
Paulo Costa Lima
De Salvador (BA)
Algo me incomodou na matéria preparada pela Globo News visando celebrar a notícia das Olimpíadas de 2016 no Rio. Não que não fosse bonita e emocionante como a ocasião pedia. O incômodo veio da escolha da trilha sonora.
Se não falha a memória, escolheram uma sinfonia de Beethoven em plena efervescência de seu Scherzo. Fiquei dividido entre o impacto da sinfonia, as imagens deslumbrantes do Rio e de seu povo, e uma discordância moral grave: esse deveria ser o espaço de uma música brasileira!!
Curiosamente, essa discordância moral tem raízes cariocas profundas pela via de Policarpo Quaresma, inesquecível personagem de Lima Barreto que decidiu aprender violão porque era o instrumento nacional, recuperar o tupi - e de gesto nacionalista em gesto nacionalista foi se tornando exótico e tido como louco.
Há uma ingrisilha (1) visível entre o que sentimos pela Europa e mundo desenvolvido, e o que sentimos por nós mesmos. A própria construção de identidade no Brasil toma os países de referência como alteridade contra a qual busca afirmação. A intensidade daquilo que sentimos pela seleção nacional de futebol atesta a centralidade do tema, tendo sido o futebol durante décadas sua válvula de escape.
Séculos de condição periférica deram origem a tal imbróglio, um verdadeiro complexo temático que inclui a vergonha dos indicadores sociais, a falta de 'desenvolvimento', o pouco investimento em ciência e tecnologia, já existe um santo brasileiro?, e uma miríade de outros assuntos, da moda à psicanálise...
Em todos esses temas, que ocupam a nossa pauta diária, surge o perigo de uma alienação profunda com relação a esse Outro estrangeiro. Não que imitar coisas boas seja ruim, longe disso, o problema é a perda da saudável perspectiva de nossas diferenças constitutivas.
Vale lembrar que no início do século XX, a Catedral da Sé de Salvador foi derrubada para que os trilhos do bonde corressem livremente em nossa Praça da Sé (daí em diante sem Sé). Tal como a Transamazônica, o fato exemplifica uma sanha desenvolvimentista que corrompe a própria noção de desenvolvimento.
Tudo isso acaba conferindo uma aura de redenção à escolha do Brasil como sede das Olimpíadas de 2016 - antecedida por outra apoteose, a Copa de 2014. O tom aparece claramente no discurso do presidente Lula - por sinal muito eficaz para o desafio em questão.
Sou daqueles que acredita que o saldo positivo dessas iniciativas é significativo, e que estamos diante de vitórias inquestionáveis. Não é esse o ponto. A questão é que nos próximos anos teremos uma oportunidade concreta de revisitar essa questão estrutural da relação com o que é estrangeiro.
Seria muito ingênuo embarcar na idéia de que séculos e séculos de consolidação de uma determinada estrutura (centro-perifeira) sejam abolidos por um evento mágico - não importa de que dimensão. A oportunidade real é a de avançar na consciência sobre a questão.
Portanto, além de aprender inglês, as nossas crianças deviam ter o sistema imunológico cultural reforçado por uma boa dose de 'cultura brasileira' - de Chico Science a Oswald de Andrade -, condição indispensável para receber com propriedade os visitantes de 2016. Esse desafio, o da educação, a grande possibilidade de alguma redenção plausível.
(1) O dicionário Houaiss registra "ingresia": "barulho, berreiro, alarido, balbúrdia, ingranzéu".
Terra Magazine
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