranhas, mas pelas incertezas políticas.
Roberto Micheletti não usa bigode, nem pinta o cabelo. É deputado nas últimas oito legislaturas e desde 2006 presidente do Congresso de Honduras. Tem 66 anos e tentou ser o candidato a presidente pelo Partido Liberal por duas vezes, mas perdeu em ambas. Na primeira, em 2005, foi seu ex-aliado Zelaya - o do bigode - quem ganhou o direito. E levou a presidência. No final do ano passado Micheletti tentou de novo, mas aí foi o vice de Zelaya, Elvin Ernesto Santos, quem ganhou as prévias.
Micheletti é o atual presidente de Honduras. Como presidente do Congresso, assumiu o posto vacante de Zelaya. Elvin Ernesto Santos já havia se desencompatibilizado exatamente para disputar as eleições de novembro. Afinal, quem tem razão? Zelaya e seu bigodão ou o Micheletti e seus cabelos brancos?
Manuel Zelaya foi eleito. Recebeu o mandato através das urnas. Diz a cartilha democrática que esse poder é inviolável. A menos que...Zelaya feriu a constituição. Segundo o livro máximo de Honduras, nenhum chefe de executivo pode propor reformas nas leis básicas da Constituição. A reeleição, por exemplo, não é permitida. A pena constituicional para quem tentar mudar essa lei é perda dos direitos civis por 10 anos. Zelaya tentou propor um plebiscito para que a reeleição fosse aprovada. O Judiciário condenou. O Legislativo concordou com a Justiça. E Exército cumpriu e carregou Zelaya em junho de sua casa até um avião. Destino, Costa Rica.
Micheletti nunca escondeu seu desejo de ser presidente. Agora curte esse prazer, ainda que por vias tortas. Já o bigode pintado de Zelaya anunciou que só sai da Embaixada do Brasil se for para assumir a presidência outra vez. Enquanto Elvin Ernesto Santos, que não usa bigode, torce para que o tempo corra. Ele é candidato à presidência na eleição de 29 de novembro.
Manuel Zelaya é um artista como Groucho Marx, mas politicamente se envolve em confusões como José Sarney.
Zelaya é mais Groucho ou mais Sarney?
Terra Magazine
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