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Sexta, 9 de outubro de 2009, 08h13

Uma semana desagradável

Vera Gonçalves de Araújo
De Roma

O plano não deu certo. Na quarta-feira passada, o Supremo tribunal constitucional italiano demoliu a última esperança de Silvio Berlusconi se colocar acima da lei. Os juízes decidiram que o chamado "pacote Alfano" - a lei que garantia a imunidade do primeiro ministro, do presidente da república e dos chefes de câmara e senado - é inconstitucional. Segundo o Supremo, uma lei do gênero devia ser aprovada com os trâmites de uma lei constitucional, e não - como foi - seguindo o procedimento ordinário.

Agora Berlusconi deverá enfrentar mais dois processos. Nenhum deles vai lhe causar grandes danos, no máximo, um pouco de desagrado e um certo mal estar.

Os analistas políticos sustentam que o chefe do governo italiano tem duas opções: demissões e convocação de eleições antecipadas, ou continuar governando por mais três anos. Os conselheiros de Berlusconi avisam aos interessados que a segunda opção é a mais provável. Já no passado ele superou dificuldades judiciárias muito parecidas com essa. Mas agora a situação é diferente: falou-se até demais do premiê italiano nos últimos meses, e não foram elogios. Mas daí a defender a tese que Berlusconi vai se demitir, me parece mais uma atitude de torcedor do que de analista político.

Com grande cautela e discrição, começaram leves movimentos para preparar o pós-Berlusconi. No cenário político italiano nesse momento predomina a mania do "think tank", com dezenas de grupos de políticos, empresários, economistas e intelectuais que lançam propostas e estratégias. Esta semana, por exemplo, se apresentou uma fundação patrocinada por Luca Cordero di Montezemolo, empresário que é presidente da Fiat e da Ferrari.

Seguindo uma tendência consolidada, o nome do novo centro de estudos contém as palavras "Itália" e "futuro": se chama "Italia futura". A iniciativa de Montezemolo parece muito um primeiro lance para entrar de sola no mundo da política. Mas - como o rapaz é muito cauteloso - dificilmente ele vai se lançar sem pelo menos três para-quedas e dois capacetes na aventura.

A sentença do Supremo surtiu o efeito de colocar em segundo plano outra questão candente. No domingo passado, aconteceu em Roma uma grande manifestação popular para defender a liberdade de imprensa, que demonstrou que a tensão entre Silvio Berlusconi e a mídia que ele não controla atingiu níveis inéditos.

O "Cavaliere" fez comentários pesados e recorreu a todos os meios que tem à disposição - e não são poucos - mas apesar dos esforços não parece capaz de consertar os estragos feitos pelos recentes escândalos com garotas de programa e menores. Com esses ingredientes, o outono recém-iniciado parece condenado a uma série infinita de ameaças e polêmicas.

Enquando isso, os pobres problemas reais do país ficam estacionados. O desemprego aumenta, as casas continuam desabando por enchentes e outras calamidades muito pouco naturais, mas - como cantavam os Queen - o show deve continuar.

Vera Gonçalves de Araújo jornalista, nasceu no Rio, vive em Roma e trabalha para jornais brasileiros e italianos.


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EFE
"A tensão entre Silvio Berlusconi e a mídia que ele não controla atingiu níveis inéditos", conta a jornalista Vera Araújo.

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