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Quinta, 8 de outubro de 2009, 08h18 Atualizada às 08h50

A Olimpíadas

Sírio Possenti
De Campinas (SP)

Sou aficionado das mesas-redondas. Não tanto pelos temas - embora, em alguns casos, eu queira aprender, compreender ou verificar quais são as opiniões dos convidados e participantes sobre temas quentes. Confesso que as surpresas têm sido poucas: oposicionistas falam mal da política externa de Lula, apoiadores do governo, a favor; oposicionistas falam mal de Zelaya (muita gente só é contra ele porque usa bigodões e chapéu...) e de Chávez, apoiadores, de Micheletti e de Uribe. Aliás, fala-se pouco, muito pouco do projeto de re-reeleição de Uribe.

Mas o que me interessa mesmo é a falação. Em todos os sentidos: da variação de sotaques e de gramática à repetição dos argumentos. Na sexta-feira passada, feito o anúncio de que as Olimpíadas de 2016 serão no Rio, Brasil, zapeei à procura de conversas sobre o tema. O que mais via eram duas cenas repetidas: o momento da abertura do envelope e, depois, Lula dando declarações. Um pouco curiosamente, numa sala cheia e diversificada de um canal de TV afiliado à Rede Globo, só ouvi elogios ao desempenho de Lula em Copenhague (a exceção era Fátima Bernardes). Foi uma das poucas surpresas que tive nos últimos tempos.

(Muita gente elogiou a fala de Lula. Alguns, claro, acharam que ele foi cafona, com sua conversa meio sentimental. Eu queria ver o que diriam dele se a cidade escolhida fosse outra).

Nessa falação toda sobre Olimpíadas, o que mais chamou minha atenção - achei isso impressionante - foi que todos, de gregos a troianos, de Lula aos jornalistas mais gabaritados (!), todos proferiram pelo menos uma vez, mas, em geral, mais de uma, as expressões "a Olimpíadas" e "o Jogos Olímpicos". Coerentemente, também se disse que a do Rio será "a melhor Olimpíadas" etc.

Esse comportamento gramatical se explica: a questão do sentido é fundamental para as línguas, e, às vezes, ele - o sentido - se impõe à sintaxe. No caso, como se trata de um evento olímpico, de uma edição dos tais jogos, não é propriamente espantoso que seja tratado no singular. Isto é, como se "Olimpíadas" não fosse plural. O mesmo vale para "Jogos Olímpicos".

O estranho nessa construção é que ela viola uma regra aparentemente sem exceção do português informal: ouve-se muito uma construção sem marca de plural na segunda posição (os político, os livro, as casa), mas nunca uma em que tal marca não esteja presente na primeira posição (muitos palpiteiros fajutos falam do desaparecimento de todos os "SS", mas este é só mais um erro bobo de análise).

Ora, em "a Olimpíadas" e "o Jogos Olímpicos" está no singular exatamente o artigo inicial e a marca de plural aparece nas palavras seguintes. O "normal", para gente menos letrada, seria dizer "As olimpíada" e "Os jogos olímpico". Não, acho que "os Jogo Olímpico" não ocorreria, talvez por causa da abertura da primeira vogal de "jogos", no plural. Mas é apenas um palpite, até porque se ouve "os ovo", "os porco", que têm a mesma característica.

O fato é que a imprensa não se preparou para o evento. Se o fizesse, e dado o que em geral ela (não) pensa sobre língua, todos os jornalistas estariam falando "As Olimpíadas" e "Os jogos Olímpicos". O que estão fazendo os colunistas que assessoram os jornais? Hein?

A assessoria de Lula também dormiu. Podia ter comentado o caso com o presidente. Provavelmente, ele aprenderia com uma só aula.

(No mesmo estilo, também ouço muito "o Estados Unidos", e não só em narrações esportivas, embora, nesses casos, essa construção pareça ser a regra. Ouço-a também em programas de que participam embaixadores e outros experts, todos muito cultos e poliglotas).

É um caso curioso. Mas não adianta dizer apenas que é um erro, que o Brasil começa mal sua era olímpica. É preciso tentar uma explicação. Minha suposição, repito, é que se considera os EUA e os Jogos e as Olimpíadas como unidades. Portanto, o artigo fica no singular.

***
Ferreira Gullar e os lugares-comuns

Há duas semanas, em "Bola de cristal", sua coluna dominical na Folha, alegando ser apenas poeta ("não posso provar o que afirmo" etc. - não sei o que isso tem a ver com poesia...), Ferreira Gullar emitiu palpites sobre as próximas eleições presidenciais. Suas avaliações não estão em questão - quer dizer, eu não as ponho em questão, pelo menos aqui. O que achei estranho foi ler em suas previsões e nas razões que alegou para suas crenças as mesmas coisas que vêm sendo ditas há uns 15 meses. Eu achava que ia ler alguma coisa "poética", ou dessas que não se podem provar.

Vejamos: ele acha que Dilma não vence as eleições por várias razões: a) está em plena campanha ao lado de Lula e só tem de 17 a 19% das intenções de voto; b) Serra não está em campanha (eis o lado poético de Gullar...) e tem de 36 a 40% ; c) a doença de Dilma: mesmo curada, o eleitor indeciso vai preferir o certo ao duvidoso; d) a candidatura de Marina Silva, que lhe roubará votos porque é mulher e porque saiu da base de Lula; e) Dilma nunca disputou eleições e não tem comunicabilidade (sic) e simpatia; f) o único trunfo de Dilma é o apoio de Lula.

Ele não precisava ter escrito a coluna. Ou devia, em vez de situá-la no "campo" poético, dizer simplesmente que ia fazer um resumo do que a maioria absoluta dos jornalistas tem dito nos últimos tempos.

Ora, poesia!!


Sírio Possenti é professor associado do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua, Os limites do discurso e Questões para analistas de discurso.

Fale com Sírio Possenti: siriopossenti@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

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EFE
"Todos, de Lula aos jornalistas mais gabaritados, proferiram ao menos uma vez, as expressões "a Olimpíadas" e "o Jogos Olímpicos".

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