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Sábado, 10 de outubro de 2009, 08h43

Marcelo Simão Branco entrevista Jorge Luiz Calife

Roberto de Sousa Causo
De São Paulo

Jorge Luiz Calife é o autor brasileiro mais proeminente no tipo de ficção científica conhecido como "hard" - aquela com mais conteúdo científico e tecnológico, praticada por Arthur C. Clarke, Isaac Asimov e outros. Contos de sua autoria apareceram em revistas como Playboy, EleEla, Isaac Asimov Magazine e Quark, e foram também publicados na França e em Portugal.

Calife foi o homem que deu a Arthur Clarke a dica de como escrever uma sequência ao seu clássico 2001: Uma Odisséia no Espaço. É autor da primeira e única trilogia brasileira de romances de ficção científica hard, pela primeira vez reunida num único volume - Trilogia Padrões de Contato, em edição da Devir de São Paulo. Nela o leitor encontra uma fabulosa "história do futuro", girando em torno do contato da espécie humana com uma inteligência alienígena superpoderosa e misteriosa, a Tríade, que tem seus próprios planos para a humanidade. O fio condutor é Angela Dunca, jovem tornada imortal pela própria Tríade, o que permite a ela testemunhar o desenrolar dos séculos, conforme a humanidade vai ganhando as estrelas. Essa história do futuro repleta de um sentido do maravilhoso é expandida nos contos reunidos no seu livro As Sereias do Espaço (Record, 2001).

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Calife é também um jornalista científico e divulgador, tendo escrito livros sobre Astronáutica e a Conquista do Espaço.

Aqui, nosso colaborador, Marcello Simão Branco, entrevista Calife, a respeito da nova edição em um único volume, da Trilogia Padrões de Contato. Branco é um dos editores, com Cesar Silva, do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica (publicado atualmente pela Tarja Editorial.

Calife, fale um pouco de sua trajetória como jornalista e escritor de divulgação e ficção científica.
Aconteceu tudo paralelamente. Eu escrevi a série do Padrões de Contato (o primeiro romance da trilogia) enquanto fazia faculdade de jornalismo, e comecei a trabalhar no Jornal do Brasil no mesmo ano em que saiu o meu primeiro livro, 1985. E claro, como eu cobria a área de Ciência, as entrevistas que eu fazia com cientistas e astronautas forneciam material para os contos. Principalmente na parte de wormholes - buracos de minhoca - e viagens no tempo, assunto que eu conversei muito com o físico Mario Novello do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, quando era repórter do JB.

Em que medida o agradecimento de Arthur C. Clarke no posfácio de 2010 contribuiu para o lançamento do primeiro livro da trilogia "Padrões de Contato"?
Foi fundamental. Sem aquele agradecimento do Clarke a Nova Fronteira não teria publicado o livro.

Padrões de Contato é considerado o mais significativo livro de ficção científica brasileira dos últimos vinte anos. Mas em que medida continua atual agora em seu relançamento, já no fim da primeira década do século 21?
A série do Padrões de Contato é mais atual agora do que na época em que foi escrita. O mundo está à beira de uma mudança climática como a que acontece na história, astrônomos e escritores como David Brin discutem os possíveis benefícios e riscos de um contato com inteligências extraterrestres, e a exploração comercial do espaço já é uma realidade, com empresas como a Virgin Galactic e a Bigelow Aerospace investindo pesado nesse campo. Sem falar que a pesquisa de planetas extra-solares descobre novos mundos todo dia. E nós já temos as videopranchetas usadas pela Angela.

Você acha que existe alguma dificuldade em um país com uma produção científica modesta, como o Brasil, em produzir boas histórias da vertente hard?
Para se fazer FC hard é preciso ter um bom conhecimento de ciência e tecnologia. No caso do Brasil eu acho que temos poucos autores hard porque o pessoal é meio preguiçoso na hora de pesquisar os assuntos e fica imitando o que vê no cinema, que é um péssimo modelo.

O universo de "Padrões de Contato" continua com um novo romance Angela entre dois Mundos. Fale um pouco deste novo livro, a ser lançado em breve pela Devir.
Angela entre dois Mundos era pra ser o primeiro livro da série, mas eu levei 25 anos para terminá-lo. É o episódio um da história e sem ele não existiriam os outros. A história começa quando a Angela tinha nove anos e se despede da mãe dela, a embaixadora Isabela Duncan, que parte para uma missão de contato em Alfa Centauri. A nave cai numa fenda espacial e Isabela vai parar na galáxia Colar de Jóias, a milhões de anos-luz da Terra. Angela cresce abalada pela perda da mãe. Aos 17 anos ela vem à Terra, visitar os tios que moram no Paraná, no sul do Brasil, e conhece o jovem Mário Ramos. Angela tornou-se uma jovem artista de sucesso nas colônias espaciais, mas vive obcecada pela busca da mãe perdida e por sonhos estranhos onde ela viaja pela galáxia e se comunica com formas cristalinas luminosas. E quando Isabela consegue enviar um pedido de socorro, ela e Mário partem para resgatá-la.
Nesse cenário futuro, a Mudança Climática Global transformou a Terra num mundo inóspito e despovoado, a maior parte da população morreu ou emigrou para o espaço. As cidades desapareceram e foram substituídas por arcologias, mega-estruturas baseadas no trabalho de Paolo Soleri e Buckminster Fuller que agridem menos o meio-ambiente do que as megalópoles atuais. Mas algumas pessoas, como a família da Angela, preferem viver em residências aéreas, bolhas cibernéticas flutuando entre as nuvens, ao sabor dos ventos.
Eu levei 25 anos para terminar esse livro porque faltava alguma coisa na caracterização da Isabela Duncan, eu sabia que ela tinha que ser uma mulher tão fabulosa quanto a filha, mas não conseguia visualizá-la. A trama de Padrões de Contato começa dois anos depois do final de Angela entre dois Mundos.

Escritor e crítico, Roberto de Sousa Causo é autor do romance A Corrida do Rinoceronte.

Fale com Roberto Causo: roberto.causo@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

 
Reprodução
"Trilogia Padrões de Contato", de Jorge Luiz Calife, o autor brasileiro da ficção científica "hard"

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