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Site Oficial/Reprodução
"Na capa do disco, todos estão de costas e apenas Ronei vira o rosto timidamente, mas mostra a cara sem medo, na primeira página do encarte".
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Paquito
De Salvador (BA)
O Cd Frascos comprimidos compressas, da banda Ronei Jorge & os Ladrões de Bicicleta começa com apenas uma guitarra fazendo a batida do gênero que, com algumas exceções, estará presente ao longo de todo o disco: o samba. Depois entra a voz de Ronei, canta uma estrofe inteira e, em seguida, ouve-se a massa sonora, composta pelo baixo, bateria e guitarras da canção Nêga, palavra bem comum que se usa na Bahia pra demonstrar afeto. E afeto é o que não falta: dilacerado, intenso, destilado nas canções sempre curtas, de poucas metáforas que, por isso mesmo, quando aparecem, chamam a atenção, como o "carrossel de luz", ainda de Nêga.
Eu poderia dizer que Ronei Jorge & os Ladrões de Bicicleta, banda do cenário de rock da Bahia, lançou um grande disco por várias razões: a integração entre Ronei (voz e violão), Edinho (guitarra e teclados), Pedrão (bateria) e Sérgio (baixo) está no seu melhor, após cinco anos juntos, e sem as passagens instrumentais mais longas do primeiro Cd; as canções estão azeitadas e Ronei - que divide a autoria com Edinho apenas em Circule seu sangue - se aventurou até a sair um pouco do seu modo de compor, sem que, com isso, tenha prejudicado sua assinatura artística; a produção de Pedro Sá, que também produziu os dois últimos discos de Caetano, e apostou na simplicidade ao fazer um disco só com os integrantes do grupo mais o guitarrista Juninho Costa e a voz discreta de Lia Lordelo.
No entanto, há algo que não tem como se explicitar, mesmo sabendo que tudo que se disse acima contribuiu para o resultado final: a música simplesmente se dá, e toda palavra é insuficiente pra dar conta da "mágica querendo ser prece".
E quem diria que tudo começou em 1982, quando a criança de oito anos disse ao pai que queria ouvir rock & roll. Este, pouco afeito ao gênero, mas louco pra agradar o filho, foi a uma loja, pediu ao vendedor discos de rock, e este lhe indicou Lp's do Van Hallen, Kiss e Black Sabath, que botou medo no menino, mas os outros dois o conquistaram para o rock, em particular, e à canção popular, no geral. Daí para ouvir Roberto Carlos, Caetano e Walter Franco, além das bandas pós-punks, foi um longo caminho. O passo seguinte consistiu em fazer parte de bandas de rock numa Salvador marcada pelo nascente mercado da música de carnaval.
O encontro com os outros "ladrões" começou a partir de uma vontade do baterista Pedrão - curtidor, sem hierarquizações, da Jovem Guarda, do jazz e rock progressivo - de tocar as músicas de Ronei. Pedrão chamou Edinho, também das hostes jazzísticas, e Sérgio apareceu como o elemento que faltava, mais ligado ao pop.
Lembro da primeira apresentação deles numa praça de shopping em Salvador, no bairro do Rio Vermelho, quando conquistaram a platéia, tocando Me deixa em paz, de Monsueto e Arnaldo Passos. Daí em diante, um público jovem começou a se amarrar na banda, espécies de emos sem as típicas roupas e penteados: os Ladrões de Bicicleta são emos por dentro, já que as canções versam sempre sobre amor e paixão, necessários para dar gosto e sentido à vida. E Ronei arremata me dizendo que amor é assim mesmo, rende assunto, tem muito que se falar.
Me detenho em Quem vem lá, cujos versos "vou ter de fazer de conta que sou alguém" e "quem vem lá que eu não conheço (...) sou eu" surpreendem por assumir fraturas no ego e conflitos de identidade, emblemáticos de uma geração - todos estão na casa dos trinta - que tem acesso a tanto e a tudo, mas busca seu próprio caminho. Nessa busca, as canções e os arranjos têm um nível de imprevisibilidade provocadores, a gente fica se perguntando pra onde irá esta ou aquela melodia, ou como o ritmo se resolverá em determinado trecho. Os "ladrões" estão também adequando, como nunca, à exuberância instrumental com o que pedem as canções. Ninguém brilha insistentemente só, o grupo é coeso e o som, vigoroso.
Na capa do disco, todos estão de costas e apenas Ronei vira o rosto timidamente, mas mostra a cara sem medo, sorriso mais no olhar que nos lábios, na primeira página do encarte. E ele é assim no bate-papo, no bate-bola, discreto que, no entanto, não hesita quando instado a mostrar talento. A programação visual, da turma da Santo Design, e as fotos de Hirosuke Kitamura, estão uma beleza: detalhes de interiores - portas, janelas, chuveiros etc. - de dentro de um apartamento, recendendo a intimidade, como são as canções todas, que tematizam o interior das casas e das pessoas.
Tudo, enfim, passa pela esfera das relações pessoais, até a tensão entre os roqueiros baianos e a música de carnaval em Aquela dança, definida na ambiguidade dos versos : "o seu caminho é o carnaval/ o meu não, é um só (sol)". Sol da Bahia, música do Brasil, samba do rock, a música nua e orgânica de Ronei Jorge & os Ladrões de Bicicleta festeja a intensidade da vida entre frascos, comprimidos, compressas e beijos doces, sabida que eu nem sei, ninguém sabe nem nunca saberá, basta ouvir.
Terra Magazine